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Foto aérea da comunidade do Cumbe. Foto aérea da comunidade do Cumbe.

ARACATI | O Sítio Cumbe

Escrito por  Patrícia Pereira Xavier Quinta, 06 Julho 2017 08:38

[...]A comunidade do Cumbe fica no município de Aracati/CE a 172 km de Fortaleza. É a última povoação da margem direita do Rio Jaguaribe12. O acesso ao local é feito por estrada de terra com 12 km de extensão entre a sede do município e o povoado.

No local vivem aproximadamente 150 famílias que tiram seu sustento da pesca e da cata de mariscos e caranguejos. Além dessas atividades principais, alguns moradores trabalham nas fazendas de camarão, e outros se dedicam ao artesanato de madeira e a elaboração da renda de labirinto.
A natureza do local é composta por grande campo de dunas móveis e fixas, pelo mar, pela quarta maior área de mangue do Ceará, e pela barra do rio Jaguaribe (local em que o rio se encontra com o mar), esse meio ambiente propício atraiu vários habitantes ao longo do tempo. Segundo o relatório final do Programa de Prospecção e Resgate na área da usina Bons Ventos:

 

(...) as primeiras ocupações em Aracati/Cumbe/Canoa Quebrada seriam anteriores à extinção da floresta de mangue que ali existia em uma cota de 5 a 2m abaixo dos terraços marinhos preexistentes. Conclui também que entre 12.000 e 7.000 anos Antes do Presente (A.P.) o ambiente na região apresentava condições ideais para a ocupação de grupos humanos e que diante da extinção da floresta de mangue (entre 7.000 e 5.000 anos A.P.) essas populações se deslocaram para áreas mais interiores e mais altas da região, provavelmente, nas imediações da área ocupada pela atual vila de Canoa Quebrada ou nas matas fechadas que existiam nas porções mais interiores. Posteriormente, diante do optimum climático na faixa de 5.000 anos o ambiente se tropicalizou, novas áreas de mangue apareceram e outras populações fixaram-se na área.

 

A dinâmica dos ventos, da movimentação dos oceanos, e a presença da floresta de mangue tornam o ambiente favorável, seduzindo “grupos humanos para esta área desde épocas remotas, atraídos pela diversidade de recursos alimentares presentes na zona estuarina do baixo Jaguaribe”.
Mais tarde, com a ocupação da região jaguaribana a partir do final do século XVII, a localidade do Aracati, inicialmente denominada de São José do Porto dos Barcos, tornou-se uma das mais importantes vilas da capitania/província do Siará Grande.


Existem várias versões a respeito da etimologia da palavra Aracati. Segundo o historiador Raimundo Girão, o significado mais aceito vem do vocábulo indígena “aracati ou aracatu como tempo bom. Chamavam os índios de aracatu ao vento que soprava de norte e refrescava os ardores do estio.” (GIRÃO, 1983, p.33). O dicionário Aurélio, por sua vez, dá a seguinte definição: “Vento que em regiões nordestinas (especialmente no CE) sopra de N.E. para S.O.”.


A localização privilegiada da vila, situada à margem direita do rio Jaguaribe, propiciou que a localidade se constituísse como um importante núcleo mercantil, na medida em que Aracati possuiu o principal porto do Ceará até meados do século XIX, quando o porto de Fortaleza passou a ser o maior da província17. O nome dado a vila, portanto, já demonstra que o local, além de porto dos navios, era também, porto dos ventos, e que, ao contrário das embarcações, os ventos entravam pelo interior do Ceará, refrescando o início da noite.


Do porto saiam principalmente o couro e o charque produzidos pelo extenso rebanho cearense, e ao porto chegavam os produtos manufaturados vindos da Europa (louças, ferro, roupas, calçados, vinhos, etc.), distribuídos para o interior da capitania/província. Conforme aponta o historiador Gabriel Parente Nogueira:


A indústria do charque, desenvolvida em uma região de ocupação recente como era a ribeira do Jaguaribe, conferiu destaque à localidade onde viria a ser criada vila do Aracati, que caracterizava-se como um ponto de encontro que ligava duas correntes que tinham – por motivos diferentes e complementares – o porto do Aracati como destino. A primeira destas correntes vinha dos sertões do Jaguaribe e de outras capitanias, como o Piauí, e tinham no Aracati o destino de suas boiadas que, criadas nas fazendas estabelecidas ao longo das ribeiras, convergiam ao Aracati para – depois de um pousio, cujo fim era a recuperação e engorda do rebanho – serem abatidas nas oficinas, estrategicamente estabelecidas ao longo da margem direita do Jaguaribe; próximas ao porto por onde o charque e as couramas eram exportados, principalmente para as praças do Recife e de Salvador; estes, os principais pontos de partida da segunda corrente que para o Aracati se destinava em embarcações carregadas por víveres e demais produtos que eram dados em troca das carnes e couros produzidos na vila, produtos esses que destinavam-se a abastecer, além da própria vila, as fazendas dispostas ao longo da ribeira do Jaguaribe e demais paragens nos sertões do gado. (NOGUEIRA, 2010, p. 87).


Por ser um importante ponto de convergência, em Aracati se estabeleceram ricos comerciantes, criadores e produtores de charque. A pequena localidade de São José do Porto dos Barcos foi gradativamente sendo ocupada por luxuosos sobrados, grandes igrejas e vistosos comércios, etc.


Alguns desses abastados proprietários das residências e comércios em Aracati, eram também donos de sítios no povoado do Cumbe. Gabriel Parente aponta que o documento “REQUERIMENTO do sargento-mor Mathias Ferreira da Costa, morador na vila de Aracati, ao rei [D. José I] a pedir provimento no posto de capitão de Cavalaria da referida vila”, datado de 1760, cita um local nas proximidades da vila de Aracati chamado Cumbe. Segundo o requerimento, o Sr. Mathias Ferreira da Costa seria considerado um dos homens mais ricos da região, possuía imóveis, mobília, escravos, e um grande sítio no Cumbe.


Existem vários relatos do século XIX, ainda no período colonial, que nos fornecem elementos para entendermos como era a povoação naquele período. O local recebeu o nome de Sítio Cumbe porque, na época, era ocupado por grandes sítios que cultivavam cana-de-açúcar para a produção de cachaça21. O mapa a seguir, “Planta do Porto e Villa do Aracati”, datado de 1813, aponta a existência da localidade. (REIS FILHO, 2000, p. 148.)

 


No mapa, podemos observar a proximidade do Cumbe com a Barra do rio Jaguaribe, local onde entravam os navios que circulavam pela vila. Na imagem, está demarcado ainda, o local da “V ª do Aracati” e a localidade de Canoa Quebrada. O lugar chamado Salinas está à direita do rio e era o ponto onde havia a extração do sal, usado na produção do charque.


O Cumbe, que ficava vizinho a umas das vilas mais prósperas do Ceará no período colonial, tinha o terreno propício para o cultivo da cana, e ficou famoso por produzir uma das melhores cachaças da região.

 

XAVIER, Patrícia Pereira. Valorização e Preservação do Patrimônio Arqueológico na Comunidade do Cumbe - Aracati/CE. 2013. 141 f. Dissertação (Mestrado em Preservação do Patrimônio Cultural) - Iphan, Rio de Janeiro, 2013. p. 20-24.

 

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