Cena da peça Adolpho em prosa e verso. Cena da peça Adolpho em prosa e verso. Grupo Balaio

ADOLFO CAMINHA | O escritor e o homem

Escrito por  Sânzio de Azevedo Terça, 01 Agosto 2017 21:06

Filho de Raimundo Ferreira dos Santos Caminha e de Maria Firmina Caminha, nasceu Adolfo Caminha em Aracati, Estado do Ceará, no dia 29 de maio de 1867.

 

Aos dez anos de idade, perdeu sua mãe, vítima da grande seca de 1877. Transferido então para Fortaleza, estudou as primeiras letras em casa de parentes. Mais tarde,

 

 

aos treze anos, seu tio-avô Alvaro Tavares da Silva, residente no Rio, chamou a si os encargos de sua educação, matriculando-o, afinal, na antiga Escola de Marinha [como informa Sabóia Ribeiro, estudioso de sua vida e de sua obra][1].

 

Tendo ingressado na Escola em 1883, pouco tempo depois, numa sessão em homenagem póstuma a Vítor Hugo, na presença do próprio Imperador Pedro II, faz eloqüente apologia da Abolição e da República, da Liberdade e da Democracia. Esse fato, geralmente dado como ocorrido em 1884, deve ter tido lugar realmente em 1885, ano do falecimento do poeta de La Légende des Siecles.

 

Aos dezoito anos é guarda-marinha e, em 1886, faz uma viagem de instrução no cruzador Almirante Barroso, viagem de que resultará anos depois o livro No país dos ianques. Em dezembro desse ano irá servir no Solimões, navio que naufragará em 1892, levando consigo, entre tantos, seu companheiro de armas e de letras, Alfredo Peixoto.

 

É ainda de 1886 a publicação de seu livro de estréia, Vôos incertos, de poemas, a que se seguirá, em 1887, Judite e Lágrimas de um crente, de novelas. Publica então na Gazeta de Notícia (segundo informação de Sabóia Ribeiro) o conto "A Chibata", em que denuncia a crueldade dos castigos corporais nos navios de guerra daquela época; retornaria ao tema anos depois.

 

Nesse ano de 1887 Caminha serve em nada menos de quatro unidades navais: o couraçado Sete de Setembro, a corveta Niterói, o cruzador Guanabara e a canhoneira Afonso Celso.

 

Afinal, contando vinte e um anos de idade, é promovido, em dezembro ainda desse 1887, a segundo-tenente. Frota Pessoa, que lhe dedicou entusiástico e carinhoso artigo em seu livro Crítica e Polêmica ( 1902), afirma a propósito:

 

Quem começava, ascendendo com essa celeridade, tinha direito de sonhar com as insígnias gloriosas do almirantado, para muito antes que a velhice o transformasse num ornamento marcial[2].

 

Embarcando em 1888 no patacho Paquequer com destino a Fortaleza, tudo lhe correria bem na capital cearense durante os primeiros tempos: oficial da Marinha, escritor com dois livros editados no Rio, moço e bem-apessoado, tudo tinha o jovem militar para vencer em sua própria terra, que o recebia de braços abertos.

 

Fundado o Centro Republicano do Ceará, em 1889, dele faria parte ao lado de Joaquim Catunda, José do Amaral, João Cordeiro, João Lopes, Jovino Guedes, Antônio Sales, Pápi Júnior, Álvaro Martins e vários outros. Adolfo Caminha compareceu ao ato de fundação do Centro, segundo se diz, ostensivamente fardado...

 

Não iria porém durar muito sua vida na Marinha: após alguns idílios inconseqüentes, o jovem oficial apaixona-se perdidamente por uma mulher casada e seu amor é correspondido. Deixemos que fale Frota Pessoa, seu amigo e certamente seu confidente:

 

O idílio começou com todas as secretas cautelas, tímido a princípio, mais tarde audacioso e imprudente. Nasceram ponderadas suspeitas no espírito do marido; cenas conjugais, violentas disputas, tempestuosas explicações lavravam aos poucos a discórdia no casal e, uma certa manhã, ela deserta do lar e se vai abrigar na casa do namorado. Ele não hesita; aceita-a e, em pleno dia, atravessa a cidade com a sua amada pelo braço e a deposita em lugar seguro[3].

 

Frota Pessoa fala de cóleras que se assanham, não só as legítimas, do esposo ultrajado e de seus amigos, como também outras, que rastejam nas sombras, carregadas de invejas. O pior de tudo é que o marido desprezado era um oficial do Exército e, segundo Sabóia Ribeiro, o fato indignara os alunos da Escola Militar. Amigos de Caminha vão preveni-lo:

 

Contam-lhe que a oficialidade da guarnição tomara atitude e já se dirigira ao Ministro, pedindo a sua retirada urgente do Ceará. Ou isso, ou uma desgraça, que ninguém poderia evitar, aconteceria[4].

 

Toda a sociedade fortalezense repudia o ato do jovem escritor. Mas ele sabe bem o que quer, e, ainda consoante a observação de Sabóia Ribeiro:

 

Desde aquela hora, Isabel Jataí de Paula Barros seria, para ele e para o seu coração, apenas Isabel Ferreira Caminha[5].

 

É realmente o que parece dizer a dedicatória que Adolfo Caminha porá na abertura de seu livro Cartas literárias ( 1895):

 

A Isabel C***. Quero que o nome dela fulgure como uma legenda de ouro à primeira página de meu livro...

 

Chamado ao Rio de Janeiro pelo último ministro da Marinha no Império, obtém ali uma licença e regressa a Fortaleza, para onde fora transferido, entre outras razões, por motivos de saúde.

 

É proclamada a República. E ele, que tanto se expusera pela causa, não é esquecido: vão buscá-lo em casa para ser um dos oradores da festa republicana. E, diante de um auditório hostil, seu discurso arranca estrondosos aplausos daquela mesma sociedade que o segregara.

 

Passada porém a euforia da vitória, tudo volta à monotonia normal, e novamente seus perseguidores trabalham: é ele chamado, com urgência, à Capital Federal pelo ministro da Marinha, o primeiro do novo regime. Seus superiores do patacho Paquequer tentam em vão interceder a favor de Caminha, alegando problemas de saúde. Tem de partir e, no Rio, apresenta-se ao ministro, de quem recebe ordens terminantes de embarcar num vaso de guerra que partiria logo para a Europa. Ao comandante do navio diz o tenente que simplesmente não pode viajar, por estar enfermo: negam-lhe qualquer licença, e o navio apenas espera por ele para zarpar. E a amada a esperá-lo em Fortaleza! E os camaradas e amigos tentando convencê-lo de que não tem outra saída senão embarcar...

 

Foi então que, não vendo diante de si outra alternativa digna, tomou a mais inesperada das decisões: pediu sua demissão da Marinha, onde ingressara tão galhardamente. Consta que seus superiores ainda adiaram o desfecho do processo, concedendo-lhe tempo para reconsiderar sua atitude extrema. Ele, porém, estava decidido, e conseguindo com Rui Barbosa, então ministro da Fazenda, uma nomeação de praticante da Tesouraria da Fazenda em Fortaleza, retorna à sua terra, não mais como oficial de Marinha, mas como simples amanuense...

 

Amainados ou cessados os ecos do tremendo escândalo, Adolfo Caminha vai-se reintegrando na vida fortense. Mas, diga-se de passagem, essa reintegração não se fez sem atritos e novas inimizades: já nem falamos nos novos ataques que faz ao castigo da chibata na Marinha, através das impressões de viagem que publica num jornal em 1890, mas nas polémicas armadas em torno de problemas literários. Numa delas, o alvo é Antônio Sales e seu livro de estréia, Versos diversos, de 1890, com prefácio de José Carlos Júnior. Em 1891, funda Adolfo Caminha a Revista Moderna e pelas suas páginas ataca o livro do poeta. Explode a polêmica, entrando na liça o prefaciador, e em 22 de abril desse ano de 1891 o futuro autor de A normalista aparece no jornal O Estado do Ceará, desafiando publicamente o poeta dos Versos diversos para "um tour de force em prosa ou verso", com juízes, padrinhos e testemunhas, como se se tratasse de um autêntico duelo...

 

Pela mesma Revista Moderna fizera impiedosa crítica ao romance A fome, de Rodolfo Teófilo, que lhe dará resposta quatro anos depois, alegando que o artigo de Caminha havia saído sem assinatura em 1891.

 

Em 1892, seria Adolfo Caminha convidado a participar, como fundador; dessa originalíssima Padaria Espiritual, onde pontificava Antônio Sales, e onde iria conviver com figuras como Jovino Guedes, Tibúrcio de Freitas, Alvaro Martins, Lopes Filho, Lívio Barreto, Henrique Jorge, Sabino Batista e outros nomes da primeira fase do grêmio. Mas, apesar dos artigos que publicou na seção "Sabatina", dos primeiros tempos de O Pão, não seria o ex-oficial um dos elementos mais entusiastas da agremiação, segundo observou Leonardo Mota, em seu livro A padaria espiritual (1938). E já no Rio de Janeiro, para onde se mudou definitivamente em fins de 1892, como 3º oficial adido ao Tesouro Nacional, ao publicar suas Cartas literárias, em 1895, Adolfo Caminha não deixaria de incluir os mesmos artigos com que fizera duras críticas a Antônio Sales e a Rodolfo Teófilo, este último já então membro da Padaria Espiritual, igualmente vergastada nesse livro, o que talvez tenha determinado ao crítico sua expulsão do grêmio.

 

Publica em 1893 A normalista, escrito ainda em Fortaleza, como No país dos ianques, que publica em 1894. Em 1895 são publicados dois livros seus: Bom-crioulo e as Cartas literárias. Escreve Tentação, romance que seria editado postumamente, em 1897, com data de 1896. Frota Pessoa informa-nos haver ele escrito uns "Pequenos contos", iniciado a tradução do teatro de Balzac e lançado as bases de duas obras, "Angelo" e "O emigrado", que Sabóia Ribeiro acredita sejam as suas anunciadas "Duas histórias".[6] Restam alguns contos esparsos.

 

Em 1896, fundou e dirigiu A Nova Revista, que circulou de janeiro a setembro. Pelas páginas dessa revista continua o escritor a exercitar seu espírito polêmico.

 

Com vinte e nove anos de idade e mais sete meses, viria a falecer, na sua casa da Rua Visconde de Itaúna, no dia primeiro de janeiro de 1897. No seu leito de enfermo, foi visitado por amigos como Nestor Vítor, Cruz e Sousa, Frota Pessoa e Oliveira Gomes, secretário de A Nova Revista. A tuberculose o apanhara, dominando rapidamente seu organismo debilitado pelo trabalho excessivo. Frota Pessoa fixou as impressões dessa última visita ao conterrâneo e amigo:

 

Ei-lo no leito da agonia, para o qual resvalou da banca de trabalho. Logo cavaram-se-lhe as faces e fugiram-lhe as escassas cores. O fulgor dos olhares se lhe acentuou com a febre e os membros, pouco a pouco, iam definhando, exibindo as saliências dos ossos descarnados.

 

Um pouco adiante, depois de aludir à mística doçura de sua fisionomia:

 

"Recebi n'alma e nela guardarei - agora para sempre - essa melancólica expressão dos seus olhos febris, a indefinível expressão do seu sorriso triste, a lancinante, a dolorosa expressão da sua voz pausada e surda.[7]

 

Conta-se que, durante a Revolta da Armada, em setembro de 1893, o Governo lhe oferecera o comando de um dos navios da esquadra legalista. Caminha recusara esta oportunidade de retornar à Marinha "para não apoiar as atrocidades dos esbirros de Floriano!"[8]

 

A aura de antipatia criada pelos seus arroubos iconoclastas deve ter contribuído para o silêncio que se fez em torno de seu nome, por largo espaço de tempo. Sabóia Ribeiro atribui o fato à extinção da Editora Domingos de Magalhães, que publicara seus dois primeiros romances. Seja qual for a razão, o certo é que, além do artigo de Frota Pessoa, em 1902, pouco se escreveu sobre ele, até que, em 1933, Agrippino Grieco sugeriu a reedição de seus romances. Anos depois, em 1941, Valdemar Cavalcanti, no estudo "O enjeitado Adolfo Caminha", na Revista do Brasil, reivindicava o escritor ao esquecimento.

 

Braga Montenegro, um dos mais destacados críticos cearenses, afirmaria:

 

Dele pode-se dizer que a vida lhe negou tudo. [E aludiria à injustiça dos que lhe querem negar até mesmo] o talento de ficcionista, a imensa aptidão de escritor que a morte não permitiu amadurecesse.[9]

 

Mas, se falamos do temperamento impulsivo do escritor (que lhe valeria de Antônio Sales os epítetos de "arroubado, birrento, rancoroso", em O Pão nº 25, de 19 de outubro de 1895), foi para observar que Adolfo Caminha encontrou no Realismo e, mais ainda, no Naturalismo, o clima adequado à expansão de sua arte e ao desabafo pleno de sua índole e de suas mágoas. Por menos que prezemos a crítica baseada em dados biográficos, temos de admitir que sua vida atormentada explica em parte sua obra literária: ainda um puro romântico nos primeiros livros, somente na escola de Flaubert e, mais ainda, na de Zola, chegará ao nível de sua obra máxima, o Bom-crioulo, tão menosprezado pela crítica do tempo, mas na verdade um dos mais robustos frutos do movimento, a ponto de Lúcia Miguel Pereira, apesar de lhe haver condenado "a ausência de poesia", não temer colocá-lo ao lado de O cortiço de Aluísio Azevedo, como "o ponto alto do naturalismo" no Brasil.[10]

 

Em A normalista, vingando-se de uma sociedade na qual não via autoridade para julgá-lo, Caminha retratou-a impiedosamente, pondo-lhe à mostra todas as baixezas e podridões morais, e caricaturando algumas pessoas com que se desaviera. Nada aí é grandioso: João da Mata é um canalha perfeito, sendo interessante notar a sintonia lombrosiana de seu físico horrendo com seu caráter torpe; o Zuza, obrigado pelo pai a viajar, deixando Maria do Carmo, lamenta não haver aproveitado os momentos de paixão da moça, mas conclui que "já se foi o tempo de um homem sacrificar posição e futuro por uma mulher pobre."[11]

 

O Bom-crioulo, uma triste e sombria história de marinheiros, onde se conta um caso de homossexualismo (talvez o primeiro da literatura brasileira), e cujo personagem central é um negro, fato incomum em nossa ficção, apresenta-nos o escritor já senhor absoluto de seu ofício: pode-se-lhe censurar aquela mencionada ausência de poesia, e ao seu tempo muitos exprobraram ao autor a exploração de tema tão escabroso. Ninguém lhe poderá negar porém a admirável unidade estrutural, como ao autor não se poderá negar a coragem com que abordou o problema e a mestria com que soube desenvolver a trama romanesca, a que seu grande talento emprestava cores ainda mais sombrias.

 

Seu último romance, Tentação, que traz data de 1896 mas foi publicado após a morte do escritor, ocorrida no Rio, em 19 de janeiro de 1897, além de conter ataques à alta sociedade carioca, notadamente aos monarquistas, numa crítica retardatária aos apologistas do Imperador, expõe ao ridículo certo Valdevino Manhães, que é a caricatura de Valentim Magalhães, espécie de "papa" da vida literária do Rio de Janeiro em fins do século passado. Aliás, no número 2 de A Nova Revista, fundada e dirigida por Adolfo Caminha na Capital do País, em 1896, estampa o escritor cearense um artigo que, no dizer de Plínio Doyle, é "uma resposta bastante violenta às críticas de Valentim Magalhães ao romance Bom-crioulo".[12]

 

Caminha, Adolfo. Tentação; No país dos ianques; organização, atualização ortográfica, introdução crítica e notas por Sânzio Azevedo. - Rio de Janeiro: J. Olympio; Fortaleza: Academia Cearense de Letras, 1979. p. IX-XV

 

 



[1] Sabóia Ribeiro. Roteiro de Adolfo Caminha, Rio de Janeiro, Livraria São José, 1957 [p. 7].

[2] Frota Pessoa. Crítica e polémica. Rio de Janeiro, Artur Gurgulino, 1902 [p. 216].

[3] ld. , ib. , [p. 218].

[4] Sabóia Ribeiro, ob. cit. [p. 36].

[5] Id., ib., [pp. 36-37].

[6] Sabóia Ribeiro. O Romancista Adolfo Caminha. Rio de Janeiro, Pongetti, 1967 [p. 88].

[7] Frota Pessoa, ob. cit. [p. 223].

[8] Sabóia Ribeiro. Roteiro de Adolfo Caminha, cit. [p. 82].

[9] Braga Montenegro. Correio Retardado. Fortaleza, Imprensa Universitária do Ceará, 1966 [p. 171].

[10] Lúcia Miguel Pereira. Prosa de ficção, 3ª ed., Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1973 [p. 173].

[11] Muitos dos ataques ao povo e à cidade, refletindo o pensamento do autor, são ditos pelo Zuza. Mas não concordamos com M. Cavalcanti Proença (Estudos literários. 2ª ed., Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1974 [p. 157]) que disse: "Com um pouco de deformações, Zuza será, no fundo, o

próprio Caminha." Seria o mesmo que afirmar ser o primo Basílio o próprio Eça, e o Simas, o próprio Pápi Júnior.

[12] Plínio Doyle. História de revista e jornais literários. Rio de Janeiro, MEC, Casa de Rui Barbosa, 1976 [Vol. 1, p. 55].

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