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Cláudia Leitão. Secretária de Cultura, Turismo e Economia Criativa Cláudia Leitão. Secretária de Cultura, Turismo e Economia Criativa Aracati-CE

ENTREVISTA | CLÁUDIA LEITÃO. Aracati: um território criativo

Escrito por  Sexta, 30 Dezembro 2016 00:00

Às vésperas do ano novo, entrevistamos a Secretária de Cultura, Turismo e Economia Criativa da cidade de Aracati-CE, Sra. Cláudia Leitão. Ao longo do diálogo Leitão se revelou entusiasmada com a Terra dos Bons Ventos e nos falou sobre os projetos que pretende empreender junto à pasta.


Marciano Ponciano- Como a Sra. descreve Aracati?


Cláudia Leitão- Aracati é uma cidade colonial de origem portuguesa, extremamente interessante numa perspectiva arquitetônica. É uma cidade que tem um grande potencial turístico. É uma cidade de um porto que foi muito importante na história econômica do Ceará. É uma cidade reconhecida pela beleza de suas praias. Se pensarmos no papel mítico, místico temos Canoa Quebrada. É uma cidade que tem um carnaval que já viveu períodos importantes, que tem grande riqueza e diversidade de patrimônio cultural, que tem artesanato reconhecido pelo seu bordado. Enfim, uma cidade que reúne uma série de elementos que poderiam ser estratégicos pra sua economia, para o seu desenvolvimento. Aracati me parece um município que tem um potencial imenso e que traz consigo, talvez, as grandes características de nossa diversidade cearense. Penso que é uma cidade muito importante para o Ceará e para o Brasil.

 

MP- A primeira secretaria de cultura de Aracati oficialmente reconhecida foi instalada em 1992 e denominava-se Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura. Na gestão a qual você fará parte, em 2017, ela se denominará Secretaria de Cultura, Turismo e Economia Criativa. São muitos os desafios à frente da pasta?


CL- O desafio de trazer para a Secretaria de Cultura e Turismo um setor reconhecido como importante, hoje, no mundo nas sociedades globais que é a economia criativa me parece extremamente oportuna. A decisão do prefeito Bismarck de aceitar esse desafio, de compreender a cultura e o turismo como atividades que além de seu valor simbólico tem grande valor econômico, pode ser uma decisão muito acertada. Eu espero colaborar, pelo fato de ter contribuído também no plano federal para a construção de uma Secretaria Nacional de Economia Criativa, nesse sentido para pensar e liderar a formulação de políticas públicas que tragam para Aracati, através dos setores culturais e criativos, dos setores turísticos, do lazer do entretenimento, do artesanato, da possível atividade de moda, do design, que pode estar ligado também ao artesanato, à música, ao audiovisual, à área de games, às artes de uma forma geral, os benefícios inerentes a esses campos. Todos esses setores poderão ser desenvolvidos mais ainda de forma estratégica e assim poderemos pensar um novo desenvolvimento econômico para a cidade baseado na sua vocação para a atividade cultural e turística. É esse o sentido, portanto, de termos uma Secretaria de Cultura, Turismo e Economia Criativa. O sentido de entender que a cultura e o turismo, que existem por si sozinhos não precisariam movimentar uma atividade econômica, mas movimentam, também. É essa a visão que nos anima a trazer e ampliar a compreensão da cultura pensando os trabalhadores da cultura: os produtores culturais, os gestores culturais, os empreendedores dos setores turísticos. Enfim, desenvolver todos os potenciais que já são vocação do próprio município.

 

MP-O conjunto arquitetônico e paisagístico da cidade de Aracati, tombado pelo IPHAN, em 2000, é formado por sobrados, igrejas e diversos prédios que somam mais de 2.500 edificações construídas e decoradas com azulejos portugueses de alto valor. Que ações a Sra. pretende realizar a fim de potencializar esse importante patrimônio cultural?


CL- Quando nós pensamos no patrimônio edificado e tombado de Aracati, reconhecemos um conjunto importantíssimo tanto para o Ceará quanto para o Brasil. Lamentavelmente quando pensamos em Aracati nós “vendemos” a cidade principalmente pelas suas praias. Poderíamos trabalhar o turismo cultural para que fosse competente no sentido de emprestar para a imagem de Aracati não somente as belezas do litoral, mas especialmente esse importante conjunto arquitetônico formado pelas igrejas, casarios, azulejaria, por essa cidade colonial portuguesa tão importante, que tem o interesse e o trabalho fundamental do nosso Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional-IPHAN. Nós precisaríamos então trabalhar políticas que não tornem Aracati subalterna à Canoa Quebrada, mas no sentido inverso. Que nós tenhamos uma cidade que também seja reconhecida como um destino turístico-cultural. Temos várias cidades que vêm trabalhando essa visão do turismo a exemplo de Paraty-RJ e Tiradentes-MG. Nós desejamos fazer, também uma ação nesse sentido.

 

MP- O Cineteatro Francisca Clotilde será um importante equipamento para o fomento de ações culturais, com destaque para as artes cênicas. Há três anos ele se encontra em obras, em projeto capitaneado pelo IPHAN com recursos federais oriundos do Programa de Aceleração do Crescimento-PAC. Há muito a classe artística e sociedade aracatiense se pergunta: quando ele abrirá suas portas? Gostaríamos de ouvir suas considerações a respeito.

 

CL- O cineteatro é um compromisso e um desafio do prefeito Bismarck Maia. Penso que nós teremos, certamente, ao longo de sua gestão um trabalho cotidiano para que possamos entregar ao aracatiense esse cineteatro tão importante para a cidade. Nós precisamos de equipamentos culturais. Vamos trabalhar esses equipamentos com grande interesse. Teremos escolas que também terão essa função. Vamos ocupar a cidade. A cultura pode estar nas praças, em espaços abertos, em circos, mas o cineteatro é um compromisso do prefeito que eu também assino e ratifico.

 

MP-A Festa do Livro e da Leitura de Aracati foi uma das ações desenvolvidas por sua gestão frente à pasta da Secretaria de Estado da Cultura do Ceará. O evento contou com duas edições em 2005 e 2006. Naquele período importantes iniciativas foram desenvolvidas no âmbito da literatura animando o cenário cultural local e projetando o Aracati em nível nacional como importante expoente nas letras. Há alguma possibilidade de reinventarmos esse evento?


CL -A Festa do Livro e da Leitura foi uma iniciativa da minha gestão à frente da Secretaria de Estado da Cultura. Portanto, eu tenho todo interesse de fazer com que essa atividade retome o seu lugar. Em breve, procurarei o Secretário de Cultura, Fabiano Piúba, para que nós possamos retomar as atividades com a Festa do Livro e da Leitura no sentido, inclusive, de torná-la um evento que terá repercussões durante todo o ano, em Aracati. Pretendemos que ela se torne uma atividade permanente e presente no calendário cultural e turístico do município e da região. Precisamos trabalhar essa Festa do Livro numa perspectiva regional.


MP-Pensar em Aracati é pensar em história. Emília Viotti da Costa afirmou certa vez: "Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado." Memória e história constituem o binômio que bem descrevem a missão do Museu Jaguaribano. Que ações a secretaria pretende desenvolver em parceria com o Museu?


CL -A memória é da essência da atividade cultural. É da essência de nossas identidades culturais, da identidade cultural aracatiense. Os museus estão em grandes transformações. Cada vez mais eles deixam de ser depositórios de objetos do passado pra pensarem nas suas atividades enquanto espaço de aprendizado, de reinvenção, de novas experiências, de inovação. É nesse sentido que nós queremos nos relacionar com o Museu Jaguaribano. Temos muito interesse em constituirmos uma relação de parcerias com os municípios limítrofes à Aracati. Pensarmos que o Ceará, realmente, numa perspectiva histórica, se origina dessa primeira chegada dos portugueses ao Rio Jaguaribe, ao Fortim. Precisamos pensar uma região e as possibilidades que teremos para desenvolver atividades que possam ser importantes para os municípios que juntos vão constituir um destino turístico. Não se deve pensar numa relação competitiva entre municípios, mas cada vez mais de forma cooperativa e colaborativa. Sendo assim, a perspectiva de retomarmos parcerias com o museu é muito importante a fim de pensarmos outras possibilidades e de ampliarmos a sua atuação.

 

MP- Aracati é um micro-macro cosmo cultural?


CL- Aracati é um território. Um território que pode se tornar num território criativo. Pra isso vamos precisar trabalhar com um plano e com estratégias que permitam através de políticas e de programas realizarmos ações específicas, objetivas, definindo metas, indicadores, prazos, recursos. Em quatro anos pretendemos deixar um legado que possa ser importante para os que virão. Deixarmos políticas consolidadas, concretizadas e que sejam empoderadas e formuladas pela população. Não se faz uma gestão somente com secretários, ou com servidores, ou com terceirizados. Uma gestão pública é uma gestão da população que participa dos processos, que define seus interesses, define o seu destino, diz o que quer, como quer. E como podemos fazer tudo isso junto? A tarefa do estado é estimular, é conduzir, é liderar esse processo. Nesse sentido pretendemos realizar projetos-piloto em Aracati imaginando que esses projetos possam contribuir não somente na perspectiva do Ceará, mas que possam ser exemplares para o país. Nós temos que pensar numa rede de cidades criativas no mundo. Aracati pode estar nessa rede. Ela é uma cidade que tem elementos e vocações que são necessárias e não são suficientes, porque é preciso, realmente, que se construam políticas que sejam capazes de respaldar essas vocações naturais. Necessitamos profissionalizar os empreendedores dos setores culturais e criativos. Devemos resolver as questões de infraestrutura. Precisamos avançar em perspectivas de transversalidades e de uma política cultural e turística que se integre com as outras pastas do município. São desafios importantes, mas que nos parecem muito factíveis no sentido de pensarmos que em Aracati, no micro está o macro; pensarmos uma cidade criativa e construirmos essa cidade inteligente. Uma cidade criativa voltada para uma educação de qualidade, pra qualidade de vida da sua população, pra felicidade daqueles que ali moram. Essa felicidade implica em inclusão social produtiva e valorização da diversidade cultural. Aposta na inovação que é muito importante e, em sustentabilidade. Não se pode falar em desenvolvimento se não falarmos em sustentabilidade que não é somente econômica, mas é, sobretudo, social.

 

MP- Qual será a contribuição da Secretaria de Cultura, Turismo e Economia Criativa para o projeto de desenvolvimento da cidade de Aracati?


CL- Penso que a economia criativa é, hoje, o motor de desenvolvimento de várias cidades no mundo. Não é somente uma questão brasileira, pelo contrário, o Brasil ainda não assumiu, ainda não valorizou e nem deu lugar em suas políticas federais para essa economia. Quem sabe se Aracati não dará um exemplo na perspectiva do município de uma gestão municipal que reconhece a importância dessa economia criativa no labirinto de Aracati, no patrimônio tombado da cidade, nas suas igrejas, nas suas festas, no seu carnaval. Na necessidade de se avançar numa culinária cearense, em Aracati. Onde se possam fazer aproximações nessa economia criativa com setores como moda, artesanato. Que se possa avançar no audiovisual, nas tecnologias da informação, nos setores de tecnologia e de ciência que são tão importantes pra essa economia. Eu acredito que a economia criativa é, sem dúvida, uma possibilidade muito interessante para o município.

 

Entrevista cedida pela Secretária de Cultura, Turismo e Economia Criativa do município de Aracati-CE, Cláudia Leitão, a Marciano Ponciano em 30 de dezembro de 2016 por meio de dispositivos móveis.

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Marciano Ponciano Virginio

Sou natural de Aracati-Ce, terra onde os bons ventos sopram. Na academia da vida constitui-me poeta, realizador de sonhos, encenador de máscaras. Na academia dos saberes acumulados titulei-me professor de Língua Portuguesa e especializei-me em Arte-Educação. O projeto de vida é semear a arte por onde passe: teatro, poesia, artes plásticas- frutos da experiência acumulada em anos dedicados a ser feliz. Quando me perguntam quem sou - ator, poeta, encenador, artista plástico, educador? Afirmo: - Sou poeta!

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