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Robuan Freitas Antonio Kleber Alexandre Gondim Abelardo Filho e Virgílio Távora.Dez. 1980. Robuan Freitas Antonio Kleber Alexandre Gondim Abelardo Filho e Virgílio Távora.Dez. 1980.

A História do Dique de Aracati

Escrito por  Domingo, 10 Julho 2016 08:55

Aracati padeceu desde as mais remotas eras com as enchentes do rio Jaguaribe. Para não recuarmos muito no tempo basta lembrar as últimas grandes enchentes que foram marcantes e afetaram profundamente a vida econômica e social do município particularmente à cidade, que ocorreram nos anos de 1917, 1922, 1924, 1974 e finalmente a maior de todas no ano de 1985.

 

Os estragos das cheias

 

A cada cheia que acontecia todas as autoridades, ao seu tempo, se reuniam para discutir as consequências dos estragos causados pela inundação. No entanto, não se conhece nenhum tipo de reinvindicação dos governos para resolver o problema das enchentes que ocorreram nos períodos entre os anos de 1917 e 1974, quando então se começa a discutir como resolver essa secular questão.

 

Parecia que Aracati amargaria eternamente o problema das enchentes, pois desde sempre houve o conformismo dos dirigentes e do povo de que essa catástrofe provocada pelos rigorosos invernos que fazia as águas do Jaguaribe transbordar e inundar a cidade fosse um capricho da natureza, que o homem não podia evitar nem controlar, nem mesmo solucionar.

 

O registro sobre a cheia de 1917, dá a impressão que foi benéfica para o Aracati mesmo diante dos grandes prejuízos causados; “como uma rua inteira de casas desmoronadas”. Todavia, segundo os relatos: “a força das águas da enchente melhorou a embocadura do rio, nossa barra, fazendo uma abertura funda e franca, onde dias antes não passava sequer uma barcaça. Formou-se assim uma nova barra, capaz de dar entrada franca a vapores libertando o Aracati de uma dificuldade que lhe embaraçava o tráfego marítimo".

 

Cheia de 1924


A cheia de 1924 foi ainda maior e mais prejudicial do que a de 1917. “Não ficou uma casa limpa, todas receberam o batismo do lodo das águas barrentas do rio Jaguaribe. A rua do Rosário foi a que mais sofreu. Caiu a torre da igreja do Rosário do flanco direito. A Fábrica de Tecidos Santa Tereza ficou com o maquinário todo enferrujado. Prejuízo enorme para toda a cidade notadamente o comércio.”

 

Mais uma vez a crônica da época nada relata sobre as medidas que poderiam ter sido tomadas pelo poder competente para se comedir e impedir as enchentes em Aracati.

 

Cheia de 1974

Em 1974, ainda durante a primeira gestão do prefeito Abelardo Filho, que fora eleito no pleito realizado no dia 15 de novembro de 1972, a cidade de Aracati sofreu umas das suas maiores enchentes no período de 05 de março a 07 de maio. Essa cheia foi superior às de 1917 e 1924. A cidade ficou totalmente alagada.

 

Foi realmente a partir dessa data, que as autoridades começaram a tomar consciência que era necessário se tomar medidas sérias para que as enchentes fossem contidas e soluções fossem na verdade executadas, para que novas tragédias decorrentes das cheias não ficassem se repetindo a cada grande inverno desabrigando a população e causando os grandes danos ao comércio e às atividades industriais do município.

 

Em 19 de abril de 1974, o governador do Ceará, Cel. César Cals, depois de sobrevoar as áreas inundadas, esteve em Aracati para ver in loco a situação. Na ocasião disse: “que nosso problema residia na estagnação das águas do rio entre a Barreira Preta e as dunas existentes antes da foz do rio Jaguaribe".

 

Em 25 de abril de 1974 quem visitou Aracati, também para se inteirar do drama dos aracatienses devido a grande enchente, foi o ministro do Interior Maurício Rangel Reis que prometeu “mandar uma draga para sulcar o leito do rio e também derrubar a Barreira Preta".

 

Infelizmente nenhuma ação foi realizada no sentido de barrar as enchentes como haviam prometido. O fato positivo que ficou dessa enchente foi o surgimento e a construção do conjunto habitacional Abelardo Gurgel Costa Lima Filho, situado no lado ocidental do rio Jaguaribe, denominado popularmente de Pedregal. Hoje um dos mais populosos bairros da cidade de Aracati.

 

Em 15 de novembro de 1976, era eleito prefeito municipal de Aracati, o bacharel Antônio Alexandre Kleber Gondim, pela ARENA – Aliança Renovadora Nacional – com a maioria de 2.833 votos sobre seu opositor João Bosco Coe Joventino do MDB – Movimento Democrático Brasileiro.

 

AVENIDA BEIRA-RIO

Uma das grandes preocupações do prefeito Kleber Gondim durante sua primeira gestão, era exatamente o grave problema das enchentes. Em junho de 1978 enviou ao então diretor geral do DNOS um documento expondo os motivos para que fosse então construído “a Avenida Beira Rio que protegesse a cidade de Aracati dos assédios constantes do mar e do rio que continuavam invadindo a sede municipal.” Na reinvindicação alegava mais ainda o prefeito “que desde 1974, ano da última cheia, o rio Jaguaribe devido à erosão de suas barreiras vinha avançando sobre a cidade mais de 400 metros atingindo principalmente o bairro do Velame (Farias Brito)”.

 

Procurando saber mais detalhes e informações sobre como havia sido planejado e viabilizado a construção do dique,  enviei ao Ex-prefeito Kleber Gondim cópia desse nosso trabalho para que ele fizesse as correções que julgasse necessárias e acrescentasse o que poderia complementar a pesquisa de resgate de nossa história. Foi enriquecedor para o conteúdo dessa resenha e também para o conhecimento do povo aracatiense os esclarecimentos promovidos pelo Ex-prefeito Kleber Gondim:

 

Caro Anterinho,

Agradeço a deferência de me permitir ler seu bem elaborado artigo sobre o dique de proteção à cidade de Aracati, antes de sua divulgação. Acrescento-lhe, por entendimento íntimo, não me animar nenhum desejo de mérito e muito menos de ufanismo, por qualquer atividade política ou pessoal. Vejo-me no conjunto social e nada mais.

 

Apenas para complementar ou mais levar à proximidade da realidade, gostaria de acrescentar:

 

a)    O dique foi construído com recursos do Governo Federal;

 

b)    Ocorreu, no desejo de tentar resolver as contumazes cheias do rio Jaguaribe, inundando a cidade toda ou parte. Procurar uma solução. Como? Aceitando a sugestão do Dr. Américo Barreira, consultor da APRECE (associação de prefeitos), a PMA contratou a elaboração de projeto de empréstimo à CEF, via FAS (Fundo de apoio ao Desenvolvimento Social) apresentando detalhes preliminares da obra, que por sinal foi seguido quase integralmente.

 

Sabíamos do insucesso do pleito, naquele procedimento, face da ausência de capacidade de endividamento da PMA. O objetivo era chegar ao outro caminho;

 

c)    Isso no primeiro semestre de 1977(março). Qual objetivo? Fazer não ir ao arquivo morto o projeto, sendo visto só sob a ótica da capacidade de pagamento da PMA. Muito bem elaborado e circunstanciado, o então senador Virgílio Távora, de maneira elogiosa, pediu cópia do mesmo. A intenção era levar o projeto ao então ministro do Interior Rangel Reis. Foi complementado o projeto com fotografias da época da cheia e jornais de então, inclusive do sul do país. Aí entram outras pessoas fundamentais para o sucesso do pleito.

 

d)    Nertan Macedo, escritor cearense chefe de gabinete de Humberto Esmeraldo, Presidente da CEF. O Governador Adauto Bezerra, amigo pessoal do Presidente da CEF, como viemos a saber, foi solicitado por nós, visando o atendimento do propósito. Sabedor da amizade, viemos a Fortaleza (estávamos em Brasília) e o Governador Adauto Bezerra, na nossa presença, ligou para Humberto Esmeraldo, dizendo do objetivo do pleito, pedindo todo interesse. Conseguimos e o projeto de financiamento da FAS/CEF foi amplamente analisado sobre seu conteúdo maior – a importância social e econômica da obra para o Aracati, talvez questão de sobrevivência.

 

e)    Seguiu o processo para o Ministério do Interior, Ministro Rangel Reis. O Senador Virgílio Távora assumiu a iniciativa e contamos, também, com o Deputado Flávio Marcílio. Seguimos os passos do projeto em Brasília, com viagens quinzenais ou às vezes semanais, e no final ao Rio de Janeiro, sede do DNOS, o grande Virgílio Távora já no Governo. A licitação foi feita antes de deixar a Prefeitura. Para se ter uma ideia, quando da visita à obra a ser iniciada (se não me engano em 1981), estava eu em Canindé, presidindo um simpósio da APRECE, quando, a mando do Governador, Aderson Braz lá chegou, de avião, para me trazer ao Aracati. Seria, talvez, a apresentação pública, como o foi, da grande obra a ser realizada. Agradeci a gentileza do Governador, mas não foi possível vir, pois seria no mínimo grosseiro com autoridades ali presentes e convidadas para o simpósio.

 

f)     Sai da Prefeitura e a obra continuou. E muito importante: O Aracati ganhou. Acredito que o livro do Dr. Vicente Fialho, que soube estar preparando sobre seu caminho na administração pública, trará luzes mais eloquentes.

 

Agradeço mais uma vez a atenção dispensada.

 

Kleber Gondim

 

Este, pelo que nos consta, parece ser o 1º documento oficial que se tem conhecimento sobre a iniciativa de construção do dique de proteção contra as enchentes que a princípio se denominou de Avenida Beira Rio.

 

REFORÇO POLÍTICO

Nas eleições de 15 de novembro de 1978, Abelardo Filho foi candidato a deputado estadual pela ARENA – Aliança Renovadora Nacional- obtendo 15.012 votos. Apesar de ter obtido 48,4% (7.853) dos sufrágios do povo aracatiense, não conseguiu se eleger ficando na 1ª suplência. Com a convocação do deputado estadual João Viana de Araújo pelo governador Virgílio Távora para assumir a pasta da Secretaria da Justiça, Abelardo Filho então toma acento na Assembleia Legislativa do Ceará nos cinco primeiros dias da nova legislatura.  

 

Era um grande reforço que ganhava o prefeito Kleber Gondim nos seus pleitos em relação às reinvindicações do município, especialmente na questão que mais preocupava sua administração que era a questão iminente de uma futura enchente.

 

Em junho de 1979, durante o congresso da Associação dos Jornalistas do Interior, o prefeito Kleber Gondim aproveitou a oportunidade e apresentou o pedido que iria fazer ao ministro Mario Andreazza “solicitando a drenagem do rio Jaguaribe no trecho entre Itaiçaba e a Barreira Preta, assim como a construção ao longo da cidade e à margem do rio Jaguaribe de um Dique de pedras com a dupla finalidade de proteger e de urbanizar a cidade. Seria em suas palavras o que o povo já batizou de Avenida Beira Rio".

 

Em novembro de 1979, em audiência com o governador Virgílio Távora, o prefeito Kleber Gondim e o deputado estadual Abelardo Filho, pediram ao governador providências para acelerar junto a DNOS o projeto do dique de Aracati.

 

Para que essa obra de engenharia fosse adiante, era preciso mais do que necessário para sua definitiva conclusão, da primordial ajuda da engenharia política, que teria de ser bem elaborada para que as verbas chegassem e tocassem esse projeto de suma importância para a cidade de Aracati.

 

Ainda no ano de 1979, o então deputado Abelardo Filho em entrevista a um jornal de Fortaleza, cansado das promessas não cumpridas feitas pelas mais diversas autoridades, declara que: “há muitos anos o DNOS realizou estudos para a construção de uma espécie de dique de proteção à cidade de Aracati. Mas o projeto ficou somente em estudo e as populações ribeirinhas sofrem anualmente as consequências das cheias do rio Jaguaribe".

 

Pela emenda constitucional nº 14/80 os mandatos de prefeitos e vereadores foram prorrogados por mais dois anos. Isso motivou e permitiu mais tempo ainda ao prefeito Kleber Gondim para levar adiante o projeto do dique de proteção à cidade, projeto pelo qual vinha batalhando com incansável determinação.  

 

CHEIA DE 1981

Em março e abril de 1981 a cidade de Aracati sofreu mais uma considerável enchente. As águas do rio Jaguaribe já havia inundadas os bairros Farias Brito, Campo da Espinha e N. Senhora de Lurdes com cerca de 200 famílias desabrigadas. O prefeito Kleber Gondim informava que nos últimos dez anos o rio Jaguaribe já havia avançado mais de 400 metros tendo levado dezenas de casas. A solução estaria na proteção por enrocamento de pedras da margem do rio.

 

Logo depois dessa enchente, no mês de maio de 1981, vieram ao Aracati dois diretores do DNOS, os senhores Bernardo Aires Correia Lima e Jonas Machado Bastos para fazer uma visita aos locais onde a água “invernosa” penetrava na cidade.

 

O deputado Abelardo Filho volta, mais uma vez, apelar então ao governador Virgílio Távora insistindo com uma solução para o problema que voltava afligir a população de Aracati. Em resposta recebe um “telex” do governador comunicando que “havia sido aprovado um projeto para que se fizesse um levantamento topográfico da área para que fosse construído o dique de proteção à sede de Aracati".

 

Segundo informações divulgadas pela imprensa na época, o dique de Aracati custaria 150 milhões de cruzeiros, dada a sua dimensão de cerca de 3 km de comprimento com uma altura de 5 metros, iniciando na ponte Juscelino Kubitschek indo até a localidade da Barreira Preta. 

 

Em virtude da manifestação do governo estadual, o deputado Abelardo Filho reivindicou então que além da construção do dique, que fosse feita a drenagem do rio Jaguaribe começando na ponte Juscelino Kubitschek e se estendendo por pelo menos 800 metros para melhor evacuação das águas no período das enchentes.

 

ANUNCIADAS OBRAS CONTRA AS ENCHENTES

Em 06 de maio de 1982 o jornal Correio do Ceará, noticia que o edital de licitação das obras contra as enchentes na cidade de Aracati havia sido anunciado. Segundo o jornal, a obra teria a duração de 12 meses para seu término e constaria de dois diques, duas lagoas de proteção e duas galerias de acumulação com um custo estimado de Cr$526 milhões e 800 mil cruzeiros.

 

Ainda em maio de 1982, o jornal o Povo publica uma matéria que segundo as informações do deputado Abelardo Filho estariam assegurados os recursos para o dique de Aracati. Que a obra estava orçada em 500 milhões de cruzeiros, sendo que 25% desses recursos caberiam ao governo do Estado e 375 milhões de cruzeiros ao DNOS. Ainda segundo a reportagem o dique irá margear o rio Jaguaribe numa extensão de 15 quilômetros a partir da ponte Presidente Juscelino Kubitscheck, até a Barreira Preta.

 

Concluindo, informava o Povo que as obras de construção do dique teriam início ainda naquele semestre, pois tão logo fosse assinado o convênio seriam ultimados os preparativos para a realização da concorrência pública.

 

“Um outro benefício que o dique ensejará à população de Aracati é a construção de uma nova avenida, que já vem sendo denominada de Beira-Rio melhorando mais ainda o aspecto urbanístico da cidade. Enfatizava o deputado Abelardo Filho encerrando suas considerações à respeito da “obra de maior vulto já realizada naquele município".

 

No dia 10 de maio de 1982 o então governador do Ceará Virgílio Távora envia correspondência ao deputado Abelardo Filho nos seguintes termos:

Fortaleza, 10 de maio de 1982,

 

Meu prezado Deputado Abelardo Filho,

 

Congratulo-me com o amigo pela vitória alcançada com a assinatura, no último dia 05, do contrato para construção do dique de proteção contra inundações em Aracati, antigo anseio daquela comunidade.

 

É de se ressaltar o apoio nunca negado do Ministro Andreazza à iniciativa e às reinvindicações desta administração pleiteando referida obra.

 

É de justiça, também, ressaltar o apoio que recebi do nobre amigo nesta jornada.

Um forte abraço,

 

Virgílio Távora

Em 14 de maio de 1982 o prefeito Kleber Gondim se desincompatibiliza do cargo de prefeito para pleitear uma vaga na Assembleia Estadual pelo PDS – Partido Democrático Social. Assume em seu lugar o vice-prefeito Raimundo Porto Neto.

 

Mesmo tendo sido o mais votado em Aracati com 5.406 votos, o ex-prefeito Kleber Gondim não foi eleito. No mesmo pleito, realizado em 15 de novembro de 1982, Abelardo Filho candidato à prefeito de Aracati obtém 11.161 votos sendo eleito pela segunda vez prefeito do município para exercer um mandato de 06(seis) anos conforme a legislação vigente na época.

 

1982- INÍCIO DAS OBRAS

Finalmente quase ao final do 2º semestre de 1982, as obras do dique foram iniciadas pela construtora paraense Estacon. O engenheiro Dr. Santana, responsável pela obra, foi entrevistado pelo jornal O Aracati em abril de 1983 em sua edição de lançamento. Entre as mais variadas perguntas que lhe foram feitas durante a entrevista, o engenheiro foi esclarecendo o processo da construção da obra nos seus mais diversos aspectos. Questionado de início a respeito sobre o material que estava sendo usado para a construção do dique. Dr. Santana respondeu que a população pudesse ficar tranquila, pois o “material escolhido para fazer o dique pelo critério da Estacon foi de empréstimo nº 4. É um solo areno-argiloso de cor amarela, com uma profundidade na jazida de que pode ir até 7 metros. Tem volume compatível com a necessidade da obra.”

 

 

Indagado sobre os detalhes da construção do dique, o engenheiro responsável informou que: “o dique é semelhante a um trapézio, onde a base menor, que é de cima, tem uma extensão de 3 metros e a maior, a de baixo, tem uma extensão que varia de acordo com o terreno. Quanto mais baixo estiver o nível, mais larga é a base do dique. Beirando o rio Jaguaribe, teremos uma plataforma de 10 metros da largura e uma base variável, em torno de 43 a 50 metros. E no talude externo será feito enrocamento de pedras, numa largura de 3 metros por 1 metro de espessura e que poderia ser chamado de quebra-rio. Onde não houver revestimento de pedras será usado grama apropriada".

 

Ao ser indagado se mais importante do que a construção do dique não teria sido mais importante a dragagem do rio Jaguaribe e a quebra da Barreira Preta, onde o rio faz uma curva abrupta que dificulta o seu escoamento o engenheiro Dr. Santana respondeu que: ”para resolver o problema de Aracati, aqui e agora, somente o dique. A dragagem do rio e a quebra da Barreira Preta sozinhas, em nada impediriam a inundação da cidade que se encontra num nível muito baixo".

 

Finalizando sua entrevista Dr. Santana informou que “a obra do dique iria custar mais de 1 bilhão de cruzeiros e estaria provavelmente pronta em fevereiro de 1984”.

 

Infelizmente as obras do dique não foram concluídas em fevereiro de 1984, como estavam programadas. Ao contrário, elas foram paralisadas exatamente nesse ano por falta de recursos do governo federal.

 

O jornal O Povo num editorial se referindo a paralização da obra do dique assim se expressou: “Acontece, porém que a construção entrou para o rol das obras de Santa Engracia. O DNOS as abandonou sem dar satisfação. É forçoso reconhecer que o DNOS através da empreiteira Estacon subestimou a importância da obra...”.

 

1985 a tragédia anunciada

Os jornais da Capital escancaravam em manchetes de 1ª página:

 

“Em Aracati as águas avançam em direção ao centro comercial urbano”. “Aracati, onde a vida se desfaz e recomeça”. “A difícil volta à casa a população de Aracati.” “Rio Jaguaribe sobe e Aracati é abandonada”. “População de Aracati expulsa pelo Jaguaribe”. “Aracati despreparada para novas enchentes.”

 

Esta foi a maior inundação do século. Em pleno centro da cidade, as águas atingiram 1,30(mais de um metro), quando em 74 pouco tinham ultrapassado a marca de 01(um) metro. Também em 74, não haviam atingido a igreja matriz, tanto é que este ano, as pessoas se serviram de seu vão como depósito de móveis e objetos valiosos, durante a enchente. Porém, quando voltaram, tiveram a desagradável surpresa de saber que também ali a cheia atingira. Para melhor dizer, dos mais de 13 mil prédios existentes em Aracati, apenas 11(onze) não foram inundados. Entre eles estava a Prefeitura. (O Povo: 26/05/1985)

 

O prefeito Abelardo Filho que sempre foi um crítico da forma como estava sendo construído o dique desde o princípio, em entrevista ao jornal O Povo em 27 de fevereiro de 1985 dizia que:

 

“A construção do dique foi um absurdo, o dique em torno da cidade. Para ele o dique foi feito para botar dinheiro do Governo fora. Uma loucura. Foi um presente de grego que o DNOS deu ao município de Aracati. Segundo Abelardo o que poderiam ter feito seria um anel margeando o rio. A sonhada por nós Avenida Beira Rio, que funcionaria, ela sim, como um dique colocado entre o rio e a cidade. E não como foi feito, uma represa em torno da cidade, deixando livre a margem do rio. Dizia ainda que o dique iria prejudicar os distritos de Tanque Salgado, Morrinhos, Cajueiro, Mutamba, São José, Priscila etc...”

 

Ainda segundo Abelardo Filho, a obra havia sido começada em local errado. Deveria ter sido feito antes uma barragem de 3.520 metros margeando o rio,e novamente cita a construção da tal sonhada Avenida Beira Rio que teria a função de evitar que: “quando as águas saíssem do leito do rio entrassem na cidade. Do jeito que está o dique funciona é como um repressor das águas que se acumulam e não encontram saída”.

 

Em junho de 1985, o prefeito Abelardo Filho viajou ao Rio de Janeiro para uma audiência com o diretor geral do DNOS, Vicente Fialho. Na ocasião tratou sobre a liberação dos recursos para a conclusão do dique de proteção a cidade. Solicitou que a construção se iniciasse pela barragem a margem do rio. Vicente Fialho prometeu que a construção do dique seria reiniciada ainda no ano de 1985, esperando que os recursos que estavam alocados na SUDENE fossem liberados. Na oportunidade o titular do DNOS disse que estava previsto Cr$ 1.6 bilhão de cruzeiros para este ano de 1985 e consignado para 1986 o valor de Cr$ 6 bilhões de cruzeiros.

 

Em mais uma reportagem para o jornal o Povo no intuito de provocar as autoridades para que tomasse alguma atitude em relação ao dique, o prefeito Abelardo Filho, dizia que em Aracati todos desejavam o dique temendo uma nova enchente em 1986, e falava sobre as condições de como se encontrava o dique:

 

“Boa parte do dique está danificada, pois tendo funcionado como repressor das águas e transformado a cidade em bacia de açude foi cortado em diversos trechos pelos moradores para o escoamento do rio. Abandonado e desgastado passou a ser visto como depósito de barro e à noite particulares retiram o material para utilizar em reforma ou construções de casas. Até o DNER está consertando a BR-304 com material do dique. Além do mais, esse dique que aí se encontra está totalmente comprometido, devido à infiltração da água e também por causa da compactação, pois a piçarra é frouxa.”

 

Em virtude das constantes reclamações feitas pela imprensa cobrando das alçadas competentes uma resposta para esse problema que se arrastava sem solução nem definição, o DNOS enviou para Aracati em agosto de 1985, um engenheiro e um procurador daquele órgão que disseram na ocasião, que a concorrência para a construção do dique estaria sendo aberta nos próximos 15 dias e seria imediatamente iniciada. Seriam gastos no dique, segundo o DNOS, Cr$ 8 bilhões de cruzeiros dos quais Cr$ 2 bilhões de cruzeiros em 1985 e o restante em 1986. A extensão do dique seria de aproximadamente 12 km.

 

Mesmo diante dessa veemente promessa por parte do DNOS, o prefeito Abelardo Filho duvidava de que o dique seria definitivamente construído antes do próximo inverno.

 

1985: obra reiniciada

 

Finalmente em outubro de 1985, foi então reiniciada a construção do dique que estava paralisada fazia mais de 1 ano. A finalização da obra que duraria ainda mais quatro anos foi finalmente concluída pela construtora Britânia que tinha como engenheiro responsável o Dr. Paulo Sanford.

 

Em 31 de janeiro de 1987, o jornal Diário do Nordeste, em reportagem sobre a construção do dique, afirmava: “que o dique já se encontrava em seus acabamentos finais veio para finalmente trazer alento à população. Sua conclusão será ainda na administração do prefeito Abelardo Filho terá uma extensão de 13 km orçada em Cr$ 60 milhões de cruzeiros financiados pelo DNOS. Espera-se que seja concluído antes do inverno. Ainda será feita a drenagem e retificação da margem direita do rio, ou seja, o aterro hidráulico. O objetivo dessa parte da obra é evitar a erosão no pé do dique.”

 

Em 15 de Novembro de 1988 apoiado por uma coligação de vários partidos Antônio Kleber Gondim seria eleito pela 2ª vez prefeito de Aracati. Tomando posse no dia 1º de janeiro de 1989.

 

A responsabilidade sobre a conclusão do dique voltaria às suas mãos como havia acontecido no princípio de tudo como ele mesmo gostava de contar. Dizendo que tudo se iniciou a partir de uma ideia do então senador Virgílio Távora ainda em 1977 tendo sido iniciado sua construção em 1982.

 

No decorrer do ano de 1989 muitas foram as reportagens em vários jornais a respeito da conclusão do dique de proteção a cidade de Aracati.

 

O jornal O Povo em 31 de janeiro de 1989 dizia que o ministro das Minas e Energia, Vicente Fialho, em audiência com o ex-deputado Ernesto Valente, informou que antes de deixar o Ministério da Irrigação assegurou 200 mil cruzados novos para o término dos trabalhos. Esses recursos seriam suficientes para a conclusão das obras complementares das casas de bombeamento do dique de proteção. Os trabalhos deveriam estar terminados até fins do mês de fevereiro para que o inverno não prejudicasse mais uma vez os 40 mil habitantes de Aracati.

 

O Diário do Nordeste, em reportagem do dia 03 de março de 1989, com o titulo “Enfim sai o dique” informava que o dique estaria concluído no próximo dia 15 de março. A obra tinha sido orçada em cerca de NCz$ 5 milhões de cruzados novos que seria entregue à população depois de sete anos de construção. O dique em torno da cidade, num total de 11 km, garantia a segurança para toda a área dentro de um círculo de proteção, projetado para suportar a maior cheia secular com uma margem de segurança de um metro.

 

Infelizmente a construção do dique não deixou a cidade de Aracati livre das inundações como afirmavam os técnicos do DNOS quando da festejada conclusão da obra de proteção à cidade. Em 21 de abril de 1989, o jornal o Povo estampava em manchete na sua primeira página: “Chuvas já desabrigam em Aracati”. Seguia a reportagem dizendo que “apesar do dique construído pelo DNOS, a enchente do rio Jaguaribe já deixou desabrigados em Aracati, conforme o prefeito Kleber Gondim, duas ruas foram inundadas onde residem 900 pessoas que foram desalojadas. Em todo município de acordo com o prefeito existem 1.500 flagelados. É que a instalação só protege a sede do Município, deixando os distritos à mercê das águas.”...

 

Em entrevista ao mesmo jornal o Povo em 27 de abril de 1989, o prefeito Kleber Gondim justifica que “as duas ruas inundadas situam-se fora da área de proteção do dique construído pelo DNOS, o qual, conforme disse, vem cumprindo bem seu objetivo de proteger a sede de Aracati das cheias do rio Jaguaribe. A sede está muito bem – enfatiza, mas acentua que o mesmo não ocorre com os distritos que compõem o Município.”(...)

 

Primeiro teste contra as enchentes

 

No mês de maio de 1989, o jornal o Povo no dia 17 de maio volta ao tema das enchentes em Aracati com uma reportagem com o título: “Aracati enfrenta primeiro teste contra as enchentes.” A conclusão do dique salvou a cidade das enchentes, afirmava o prefeito Kleber Gondim. “Trazendo para justificar sua afirmação o testemunho de moradores da Rua Pedro I que antes do dique recebia mais de dois metros de água dentro de casa nas cheias passadas”.

 

Segundo os técnicos do DNOS a área que o dique protege era de 600 hectares. Tendo uma extensão de sete km, sendo quatro na Avenida Beira Rio com a largura da plataforma de 10,20 metros e uma altura média de quatro metros, e três km no trecho da várzea, com largura da plataforma de 3,20 metros e altura média de 4,50 metros.  A área protegida atinge 600 hectares, incluindo a zona urbana e a de futura expansão da cidade.

 

Não houve uma inauguração formal do dique como costuma acontecer nessas ocasiões quando uma obra pública é finalmente concretizada e entregue à população ao som de uma banda de músicos e foguetórios.

 

Depois de 07(sete) anos de construção foi concluído o dique que passou por três moedas (cruzeiro, cruzado e cruzado novo), custando ao seu final o total de sete e meio milhões de cruzados novos.

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Lido 2246 vezes Última modificação em Segunda, 11 Julho 2016 09:59
Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nascido no Aracati em 30 de novembro de 1946, foi o terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva. Viveu sua infância em Icapui onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta. Em 1957, ingressou no Grupo Escolar Barão de Aracati. Em 1974, casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e deste matrimônio nasceram os filhos Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira.

 

Em 1976 graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN. Atuou à frente do Instituto do Museu Jaguaribano como presidente, função que exerceu em duas diretorias (1976 1979/1982-1985). Foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996) período em que assumiu a pasta da Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.

 

A história e a memória da cidade e do povo aracatiense constituem objetos de seus estudos amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local em que colabora desde 1975. Em 2005 a crônica "O Amor do Palhaço", de sua autoria, foi adaptada para o cinema em um curta metragem (15") homônimo com direção de Armando Praça Neto,

 

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)

Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)

Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009) 

A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)

Fatos e Acontecimentos Marcantes da História do Aracati. (Inédito)

Aracati era assim (Inédito)

Notícias do Povo Aracatiense (Inédito)

 

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