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ARACATI ERA ASSIM | 1839

Escrito por  Edmar Morel Domingo, 27 Março 2016 22:33

Setembro de 1839, o veleiro Caiçara colhido pelo temporal baixa os panos e procura refúgio em Aracati, à foz do rio Jaguaribe. E, à noite os tripulantes vão visitar o vigário que residia num solar antigo que serviu de palácio - sede de governo - da malograda Confederação do Equador, (atualmente onde funciona o Externato Kennedy) sonho de um pugilo de bravos que terminou no combate de Santa Rosa, onde morreu, a 31 de outubro de 1824, de espada em punho, o seu bravo presidente, Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, legenda de amor e patriotismo por um Brasil independente.

 

 

O padre estava atendendo um casal de pescadores cuja mulher trazia nos braços um filhinho à morte, quando os marujos da barcaça bateram à sua porta. Vinham eles oferecer algumas moedas de ouro ao sacerdote: pagamento de uma promessa feita à hora do barco ter o mastro arrebentado no vendaval.

 

No dia seguinte, a tripulação do Caiçara assistiu a missa na matriz. O reverendo do púlpito, contou o milagre de N. Senhora dos Navegantes, que no momento mais difícil de uma tormenta, salvara a vida do comandante e de seus homens. E, aproveita a presença de tanta gente no templo para narrar outra história, desta vez uma graça da padroeira, N. Senhora do Rosário.

 

O filhinho do pescador Manoel do Nascimento e de Matilde Maria da Conceição, residente em Canoa Quebrada, teve uma espinha atravessada na garganta e foi desenganado. Seus pais valeram-se de N. Senhora do Rosário, mas tão grave era o estado do recém-nascido que cheguei a rezar pela sua alma inocente.

 

Apontando para os fiéis, na sua maioria donzelas e anciãos, o padre mostrou, entre a assistência, o menino Francisco José do Nascimento, mirrado preto, metido numa camisola de morim ordinário, tendo à cabeça uma touca de lã em cores berrantes.

 

Aracati já não tinha a mesma importância do começo do século, deixara de ser o porto por onde transitara toda riqueza do Ceará. Os vapores passavam ao largo, em viagem direta de Recife para Fortaleza. A sua charqueada, “havendo anos de se fabricarem 20 a 25 mil bois” desaparecera. Nos rústicos ancoradouros do Chapéu e Canoa Quebrada, só fundeavam barcos de pequena tonelagem, empregados no transporte de algodão, cera de carnaúba e da procurada aguardente conhecida por Cumbe.

 

Os tripulantes que vez ou outra iam até Aracati, só desciam de seus barcos quando queriam comprar labirintos e rendas, indústria característica da população do local.

 

Francisco José do Nascimento tinha então 8 anos de idade, não sabia ler nem escrever. Havia perdido o avô e o pai, pescadores. O primeiro morreu no mar e o último morreu na Amazônia.

 

A Matilde fazia rendas para sustentar os dois filhos. Diante das tremendas dificuldades, viu-se obrigada a dar os filhos para uma família que pudesse criá-los.

 

Um dia chegou ao Aracati o novo juiz de Direito. O magistrado viu no pátio da matriz um garoto maltrapilho e convidou-o para trabalhar em sua cozinha.

 

À noite a mãe deixou uma vizinha cuidando da casa e foi ao sobrado onde estava morando o Doutor. Matilde era alta, forte, muito morena e muito destemida.

 

Quando soube que o juiz vivia com uma rapariga, gritou em voz alta:

 

- Sou preta,mas não tenho um filho para servir a uma quenga!

 

Diante do fato que se tornou público, o cabo do destacamento policial, amigo de Matilde aconselhou que a família precisava sair da cidade. Mas Matilde não tinha recursos para fazer uma viagem e não aceitou o conselho.

 

Durante todo o dia Matilde rezou na Igreja pedindo uma graça, que finalmente alcançou. Chico de Matilde embarcou no Tubarão do comendador português José Raimundo de Carvalho.

 

Na primeira viagem, passou o tempo todo enjoado, caído no porão. A bordo fazia o papel de menino de recado. O veleiro transportava mercadorias para Natal, Recife e Fortaleza e só de mês em mês passava pelo porto de Canoa Quebrada...

 

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Lido 304 vezes Última modificação em Domingo, 27 Março 2016 23:10

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