Água Cristalina
Largo da Matriz em Aracati. Largo da Matriz em Aracati. Abílio Monteiro

ARACATI | A Igreja e as irmandades religiosas

Escrito por  Maria Edivani Silva Barbosa Segunda, 31 Julho 2017 22:35

A paisagem urbana de Aracati expressa, através de seus templos religiosos, herdados do período colonial, o poderio da Igreja Católica na formação socioespacial. A Igreja no início da conquista da terra juntamente com o Estado e os colonos exerciam o papel de dominadores dos indígenas da região, impondo sua religião, “pacificando-os”, a fim de transformá-los em vaqueiros e mão de obra para as fazendas de criação de gado.

Um local que evoca a ação da catequese dos indígenas é o próprio largo que fica em frente à igreja Matriz, “local onde eram reunidos os índios submetidos à catequese” (HOORNAERT,1995). No Ceará, ao tempo de sua colonização, observa-se o importante papel que as irmandades religiosas e confrarias exerceram na organização das vilas e cidades coloniais. Neste sentido, Campos evidencia o papel dessas irmandades na organização do espaço:

 

Em poucos lugares do país, as irmandades religiosas estiveram de modo oficial tão divulgadas, no que diz respeito aos seus atos compromissais, como no Ceará. [...] Constituem essas entidades campo vastíssimo à análise e definição de comportamento sócio-religioso do tempo em que prevaleciam em suas funções, não sendo, como imaginam os apressados, de sua obrigação, apenas construir templos, cemitérios, e cuidar do exercício dos ofícios religiosos (CAMPOS, 1980, p.5).

 

Essas irmandades tão presentes na Vila de Aracati funcionavam como entidades de classe. Congregavam, em cada uma delas, pessoas da mesma cor. A vida social da Vila de Aracati, por ocasião do período estudado, foi fortemente marcada por essa cultura, tendo como testemunho o espaço construído, com os templos religiosos que pertenciam às várias irmandades religiosas. Essas, além de se responsabilizarem pela construção dos templos, tinham o objetivo de prestarem assistência aos irmãos malsucedidos em negócios. Campos (1980, p.7) destaca a irmandade do Santíssimo Sacramento, da cidade de Aracati, por ser esta, entre todas, a mais interessada em deixar pecúlio a ser pagável à família dos irmãos falecidos. O autor diz ainda que, “logo depois do Estado, são as mais eficientes auxiliares que sustentam os estabelecimentos religiosos do país”.

 

Observava-se, dentro da própria Igreja Católica, a separação dos indivíduos por grupos étnicos. Essa divisão veio a refletir-se no espaço construído, onde cada irmandade possuía o seu templo: o templo dos brancos, dos pretos e dos pardos, o que contribuía para a segregação socioespacial.

 

A localização das igrejas, em Aracati, que datam do período colonial, praticamente delimita o traçado urbano da Vila, através de ruas retilíneas em um plano reticulado. Os templos religiosos ficavam situados nas principais ruas da Vila.

 

A igreja Matriz de Aracati foi construída por ricos charqueadores vindos de Pernambuco e da Bahia. Pertencia à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Brancos. Inicialmente, em 1714, foi erguida uma capela com frente de tijolos, as laterais de taipa e o telhado coberto de palha. Em 1719, os charqueadores cobriram-na de telha. Somente em 1761, deu-se a construção da atual Matriz (STUDART FILHO, 1959, p.304-307).

 

Da igreja de Nossa Senhora dos Prazeres sabe-se apenas que foi construída por Francisco das Chagas Chora e pertencia à Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pardos Livres. Está localizada na Rua do Piolho (trecho inicial da atual Rua Cel. Pompeu). A referida igreja, ao longo do tempo, foi perdendo as características originais. Algumas mudanças na sua arquitetura foram bastante significativas, dentre estas, aquela realizada pelo senhor Antônio Felismino Filho. Este reformou a Capela de Nossa Senhora dos Prazeres modificando inteiramente o estilo colonial. A reforma teria ocorrido no início do século XX (BEZERRA, 1902, p.140).

 

A igreja de Nossa Senhora do Rosário (dos pretos) pertencia à Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos, localiza-se no trecho central da antiga Rua do Rosário (trecho central da atual Rua Cel. Pompeu). Pouco se sabe sobre sua construção. Sobre esse templo, Antônio Bezerra escreveu as seguintes características:

 

[...] de construção simples e tinha o cunho de pobreza das demais igrejas do Estado. Esta foi construída primeiramente de taipa e nela rezavam os pretos nos domingos os seus terços, até que o capitão Feliciano Gomes da Silva e sua mulher Floriana Ferreira da Silva, em 1777, fizeram doação de umas casas de pedra e cal, sitas na rua do Piolho, para seu patrimônio, e requereram licença para erigir e benzer a capella que com o título de N. S. do Rosario pretendiam levantar á mesma senhora (BEZERRA, 1902).

 

A igreja do Senhor do Bonfim foi edificada por Pedro de Almeida, em 1772 (25 anos depois da criação da Vila), localiza-se no antigo trecho da Rua do Pelourinho (atual Rua Cel. Alexanzito). A igreja foi construída no mesmo local onde havia um oratório de invocação do santo do mesmo nome. Pelos serviços de construção, sabe-se que era de responsabilidade da “Irmandade do Senhor do Bonfim da Freguezia e cidade do Aracaty”. Nos fundos daquela igreja, existe um cemitério, construído em 1878, sob a administração do procurador da confraria do Senhor do Bonfim, o português Albino Rodrigues Soares. Este se encarregou pelo calçamento ao redor do templo, que foi concluído em 1879 (SANTOS, 1917, p. 336-353).

 

Não há como negar o valor histórico dos templos religiosos para se compreender a organização do espaço urbano em Aracati. Contudo, do ponto de vista do valor arquitetônico, são construções que se caracterizam pela simplicidade. Sobre este assunto escreveu Valdelice Girão:

 

As próprias igrejas do início do século XVIII, principalmente as da área pastoril, entre as quais, se encontra a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário do Aracati, apesar de apresentar influências daquelas de Pernambuco e da Bahia, de onde muitas vezes provinham os materiais de construção, mostram uma aparência singela, quase severa, principalmente nos interiores. Salientando-se, no entanto, que nesta arquitetura simples, motivada pela falta da pedra de obragem apropriada, na modesta alvenaria foi executada uma ornamentação própria, onde os artistas anônimos obtêm com linhas, nas combinações ingênuas das curvas e ornatos retilíneos, os efeitos decorativos da maior significação, surgindo daí, uma arte sertaneja, oficialmente desconhecida, que chama a atenção para sua originalidade tão peculiar que deve ser admirada como testemunho material da civilização do sertão (GIRÃO,1995, p.121).

 

Ao analisar a arquitetura religiosa das áreas sertanejas, Nogueira (1999, p.46) enfatiza a pobreza dos motivos arquitetônicos e faz uma comparação com os prédios coloniais barrocos da área açucareira. Para a autora, as igrejas do Aracati, assim como muitas que foram construídas no sertão, eram cópias imperfeitas dos modelos dos grandes centros urbanos, especialmente aquelas construções da área açucareira. A autora utiliza como exemplo as igrejas do Bairro de São José, no Recife, pois essas edificações certamente devem ter orientado a construção de algumas igrejas no Aracati.

 

BARBOSA, Maria Edivani Silva. Os agentes modeladores da cidade de Aracati-CE no período colonial. GeoTextos, vol. 7, n. 2, dez. 2011. p. 35-38.

 

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