Netlink
Distribuição de esmolas aos pobre. Na foto vê-se o sobrado onde funcionou, em 1929, a sede da Loja Fraternidade de Aracati. Atualmente sede do Museu Jaguaribano. Distribuição de esmolas aos pobre. Na foto vê-se o sobrado onde funcionou, em 1929, a sede da Loja Fraternidade de Aracati. Atualmente sede do Museu Jaguaribano. Antero Pereira Filho. A maçonaria em Aracati (1920-1949) p. 29.

ARACATI | Outros grupos sociais na construção da vila

Escrito por  Maria Edivani Silva Barbosa Segunda, 10 Julho 2017 19:38

Nem só de bonança viveu a “terra dos ventos”. Talvez por sua fama ter se propagado por todo o interior da Província como centro econômico desenvolvido, Aracati não atraiu apenas investidores em busca de lucros, mas também atraía aqueles vitimados pelas secas ocorridas nos séculos XVIII e XIX.

 

 

Triste situação viveu a população ainda no século XVIII. O documento que relata essa situação de flagelo e desespero da população foram as memórias do vereador Manuel Esteves D’Almeida. O documento tem como título Registro de Memória dos Primeiros Estabelecimentos Factos e Casos Raros Accontecidos nesta Villa da Santa Cruz do Aracaty, Feita Segundo a Ordem de S. M., de 27 de Julho e 1782 pelo Vereador Manoel Esteves D’Almeida Desde a Fundação da Dita Villa, Até o Anno Presente de 1795 (RIC,1887, p.83-86).

 

O referido vereador fala da seca ocorrida no início da década de 1790, entre outras mais moderadas. Foi uma seca terrível e rigorosa, que durou o espaço de quatro anos, sendo mais excessiva nos períodos de 1791 e 1792. Esse período de estiagem dizimou quase todo o gado dos sertões.

 

“No anno de 1791 com as seccas referidas foi crescendo a falta de alimentos necessarios que se pozeram estes no maior extremo de necessidade que se póde considerar, de fórma que sendo o preço da farinha de pão a 1:000 réis, desta sorte sahiram os habitantes dos sertões de suas moradas, deixando os seus bens a procurar recursos da vida, e no caminho encontravam a morte pela fome em que laborava o tempo, de sorte que se comiam bixos e taes que nunca fora mantimento humano, como seja corvos, carcarás, cobras, ratos, couros de boi, raizes de ervas, como fossem o chique-chique, mandacarus, mandioca brava etc. Porém nesta villa foi sempre a fome mais moderada do que nos sertões, na qual se refugiou muita gente, e nenhuma pessoa morreu de fome, porque por mar lhe vinha soccôrros, já da Bahia, já de Pernambuco e já do Maranhão. E além destes malles sobreveio outro maior, porque laborando as necessidades e a fome, no anno de 1793 foi tal a epidemia das bexigas, que quase consome todos estes povos, de sorte que houve dia que se enterravam 8 e 9 pessoas, chegando o numero dos mortos a 600” (idem).

Outra situação calamitosa viveu a população no século XIX. Muitos dos flagelados que conseguiram chegar à Fortaleza entre 1877 e 1878, primeiramente se dirigiram para Aracati na esperança de escapar da fome e das epidemias que assolavam a Província naquele período.

 

Os ofícios da Comissão de Socorros Públicos da cidade de Aracati, enviados ao Presidente da Província, datados em 6 de abril e 14 de junho de 1878, estão repletos de informações sobre a situação calamitosa em que se encontrava a cidade nessa ocasião. Constituiu-se, assim, página triste da história aracatiense que muitos estudiosos preferiram não revelar. Entretanto, os documentos oficiais testemunham tal situação e descrevem com toda propriedade o número de indigentes que perambulavam pelas ruas de Aracati e pouco a pouco iam sendo enviados para Fortaleza nos vapores.

 

Na lista, por exemplo, de 14 de junho (1878) foram registrados 95 indigentes, dentre estes 89 órfãos. Nesta relação encontram-se ainda o nome de cada um, a filiação, a idade e a naturalidade. A idade dos órfãos variava de cinco a quinze anos; a naturalidade em sua maioria do “Rio do Peixe, Icó, Lavras, Jagua Mirim, L. Matheus, V. Alegre, Crato, L. Pereiro”, entre outras cidades do interior do Ceará e províncias vizinhas. Assim escreveu o responsável pela comissão dos socorros públicos ao presidente da Província: “Segue para essa Capital 89 orfhãs afim de V. Exª dar-lhes os destinos que julgar mais conveniente, acompanhando a esta a relação nominal d’elles”29. Em 12 de abril de 1878 (ofício n. 16) foram enviados “25 meninas, 18 meninos, 3 moças e mais 2 mulheres”, estes já eram procedentes de Icó, São João do Jaguaribe e Limoeiro. Em 15 de maio do mesmo ano seguiram para a Capital 39 órfãos.

 

Em um trecho de uma carta enviada ao Presidente da Província a Comissão dos Socorros Públicos de Aracati relata as dificuldades para atender uma população que multiplicava a cada dia:

 

“A população superabunda, a torrente da emigração de que é receptáculo esta cidade, vai tornar-se caudalosa, e precipitar-se-la com fúria, arrastando após si toda, a miséria imagináveis. (...) E agora, sem fallar da nudez e das moléstias, onde buscar os meios para saciar a avidez de tantos famintos?”30.

 

Tais acontecimentos podem explicar, portanto, parte da origem do povo aracatiense, que não descende apenas de heróis “forasteiros” dotados de tantos predicativos: polidos, elegantes, inteligentes, “os mais civilizados da Capitania”, de origem portuguesa, pernambucana, baiana ou riograndense. Um olhar sobre a história do Aracati para além de uma história homogênea e sem contradições sociais (história esta contada na maioria dos livros que falam sobre a opulenta cidade de Aracati) esta também foi construída de conflitos entre os diversos segmentos sociais.

 

O viajante Gardner (1975), ao passar pela Vila de Santa Cruz do Aracati, em 1838, fez o seguinte comentário: “A população conta cerca de cinco mil almas, gente paupérrima na maioria”. Deve-se considerar que a opinião do viajante fosse um olhar carregado de pré-conceitos advindo do mundo europeu. Entretanto, os documentos oficiais não omitem a pobreza da população que chegava a cidade, antes reforça essa situação calamitosa de fome e desamparo em conseqüência das secas que assolavam a província cearense, bem como em outros lugares do Nordeste, deixando seqüelas que perduram ao longo dos séculos.

 

No final do século XIX, tinha-se de um lado uma estirpe composta por comerciantes, industriais, intelectuais, políticos, enfim, homens bem sucedidos em negócios e tudo que faziam, de outro, um povo faminto, desamparado e principalmente, uma sociedade acometida pela subnutrição, uma vez que, a base da alimentação era essencialmente “carne seca” e farinha de mandioca. Nessa carta acima referida a Comissão de Socorros Públicos relata sobre as condições de alimentação dessa população:

 

“O alimento, que se pode fornecer, quase consiste em carne do Ceará e farinha de mandioca, à vista da observação dos factos, por si só não pode salutarmente sustentar o povo desamparado e atrophico, como se acha, e principalmente o recém-chegado. Da má alimentação resulta a má nutrição, e d’ahi a enfermidade e a morte”.

 

Sobre os hábitos alimentares dessa população George Gardner em sua narrativa de viagem, realizada de Aracati a Crato, no período de 1838, também teve a oportunidade de conhecer o cotidiano da vida sertaneja.

 

“Durante a estação das chuvas e mesmo por alguns meses depois, o leite é abundante e de excelente qualidade; mas depois, não se o encontra mais, durante os quatro ou cinco meses de seca, senão nas grandes cidades. Os habitantes fazem algum queijo, mas de manteiga nem cogitam: o leite que sobra do almoço (...) fica de lado até a noite, coalhando-se ao calor do dia. Este prato, grandemente apreciado pela gente da terra, adoça-se com açúcar mascavo, a que chamam rapadura e que lhes vem da zona acima de Icó. A rapadura é feita em pedaços de umas seis polegadas de comprimento por três de largura, e é duríssima. Por muito tempo fui obrigado a usa-la como sucedâneo do açúcar. Embora não a apreciasse muito no princípio, acabei por acha-la tão boa, que a preferia ao açúcar, como toda a gente desta zona, a quem vi muita vez fazer sua refeição só de rapadura com farinha” (GARDNER, 1975).

 

Durante os períodos de estiagens e conseqüentemente o surgimento de epidemias, algumas Associações de Caridade, se estabeleceram na cidade com o objetivo de socorrer os flagelados da seca. Dentre estas associações se destaca o papel da “1ª Conferência do Ceará, a de S. Francisco de Assis, que foi instalada em Aracaty a 8 de Dezembro de 1879 e deve-se á iniciativa do dr. A.S.de Sá Leitão”31.

 

Os retirantes que permaneceram na cidade foram se fixando nos arredores da mesma, provavelmente em direção a Várzea da Matriz, a Gambôa, ao Velame, subúrbios da cidade no século XIX e que atualmente ainda apresentam características de bairros populares. Segundo o depoimento do senhor Antero Pereira Filho32, no período aproximadamente de 1830, o bairro Gambôa era um bairro de população pobre, assim como o Velame. O bairro Gambôa também era conhecido como o Bairro dos Pedintes.

 

BARBOSA, Maria Edivani Silva. Outros grupos sociais na construção da vila. In: BARBOSA, Maria Edivani Silva. ARACATI (CE) NO PERÍODO COLONIAL: ESPAÇO E MEMÓRIA. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará-UECE, 2004. p. 117-121.


29 Ofício n. 44 - “Comissão de Socorros Públicos nesta cidade do Aracaty, 14 de junho de 1878”, enviado ao presidente da Província (Arquivo Público do Estado do Ceará).

30 Trecho de uma carta da “Comissão dos Socorros Públicos n’esta cidade do Aracaty, 6 d’abril de 1878” enviada ao Presidente da Província. (Arquivo Público do Estado do Ceará).

31 Almanach do estado do Ceará para o ano de 1902. Cofeccionado por João Câmara. Ano 8º. Fortaleza: Typ. Economie.

32 Depoimento do senhor Antero Pereira Filho, em 18 de junho de 2004, na cidade de Aracati.

Avalie este item
(1 Voto)
Lido 212 vezes Última modificação em Segunda, 10 Julho 2017 20:48

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.

Agenda

Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom
11
12
18
19
20
21
22
26
27
28
29
30