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Contos do Ceará. Detalhe. Contos do Ceará. Detalhe. Ednardo Nogueira

Limpando a terra: a conquista na ribeira do Jaguaribe

Escrito por  Maria Edivani Silva Barbosa Sábado, 08 Julho 2017 09:07

A ocupação na Ribeira do Jaguaribe foi marcada pelo conflito entre os colonizadores e os indígenas da região. O objetivo dos colonos era transformar as terras “inúteis” em terras produtivas, ou seja, implantar uma atividade econômica que gerasse lucro. A pecuária foi a atividade que possibilitou a ocupação da terra cearense. Dominar, catequizar ou mesmo exterminar os índios evidencia o processo violento que estigmatizou a conquista da região jaguaribana pelos colonos. 

 

As cartas de sesmarias são os principais documentos que revelam as estratégias utilizadas pelos colonos para se apossarem da terra. Pinheiro (1999, p.16) em um estudo sobre o referido assunto, esclarece as estratégias adotadas pelos europeus, entre elas, o “limpar a terra”, isto é, expulsar os povos indígenas para garantir a liberdade do gado.


Sobre a presença de índios nessa região Lima (1997, 46) relata que os indígenas da ribeira do Jaguaribe eram, provavelmente, nômades, transitavam do sertão até as praias, em permanentes correrias. Foram provavelmente eles que demarcaram, às margens do Jaguaribe, a estrada que viria a chamar-se “das boiadas” e, posteriormente, “estrada real” (ver Figura 1). Sobre os hábitos desses nativos pouco se conhece, mas, segundo o mesmo autor “antes de o boi assenhorar-se do sertão e os currais obrigá-los a embrenhar-se sertão a dentro, costumavam descer às praias, no verão, para a safra do caju, matéria-prima para a bebida com que se embriagavam, em seus festins rituais”.

 


Os aldeamentos iniciaram, na capitania do Ceará, após intensos conflitos entre os povos nativos e os conquistadores. Depois da vinda dos paulistas a luta tornou-se mais acirrada, pois os mesmos são acusados de cometerem atrocidades inimagináveis contra os índios. Vale lembrar que a Igreja e as missões com os aldeamentos foram essenciais para consolidar a dominação da terra. Em uma carta do missionário João Leite (apud Pinheiro, 2002, p.40), o mesmo declara a importância do aldeamento para efetivar a conquista do território:


“Na paz e redução destes jaguaribaras consiste o sossego, e utilidade dos povoadores daquela Capitania do Ceará e a defesa de sua fortaleza, e de toda a costa porque são mui valorosas, e por tais motivos de todas as outras nações, e já por isso constando que os ditos jaguaribaras estavam aldeados com missionários logo nos pediram pazes todos os tapuias circunvizinhos, até então levantados, com temor dos jaguaribaras (...); em cuja redução e assistência da missão gastei mais de dois anos”.


Dentre as ações missionárias, estava também o objetivo de aldear os paiacus na ribeira do Jaguaribe, local principal para a expansão da pecuária. Na justificativa da catequização dos paiacus, o missionário ressaltou os mesmos argumentos utilizados para justificar a redução dos jaguaribaras, e a subordinação deste povo, que era essencial para garantir a criação do gado. E mais uma vez o missionário destaca a importância da aliança Igreja/Estado para garantir e justificar a subordinação dos povos nativos à lógica mercantil (PINHEIRO, 2002, p.45).


Segundo Lima (1997, p.143), existe uma caverna na serra Areré, próximo à foz do rio Palhano (próximo à entrada da cidade de Itaiçaba), onde o Padre João da Costa, auxiliado pelo Capitão João de Barros aldeou os paiacus em 1696 e os submeteu a um ataque liderado por Morais Navarro, comandante do terço dos paulistas, sendo mortos 400 paiacus e os sobreviventes foram levados como escravos para o Açu no Rio Grande do Norte (Foto 3).

 


Os índios do Baixo Jaguaribe eram os paiacus e os janduins (estes tinham ido para Pernambuco aliar-se aos flamengos, voltando para suas terras, quando os invasores foram expulsos). Oliveira Lima, ao falar dos índios se admira de não se encontrar um machado de pedra, restos de armas da guerra, ossadas (era costume dos índios do interior da Bahia, enterrar os mortos, sentados, por vezes, dentro de potes chamados de “camucins”). “Não ficaram, na tradição popular, lembranças destes bravos que não sabiam fazer um monumento ou levantar um monte de pedras! Suas pegadas foram apagadas pelo tempo...” (LIMA, 1997, p.50).


Embora não se tenha nenhuma lembrança desses indígenas, materializada no espaço, ou riscada nas paredes de pedras, o processo de aculturação não conseguiu apagar de vez a memória desse tipo étnico, revelada ainda nos traços fisionômicos, na cor da pele do povo jaguaribano, e ainda, nas práticas cotidianas que resistem ao tempo: no seu vocabulário, na gastronomia, no artesanato etc. Na região jaguaribana destaca-se como herança indígena a arte do trançado de palha e cestaria; a tecelagem que tem como característica principal a produção de redes.


Aracati carrega na origem de seu topônimo a influência indígena. Segundo João Brígido “Aracati ou aracatu”, significa: “Estas duas palavras tupis, combinadas, dão a idéia perfeita de uma região, que impressionava pela claridade e mansidão de suas águas, na embocadura do Jaguaribe”. Ara = claro, catu = bonança; o Barão de Studart aceita a significação de Aracati ou aracatu como “tempo bom”. Assim chamavam os índios aracatu ao vento que soprava do Norte e refrescava os ardores do estio; para Martius, Aracati, “era assim que os selvagens do sertão chamavam ao vento do norte, que soprava regularmente das sete para as oito da noite, e se derrama pelo interior da província” (MARTINS, Filho & GIRÃO, 1966, p.61).

 



BARBOSA, Maria Edivani Silva. Limpando a terra: a conquista na ribeira do Jaguaribe. In: BARBOSA, Maria Edivani Silva. ARACATI (CE) NO PERÍODO COLONIAL: ESPAÇO E MEMÓRIA. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará-UECE, 2004. p. 51-54.

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