Água Cristalina
Holdemar Menezes Holdemar Menezes Desenho sobre papel de Marciano Ponciano

Holdemar Menezes: Vida Vivida

Escrito por  Abele Casarotto Terça, 17 Fevereiro 2015 10:59

Holdemar Menezes, aracatiense, quem seria? Abele Marcos Casarotto em seu artigo "Holdemar Menezes:quase auto, quase bio, uma grafia" revela-nos um pouco sobre a vida e obra do escritor cearense Holdemar Menezes (1921-1996).
O relato de Casarotto sobre vida de Holdemar Menezes apresenta-se dividido em quatro sequências: a primeira relaciona os fatos da sua infância e recordações. A segunda o período em que viveu no Rio de Janeiro, a bela época de estudante. A seguinte procura apresentar fatos quando da saída do Rio e a chegada em São Francisco do Sul. A última está relacionada com a produção literária.
Selecionamos, do citado estudo, a sequência que trata dos fatos da infância e recordações de Holdemar Menezes. Um convite a perceber o Aracati sob os olhos do autor da "Coleira de Peggy" prêmio Jabuti de Contos de 1973. Boa leitura.

A vida vivida


Abro a janela e olho para lá do horizonte. Vejo o sol surgindo de dentro das águas. Estou no meio da grande orla côncava. É muito cedo ainda, mas este sol é danado de madrugada. Esta paisagem não me é desconhecida: tive-a menino, em Fortaleza.


Não tenho fixação na infância. Não sofro com saudades dela. A infância é mais um mito do que uma perda irreparável.
Mas, fui um menino normal, dentro da classe média ansiosa em galgar postos de mando, de conquistar fama e riqueza. Quando penso na infância, penso em Aracati, a cidade do Ceará onde o Jaguaribe, o maior rio seco do mundo, depois de percorrer 800 quilômetros de inanição, ainda consegue desaguar no oceano.  O Jaguaribe nasce lá perto do Piauí e vem entregar-se ao mar em Aracati, num estuário mais bonito que o estuário do São Francisco.


Ter sido criança, para mim, é ter morado em Aracati. Lá fiz o Curso Primário, tomei banho de chuva, nu, pelas ruas pavimentadas com capim-de-burro. Minha infância é também a fazenda do Major Francisco Joaquim Venâncio, meu avô materno. E todos sabem dos privilégios de uma criança numa fazenda, mesmo que em uma fazenda situada no polígono das secas.


Aracati, mesmo ao tempo da minha longínqua infância, já se destaca das demais cidades do Estado por sua sociedade organizada e bairrista, pelo amor à música, ao teatro, ao jornalismo, ao ensino público e privado, ao folclore. Era importante ter nascido em Aracati, ter morado em Aracati. Era como fazer parte de uma elite.


Quando tomei ciência de meu pai, era ele jornalista, proprietário de jornal, dono de livraria/papelaria, produtor ensaísta de teatro amador, soprador de bombardino na banda municipal, inflamado orador. Minha mãe, uma mulher belíssima, de olhos verdes, vinha do meio rural; filha de fazendeiro do município de União, hoje Jaguaruana. O casal teve dez filhos, dos quais apenas seis se tornaram adultos. Se viva fosse, quantos netos teria para beijar a cabeça branca, quantas lágrimas teria chorado durante a caminhada dos filhos? E o que diria aos netos que lhe deu o filho médico, eles que nunca se aperceberam que, anos atrás, o amor e as flores feneceram numa noite de maio? O que lhes diria ela? E ao próprio médico, impotente diante dos seus sofrimentos e da sua agonia?


Maio passou, mês em que ela morreu. Setembro chegou, mês do seu nascimento. Um ciclo de recordações amargas, entretanto de outras tantas recordações ternas, que fazem cada filho retornar à infância por imperiosa necessidade de carinho e ternura. Dois de nós moramos na Lagoa da Conceição, o que é um privilégio: eu e o musicólogo Holbein Menezes, que é casado com a artista plástica Jarina. Dos irmãos, apenas um nasceu mulher - mora em Brasília e é enfermeira pela Ana Neri, do Rio. O caçula, Flávio, que é personagem de um conto meu, permaneceu na província para defender a bandeira dos Menezes.


Meu pai era jornalista, dono de três jornais, em épocas diversas. Além disso, ensaísta, teatrólogo, orador primoroso, homem de permanentes leituras, de conhecimentos comprovados da língua. Matriculou-me, já no ginásio, em escola de datilografia, apenas com a finalidade de ter-me como seu datilógrafo particular. Ele escrevia a mão, numa letra ilegível, centenas de laudas. E eu, com preguiça e medo, tinha que passar aquilo tudo para a letra de forma. Depois, tínhamos os dois, que corrigir o texto: ele lendo os manuscritos e eu conferindo o datilografado. Sobrava para mim, claro, que tinha que passar tudo a limpo, em nova cópia, como exigia o pai e patrão. Só uma peça de teatro, de nome Veneno, me deu mais trabalho do que tudo quanto escrevi até hoje. Havia, na opinião dele, erros imperdoáveis, que só um analfabeto podia cometer... Acredito que era bem possível mesmo.


A memória é um porão onde se escondem os desejos contidos, as recordações afastadas. É uma caverna atulhada de peças abandonadas, mas que ainda são nossas.


De Aracati, a família foi residir em São Bernardo das Russas, no Baixo Jaguaribe, visto que o velho Ezequiel fora nomeado prefeito daquela florescente cidade, às vésperas da Revolução de 30. Terminada a intervenção, creio que em 1936, fomos morar em Fortaleza, pois não havia ginásios, à época, no interior. Meu pai desejava os filhos estudando, e minha mãe não aceitava separar-se deles. A solução, portanto, seria a mudança para a Capital, o que de fato aconteceu. Daí por que já entrei meio velhinho no ginásio - sou de 1921, estava com 15 anos...


Guardo da remota infância duas emoções marcantes: meu primeiro dia de aula na escola de Dona Francisca Clotilde e o empastelamento de A Região, jornal de meu pai. Ainda sonho com os capangas destruindo as máquinas, virando as caixas de tipo, inutilizando as resmas de papel, numa tentativa de fazer calar a voz do único jornal de oposição do Vale do Jaguaribe. Já disse em outra oportunidade, mas nunca é demais relembrar um fato agradável. Na perdida infância, ao ver morto o homem, que tentara fazer meu pai engolir o editorial que denunciava o contrabando do chefe político, ao ver o homem enterrado na lama do rio, com o crânio esfacelado por cabo de remo, fui tomado de um contentamento estranho e altamente gratificante.


Pelos mares de minha infância cruzaram navios de todas as nacionalidades. Apanhava o binóculo do Velho e os inspecionava demoradamente, até se perderem de vista. Foi assim que aprendi a identificar as bandeiras estrangeiras. A mais linda, para mim, era a inglesa, talvez porque achasse muito bonita a filha do Cônsul, curtisse por ela um amor secreto.


O tempo constrói e destrói sua sequência mecânica, com o passar dos anos, o passado é mais dominador do que o presente.


Nos meus tempos, longínquos tempos de fazenda, o luar era uma coisa muito esperada, muito admirada, pois iluminava os pastos, os descampados, as estradas sem luz elétrica ou de querosene. O luar dava uma grandeza muito grande - e muita beleza também - aos domínios da fazenda colonial.


Na cidade, para que luar? Há quantos anos não sei o que é um luar? Sei não. Tenho o privilégio de morar em cima ou nas encostas dos morros, ou beira do mar. Moro numa baixada úmida, espremido entre casas por todos os lados. Sem jardim, sem quintal, sem janelas para o horizonte. Sou um bicho de cidade. Sou um bicho que vai perdendo a visão para as coisas bonitas... Dizem, e eu não desminto, que eu falo de um tempo que já deveria estar sepultado.


São recordações que esta manhã de sol provoca, que este mar imenso estimula, até porque somos escravos do passado e recordar faz bem, rejuvenesce. Porque no final, é como diz Fernando Pessoa: "Não me arrependo do que fui outrora / Porque ainda sou".


CASAROTTO, Abele Marcos. Holdemar Menezes: quase auto, quase bio, uma grafia. Anuário de Literatura, Florianópolis, v. 5, n. 5, p.79-82, 1997. Anual. Disponível em https://periodicos.ufsc.br/index.php/literatura/article/download/5348/4687 , acesso em 17 de fevereiro de 2015.

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Lido 454 vezes Última modificação em Terça, 17 Fevereiro 2015 11:01

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