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Detalhe.Abelardo Costa Lima membro da Ação Integralista em Aracati Detalhe.Abelardo Costa Lima membro da Ação Integralista em Aracati Acervo Antônio Monteiro

Abelardo Gurgel Costa Lima-Perfil Político

Escrito por  Quarta, 15 Janeiro 2014 19:24

Pés rapados e cafuzos como eu...


Assim começava seu discurso através da amplificadora a Voz do Aracati, durante a campanha política do ano de 1950, o então candidato a Deputado Estadual pela UDN – União Democrática Nacional – Abelardo Gurgel Costa Lima. A partir daquela campanha eleitoral, Abelardo receberia do povo que o adorava o epíteto de "Bonitão". Esta denominação o acompanhou por quase toda a vida, sendo substituída com o passar do tempo, por "Abelardo Velho," como carinhosamente o povo lhe tratava.

 


Na verdade ele nunca foi nem "pé rapado nem cafuzo", pelo contrário, Abelardo Costa Lima pertencia às tradicionais famílias do Aracati- os Costa Lima e os Gurgeis.


Nasceu em Aracati, na atual rua Cel. Alexanzito, em casa que ainda hoje pertence a sua família no dia 12 de Maio de 1917, um sábado.


Suas primeiras lembranças que deixaram fortes recordações quando criança foram as enchentes de 1922 e muito especialmente da cheia de 1924, onde esteve refugiado das águas do rio Jaguaribe no sítio Cantinho, propriedade do seu avô materno João Adolfo Gurgel do Amaral.


Por causa da cheia de 1924 teve que interromper seus estudos no Externato Santa Clotilde da venerável professora Dona Chiquinha Clotilde. Era seu primeiro mês de escola e também sua primeira professora. Em suas lembranças de infância Abelardo Costa Lima recordava da farda que garbosamente vestia quando frequentava a escola de Chiquinha Clotilde: O gorro branco complementava a blusa branca e a calça branca tudo com branco com uns enfeites para destacar.


Desse tempo de sua infância lembra-se de Aracati como uma cidade triste e decadente.


Conclui o curso primário e o ginasial no Colégio Cearense para onde se transferiu ainda na década dos anos 1920. Mesmo residindo em Fortaleza, nunca se esqueceu do seu Aracati. Todas as férias vinha para seu torrão natal.

 

Quando tinha apenas dezoito anos participou ativamente da fundação, em Aracati, da Ação Integralista Brasileira - Organização de orientação conservadora e nacionalista, sob o comando de Francisco Saboia (Chico Leite). Talvez tenha sido essa sua primeira manifestação pela política.


Capa do livro Terra AracatiensePreocupado com a educação para jovens, resolveu fundar o Ginásio Aracatiense juntamente com Gerardo Carvalho, Antônio Monteiro e Mario Lima. Infelizmente teve que se mudar para Fortaleza, pois assim obrigava o curso de Direito, e o Ginásio Aracatiense não teve a continuidade que tanto desejava.


No período que fazia o curso de Bacharel da Faculdade de Direito, fundou juntamente com vários amigos do Aracati, o Centro Estudantal Aracatiense, que reunia a nata da intelectualidade estudantil de Aracati numa organização composta por mais de 30 participantes.


Sua liderança política começou a se firmar nesse movimento, pois fazia questão de promover encontros na sua "república de estudante", em Fortaleza, e continuava a manter contatos com os amigos mesmo estando de férias em Aracati. Formou a partir de então sua liderança política que iria desabrochar com o tempo.


Ao concluir o curso de Direito, Abelardo Costa Lima estava com 22 anos de idade, casado, e pai de três filhos. Era uma vida de batalha, pois ao mesmo tempo em que tinha de estudar também necessitava trabalhar. Nessa época foi professor de vários colégios em Fortaleza assim como também repórter de alguns jornais da capital.


Em 1941 lança o livro "Terra Aracatiense" a mais importante e completa publicação sobre a história do Aracati, prefaciado pelo historiador Eusébio de Sousa, que ao final de suas considerações afirmava:

 

Abelardo Costa Lima - não seria demasiado repetir - fez obra digna do apreço dos estudiosos e, mais, - que nenhum filho da terra aracatiense, que lhe inspirou que lhe deu motivos para galhardamente sair-se vitorioso na seara das letras, tem o direito de deixar de lê-la.


Não seria Aracati onde primeiro exerceria sua profissão de advogado. O Baixo Jaguaribe, principalmente Limoeiro do Norte e Russas tiveram essa primazia. Na cidade de Limoeiro foi professor da Escola Normal Rural, montou sua banca de advocacia e percorreu o Vale Jaguaribano desempenhando sua profissão.


Deixava então Fortaleza e todos os seus empregos em diversos colégios e como ele mesmo dizia: "resolvi num golpe de audácia deixar tudinho e tentar a vida como advogado no Vale do Jaguaribe".


Em 1945 com a queda do Presidente Getúlio Vargas, no dia 29 de Outubro, o Brasil entrou no processo de redemocratização política. As candidaturas a Presidência da República do General Eurico Gaspar Dutra e do Brigadeiro Eduardo Gomes empolgavam o País.


Novos partidos foram criados. Surgiram as duas legendas que iriam disputar a preferência do eleitorado brasileiro por muitos anos: UDN e o PSD. A UDN ficou no Ceará sob a responsabilidade de Manuel Nascimento Fernandes Távora, pai do Cel. Virgílio Távora, velho aliado do Cel. Alexanzito que apoiava o Brigadeiro Eduardo Gomes. O PSD tinha como sua maior liderança no Ceará, Dr. Menezes Pimentel que apoiava o General Eurico Gaspar Dutra.


Abelardo Costa Lima que, nessa ocasião, morava e advogava em Limoeiro do Norte, recebe um recado e vem ao encontro do Cel. Alexanzito em Aracati, que acabava de retornar do Rio de Janeiro, atendendo aos apelos do velho Manuel Fernandes Távora, "que viesse para o Aracati fundar a UDN para apoiar a candidatura do Brigadeiro na região Jaguaribana".


Dois fortes motivos trouxeram Abelardo Costa Lima de volta ao Aracati: As violentas disputas judiciais no Baixo Jaguaribe, especialmente uma briga corporal, acontecida no interior de uma pensão na cidade de Russas, que tivera com um valente e temido rábula - inconformado com uma derrota; e o convite do Cel. Alexanzito Costa Lima para fundar a UDN – União Democrática Nacional – em Aracati.


Foi a partir daí que Abelardo Costa Lima deixaria a advocacia e se dedicaria então com exclusividade a sua vitoriosa carreira política.


Na sua primeira investida política como candidato a deputado estadual pela UDN nas eleições do dia 19 de Janeiro de 1947, Abelardo Costa Lima não logrou êxito. Não teve o sucesso que esperava na sua iniciante carreira de se eleger deputado estadual. No entanto, seu partido não o abandonou. Logos após a vitória do seu candidato a governador Desembargador Faustino de Albuquerque, foi então nomeado Prefeito de Aracati no dia 16 de março de 1947. Foi recompensado por seu trabalho na formação da UDN em nosso município.


Era a primeira vez que ocupava o cargo de Prefeito de Aracati.


Na eleição municipal de 7 de dezembro de 1947, saiu vitorioso o candidato Francisco Saboia Barbosa – Chico Leite – industrial, gerente da Fábrica de Tecidos Santa Tereza, indicado pela UDN e apoiado por Abelardo Costa Lima que presidiu o pleito e articulou sua candidatura a Prefeito Municipal junto ao Cel. Alexanzito- a maior liderança política daquele tempo em Aracati.


Com a vitória de Chico Leite, Abelardo Costa Lima foi nomeado Secretário da Prefeitura, cargo de elevada importância dentro da administração municipal naquela época.


Com a renúncia do Prefeito Francisco Saboia Barbosa, ocorrida 7 meses após sua posse, Abelardo Costa Lima assumia a Prefeitura de Aracati eleito pela Câmara de Vereadores em sessão extraordinária baseada nos termos do artigo da Constituição Vigente no Estado do Ceará.


03 de Outubro de 1950. A eleição municipal do ano de 1950, talvez tenha sido a disputa política que mais sequela e magoa trouxe e deixou, entre as famílias aracatienses. Aquela eleição marcou definitivamente para sempre toda uma geração que presenciou aqueles dias atribulados do disputado pleito eleitoral. Quem poderá esquecer-se das músicas da campanha, dos comícios, das passeatas, dos apelidos, das brigas ferrenhas entre partidários da UDN e do PSD?


... quero ver o gago e o torto.
Ganhar do Zé Porto e do Bonitão...


Este pequeno trecho de música se referia a Renato Caminha – gago – e o torto ao Gilson Gondim Bandeira, candidato do PSD que disputava com Abelardo Costa Lima – Bonitão – candidato da UDN, a uma vaga na Assembleia Estadual.


Abelardo Costa Lima obteve uma vitória colossal. Além do sucesso da eleição do seu candidato a prefeito, ele, também foi eleito deputado estadual pela UDN somente com os votos de Aracati. Segundo suas próprias palavras: "Num eleitorado de 5.000 votos eu tive quatro mil e poucos votos... Foi minha maior glória"! Estava começando a trajetória que planejara: um dia desempenhar o mesmo papel do seu ídolo político – Cel. Alexanzito – e comandar a política aracatiense.


Uma união que jamais alguém pensou que pudesse ocorrer aconteceu na eleição de 3 de outubro de 1954 quando foi criada a "Coligação Democrática Aracatiense." O acordo firmado pelos diretórios do PSD e da UDN, uniu Abelardo Costa Lima e Ernesto Valente numa mesma eleição para cargos diferentes.


A Coligação Democrática Aracatiense elegeu Abelardo Costa Lima prefeito com 3.615 votos, contra os 1.486 votos recebidos pelo Afonso Lima Soares. Ernesto Valente obteve quase a mesma votação dada ao prefeito eleito: 3.212 votos. Essa havia sido uma demonstração de que o eleitorado havia votado "colado" nos dois candidatos.


Parecia estar selada a paz e a união pelo Aracati.


Ledo engano. A paz durou somente o tempo da campanha. Terminada a apuração, a conspiração começara já durante a passeata da vitória.


Segundo relato do próprio Abelardo Costa Lima, ao passarem pela rua Duque de Caxias e ao ver o povo entusiasmado dando vivas ao "Bonitão", "alguém" – do PSD - se virou para um acompanhante e arrematou: "Precisamos acabar com esse Padre Cícero do Aracati."


Mesmo deixando a Prefeitura Municipal para ser candidato a deputado estadual nas eleições de 3 de outubro de 1958, Abelardo Costa Lima deixava uma forte aliança política formada no município. Fazendo uma comparação entre a política do Aracati e um barril de madeira, ele dizia que era o aro desse barril, pois conseguia segurar duas grandes lideranças que nem sempre estavam de acordo: de um lado Armando Rocha, líder do lado ocidental do rio Jaguaribe, senhor de uma vastidão de terras; do outro lado Ruperto Porto liderança inconteste da região de Praias (Icapui, Mutamba, Ibicuitaba, Melancias, etc...) onde suas propriedades se estendiam e prolongavam. Abelardo era, em Aracati, o aro do barril que unia e segurava os dois para não haver dispersão. Essa aliança funcionou por muito tempo.


Durante seu segundo mandato como deputado estadual, foi eleito Presidente da Assembleia, para o biênio de 1960-1961, derrotando o então candidato do Governador Parsifal Barroso, o deputado do PTB Oriel Mota.


Em 1962 em disputa por mais um mandato na Assembleia Legislativa, Abelardo Costa Lima rompia com a UDN candidatando-se a deputado estadual pelo PTN, partido do Governador Parsifal Barroso, ocupando lugar entre os 10 deputados mais votados no Estado.


Em 1966, Abelardo Costa Lima disputava mais uma vez uma vaga à Assembleia Estadual nesta ocasião pelo Arena, ficando na 1ª suplência. No entanto assumiu o mandato de deputado estadual praticamente durante os quatro anos de mandato.


Em 1974, Abelardo Costa Lima se candidata a uma vaga na Assembleia Estadual. Segundo ele, o Aracati não tinha candidato, além do mais esperava o apoio do então Governador Cesar Cals, apoio que não se concretizou. Infelizmente não conseguiu a vitória que buscava. Recebeu do seu eleitorado 10.397 votos ficando na 11ª suplência.


Era o final de uma carreira brilhante que começou no distante ano de 1947 quando foi indicado pela UDN candidato a deputado estadual pela primeira vez, por inspiração política do seu ídolo Cel. Alexanzito Costa Lima.


Depois de ter ocupado por vários períodos os mais diversos cargos públicos, como prefeito, deputado estadual, presidente da assembleia, secretário de estado, retirava-se do campo das disputas políticas o "político-candidato," não o combatente político.


Uma vez ao ser interrogado sobre o que quis ser e não pode ser? Respondeu:

 

Eu não quis ser nada e fui tudo o que não quis ser; eu nunca almejei sair do Aracati, o máximo dos meus sonhos era ser Prefeito do Aracati! A vida é feita de muitas etapas. Algumas felizes. E eu tive o privilégio de vivê-las.

 

A sua permanência na política se conservaria através dos seus filhos, especialmente Abelardo Filho, que por três vezes foi prefeito de Aracati e por duas vezes deputado estadual.


Abelardo Costa Lima foi um político pragmático, que não fugia aos embates nem dispensava as mais contundentes críticas. Implacável com seus adversários, ferrenho e combativo nos discursos, era também um homem sensível e emotivo. Ao ver uma banda de músicos passar executando nostálgicos dobrados, seus olhos se enchiam de lágrimas.
Sua última manifestação de amor ao Aracati foi a de ser sepultado no seu torrão natal, terra pela qual dedicou toda sua vida e que tanto amou - desejo atendido pela família.


Por ocasião do seu desenlace o professor aracatiense Agamenon Bezerra assim se expressou sobre a personalidade de Abelardo Costa Lima:


Homem simples, carismático, de trato afável, conciliador, Abelardo será sempre lembrado por seus amigos, correligionários, e conterrâneos, não somente por suas realizações de homem público, mas principalmente pela dedicação e amor à sua terra natal...

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Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nascido no Aracati em 30 de novembro de 1946, foi o terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva. Viveu sua infância em Icapui onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta. Em 1957, ingressou no Grupo Escolar Barão de Aracati. Em 1974, casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e deste matrimônio nasceram os filhos Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira.

 

Em 1976 graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN. Atuou à frente do Instituto do Museu Jaguaribano como presidente, função que exerceu em duas diretorias (1976 1979/1982-1985). Foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996) período em que assumiu a pasta da Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.

 

A história e a memória da cidade e do povo aracatiense constituem objetos de seus estudos amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local em que colabora desde 1975. Em 2005 a crônica "O Amor do Palhaço", de sua autoria, foi adaptada para o cinema em um curta metragem (15") homônimo com direção de Armando Praça Neto,

 

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)

Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)

Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009) 

A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)

Fatos e Acontecimentos Marcantes da História do Aracati. (Inédito)

Aracati era assim (Inédito)

Notícias do Povo Aracatiense (Inédito)

 

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