Água Cristalina
Arte gráfica sob imagem de Abílio Monteiro Arte gráfica sob imagem de Abílio Monteiro Marciano Ponciano

A INCANSÁVEL MONOCÓRDICA ARACATIENSE

Escrito por  Sábado, 09 Maio 2015 09:06

    Um passado glorioso que jaz nos registros históricos de inúmeros documentos evidenciava uma vila próspera. Aquele pedaço de chão parecia predestinado à riqueza, o progresso cortejava-lhe na cadência de um atlântico lindo e calmo. De uma hora para outra, tudo se desmoronou feito um castelo de areia margeando a praia, uma maré tenebrosa veio e tragou-lhe a prosperidade.


    Aquilo que a maré tratou de sequestrar para o esquecimento, hoje transformou-se - dentro da cabeça de inúmeras pessoas - numa nostalgia daquilo que não se viveu. E sem saber o gosto deste passado nas suas mais minuciosas nuanças, criou-se erroneamente a falsa impressão que a chance da cidade se firmar no progresso passou. O mergulho e remergulho perpétuo a tal pretérito, traduzido nos discursos lastimosos em contraposição ao presente, deixa no ar a estúpida impressão que o atraso aqui é um estágio intérmino. Os que louvam cegamente o que já se foi acreditam que depois de uma hecatombe a vila próspera emergirá das profundezas do centro da terra quão a Atlântida.


    Este monocórdico discurso que sempre permeia as prosas dos munícipes serve-lhe também de mordaça e viseira para que não apreciem o presente e as suas potencialidades corpóreas. Esconder-se no passado, tira-lhe a responsabilidade de tecer o presente e garantir o futuro, já que para este o tempo bom se foi. O Aracati vive daquilo que nem se sabe se ele realmente viveu. O passado pode ter sido generoso dentro de um prisma (na maioria das vezes dos dominadores), mas pergunta-se: como teria sido a escravidão? era uma sociedade com justiça social e distribuição de renda? Os menos favorecidos tinham direito a riqueza que se acumulavam dos gados e do extrativismo pecuário? Os nossos fidalgos, detentores dos meios de produção, eram realmente tão benevolentes e preocupados com esta terra? Ou apenas queriam desta surrupiar suas riquezas e depois sucumbi-la?


    O Aracati tem que conhecer e apreciar seu passado, mas não pode torná-lo estribilho que encorpa a velha cantiga da perua (nos versos de Jackson do Pandeiro). O progresso não é uma profecia que coroa os eleitos, mas sim fruto de um trabalho custoso e demorado que assim como semente precisa crescer, fortalecer seu tronco e galhos para que não pereça facilmente. Os dias de glórias ainda hão de vir e morar amiúde na terra de Dragão do Mar, ainda que insistam em louvar o que se mal ver pelo retrovisor do tempo.

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Lido 495 vezes Última modificação em Sábado, 09 Maio 2015 09:40

2 comentários

  • Link do comentário Silvanise Ponciano Sábado, 09 Maio 2015 13:25 postado por Silvanise Ponciano

    O passado em nossa cidade é muito comentado! E o presente? Muitas vezes passa despercebido! Que vejamos o Aracati não somente o ANTES! Elevemos o HOJE com o que há de melhor! Ainda acredito que com todo caos que emana esta cidade, hei de vê-la desabrochar!

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  • Link do comentário Marciano Ponciano Sábado, 09 Maio 2015 09:40 postado por Marciano Ponciano

    O relato de um poeta é sempre um olhar para as profundezas. Nesse texto carregado de \"ironias e cansaços\", como bem diria o poeta aracatiense R. Leontino Filho, Moacir apresenta-nos a tônica de um discurso que persiste em nossa cidade: Universo de contradições. Parabéns pelo excelente texto.

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