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vista parcial do Teatro Santo Antônio vista parcial do Teatro Santo Antônio Acervo

NO TEATRO SANTO ANTÔNIO- A FESTA DE DOMINGO

Escrito por  Sexta, 17 Julho 2015 11:40

A crônica jornalística aracatiense tem-nos fornecido importantes vestígios para a reconstituição do passado cultural da Terra dos Bons Ventos. Sobremaneira a Casa da Cultura em seu sítio na rede mundial de computadores tem disponibilizado centenas de arquivos oriundos da coleção de jornais antigos da família Freire. Selecionamos este recorte recolhido do jornal O Tempo, publicado em Aracati, em cujas páginas está escrito o artigo “No Teatro Santo Antônio- A Festa de domingo”. O texto, escrito há mais de um século, além de descrever uma festa em benefício da Sociedade de S. Vicente de Paulo, apresenta-nos importantes detalhes da vida cultural aracatiense com destaque para o Teatro Santo Antônio, propriedade da família Figueiredo.

 

Como fora anunciada, realizou-se no domingo, 19 do corrente (1914), a festa artística, promovida em benefício da Sociedade de S. Vicente de Paulo.


O ilustre Dr. Eduardo Dias viu coroados os seus esforços para levar a efeito o grande festival.


Nos últimos dias da semana, via-se a todo momento, o humanitário médico em grande atividade, empregando os meios de conseguir o seu tentame, e, sem cansaço, assistia a todos os ensaios da orquestra, sempre satisfeito com a alegria, a boa vontade e a manifesta dedicação com que se apresentavam as gentis senhoritas que deveriam tomar parte no concerto, isto é, na parte musical da festa.


Até que no dia aprazado, viu S.S. repleto o Teatro Santo Antônio, correspondendo à enchente aos seus desejos.


De fato, na tarde de domingo, já grande era o número dos que se aproximavam e entravam, curiosos, a fim de apreciarem a bem cuidada ornamentação do edifício; e efetivamente o seu interior achava-se festivamente ornado com o máximo gosto.


Viam-se, pendentes do teto, cordões de bandeiras que, tomando várias direções, iam em busca dos camarotes, onde terminavam.


A porta de entrada, salão e corredores do Teatro achavam-se igualmente embandeirados, e a iluminação, se bem que, algumas vezes, diminuísse de força, contudo esteve belíssima, emprestando aos camarotes e à plateia, repletos de senhoras e cavalheiros, a sua claridade, fazendo sobressaírem as lindas toaletes e as joias reluzentes.
Ao escurecer, era já grande a afluência de famílias que procuravam penetrar no recinto do Teatro, em busca dos camarotes e das cadeiras.


Eram ainda 19 horas e os porteiros mal podiam atender ao número de pessoas que, de instante a instante, chegavam.
Antes de começar o festival, era belíssimo o aspecto apresentado pelos camarotes, repletos, notando-se bem a animação e o entusiasmo que em todos reinava.


Às 19 horas e meia, teve ele início com a Scena e Duetto da op. Il. Guarany, do primoroso Carlos Gomes, executada pela Philarmônica Figueiredo, que esteve irrepreensível, o mesmo se notando com a execução do QUARTETO DE DAMASIO, ao abrir a terceira parte do programa.


Terminada a execução da ouverture, foi a mesma bastante aplaudida, depois do que desceu o pano, a fim de preparar-se o palco para que o Dr. Eduardo fizesse a sua conferência.


Ao subir o pano, uma chuva de palmas recebeu o orador que, após um momento de silêncio, começou a ler a sua conferência, cujo assunto foi A Pobreza e as Obras de. S. Vicente e D. Bosco.


Apesar do movimento que havia nos corredores, podemos apreciar de perto e bem ouvir os trechos da palestra que, durante cerca de 70 minutos, nos prendeu a atenção.


Começou o Dr. Eduardo, referindo-se à pobreza de Jesus e às classes pobres, procurando demonstrar quais as causas principais da miséria do operário e do artista, lembrando a criação de caixas econômicas e combatendo o peso dos impostos que oprime o lavrador, fazendo imigrar às cidades abandonando os sertões.


Com a eloquência irrefragável dos números mostrou que nas outras nações havia grande número de miseráveis, principalmente nas classes operárias, citando a Inglaterra, a França, os Estado Unidos, etc. e apresentando um quadro doloroso da miséria da Itália, organizado pelo deputado Giolitti, com referências ao ano de 1902.


Falou demoradamente sobre as obras de S. Vicente e de D. Bosco, salientando os seus proveitos sociais e os benefícios que as mesmas têm prestado à pobreza e à juventude e demonstrando a eficácia das missões gloriosas dos salesianos na Oceania, na África, na Patagônia e nos países civilizados, mesmo na Europa.


Terminou a sua conferência com uma peroração à pobreza, cheia de bons pensamentos e de sentimental poesia.


Uma salva de palmas saudou o ilustre e apreciado orador que foi cumprimentado pela comissão organizadora da festa e pelas senhoritas que ouviram-no do palco, disposto em sala para esse fim.


Ao descer da tribuna, foi-lhe entregue pela graciosa menina Luiza Pinheiro um belíssimo buquê de flores naturais, oferecido, em nome das senhoritas presentes, e acompanhado de um cartão com dizeres expressivos e por todos assinados:


Ilustre Sr. Dr. Eduardo Dias
Estas flores puras como o rosicler que lhes doiram as pétalas, simbolizam os sentimentos de nossos corações que vos rendem a singela e expressiva homenagem de sua veneração.
Aceitai-as, entretecidas neste ramalhete, e possam os seus eflúvios perfumosos traduzir, melhor do que a palavra, o nosso reconhecimento pelo esforço que empregastes para o brilhantismo do festival em prol dos filhos diletos de S. Vicente de Paulo.
Augusta, Alice e Esther Pinheiro, Lucia Cavalcante, Luiza Gurgel Figueiredo, Celina Ozório, Judith Souto, Júlia Gurgel, Francisca Gurgel, Primitiva Lopes, Maria Leonor de Castro, Maria Nogueira, Celhia Costa e Bellina de Castro.


Ao receber a significativa oferta, colhida pelo seu esforço, o Dr. Eduardo, surpreso e comovido, beijou a mão que lhe entregava as flores.


Seguiu-se à conferência a GAIVOTA GRACIOSA, de C. Grazione e Walter, tocada pela orquestra que a desempenhou com a máxima correção, como as outras músicas PRIERE, de E.Patierno e VISIONI SULL'OPERA AIDA, G. Verdi.
Essas harmonias foram bem executadas com muito sentimento, deleitando a todos, sobressaindo igualmente as demais do concerto, tocadas por distintas senhoritas e cavalheiros, sob a competente batuta do apreciado maestro João Gomes.


Abriu a segunda parte do programa a apreciada Charanga 24 de Maio, com a FANTASIA DA OP. FAUST, de C. Gounod, tocando admiravelmente bem, apesar de se compor, quase em sua totalidade, de músicos de hoje. O digno maestro Martiniano Monteiro, esforçado regente da Charanga, não poupou esforços para seu bom desempenho no concerto, merecendo por isso, com justiça, os aplausos de que ela foi alvo, ao terminar as peças escolhidas e constantes do programa.


O local ocupado pela mesma achava-se ornamentado com aprimorado gosto, tendo, pendente da varanda, o seu estandarte, ladeado por dois pavilhões brasileiros.


Como constava do programa, foram recitadas várias poesias pelas senhoritas Esther Pinheiro, Maria Nogueira, Celina Costa, Bellina de Castro e Maria Leonor de Castro, que muito se distinguiram pelo modo gracioso e gentil com que se desempenharam.


Não podia ser mais variado e melhor disposto o programa organizado pala distinta comissão promotora da festa: músicas marciais, orquestra, piano a seis mãos, poesias e conferência literária, tudo bem desempenhado e com o máximo gosto na escolha.


Pelo que dele constava deveriam ser executadas três peças a piano, a seis, a quatro e a duas mãos, que com o máximo pesar foram omitidas por se terem enlutado, pelo inesperado falecimento de um tio, as distintas senhoritas Guiomar e Carmeu Vieira que nelas tomariam parte.


A OUVERTURE DU CALIFE DE BAGDAD, de F. Delacour, executada pelas prendadas senhoritas Augusta e Alice Pinheiro e Luiza Figueiredo, que foram de uma felicidade incomparável, despertou vivo aplauso entre os espectadores.


Terminou o festival, belíssima apoteose à Caridade. Muito concorreram para o resultado deslumbrador da mesma, que foi ideia ainda do Dr. Eduardo Dias, o jeito e o bom gosto das exmas. senhoras d. Celina Moura, digníssima esposa do Dr. Pedro Paulo, e d. Francisca Clotilde, ilustrada diretora do Colégio Santa Clotilde, que empenharam vivos esforços para a sua execução e verdadeira expressão.


O quadro vivo não podia ser melhor organizado: o anjo da caridade, representado pela senhorita Marietta Gurgel, foi de deslumbrante resultado; muito se prestaram igualmente à menina Alda Leite, gentil filhinha do Dr. José Leite, interpretando a inocência, que bem o foi pela alvura da pele, os doirados dos cabelos e o todo delicado e cheio de expressiva doçura e o menino Jorge Freire, no seu todo retraído, melhor não podia significar a Pobreza, sempre humilde, sempre dolorida, sempre muda.


Estando em cena a apoteose, o ilustrado Dr. Eduardo Dias, recitou de um dos camarotes de 1ª ordem, um belo soneto de sua lavra, dedicado à família aracatiense, que por falta de espaço deixamos de publicar, o que faremos no próximo número.


Foi uma festa feliz.


Os seus promotores devem estar plenamente satisfeitos, mesmo porque tudo correu na maior harmonia, não havendo um único momento de desgosto, um único motivo de descontentamento.


Os nossos parabéns ao Dr. Eduardo Dias.


Que esta sirva de exemplo para a organização de outras, em benefício da Sociedade de S. Vicente de Paulo, que bem merece os auxílios e aplausos do povo e da família aracatienses.


Fonte:
NO TEATRO SANTO ANTÔNIO: A FESTA DE DOMINGO. O Tempo. Aracati, Ce, p. 3. 26 jul. 1914.

Acesse: http://www.casadaculturadearacati.org.br/hemeroteca.html

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Lido 436 vezes Última modificação em Quarta, 28 Outubro 2015 11:00
Editor Chefe

A Associação Artístico Cultural Lua Cheia é uma entidade sem fins lucrativos. Seus projetos têm por objetivo o desenvolvimento e a promoção da cultural em geral, particularmente o teatro , a literatura, as artes plásticas e a música. Nestes segmentos busca capacitar e divulgar bens e serviços de ordem artístico-cultural.

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