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Hidroavião alemão Junkers D-218 Hidroavião alemão Junkers D-218 Abílio Monteiro

1923 — AVIÃO CAI NO ARACATI

Escrito por  Leônidas Cavalcante Fernandes Domingo, 20 Agosto 2017 21:16

Apesar de haver perdido a Primeira Guerra Mundial há pouco mais de quatro anos, a Alemanha despontava como uma das maiores nações fabricantes de avião do mundo. A família Junkers desenvolveu um modelo de avião que, na época, era um sucesso em segurança, economia e autonomia de voo.

A fim de aumentar as vendas em sua fábrica de aeronaves, o patriarca dos Junkers, Hugo, manda o seu filho mais velho, Werner, fazer um "raid" de Cuba até a Argentina.

 

A intenção foi amplamente divulgada pela imprensa. Para tanto, embarcaram a aeronave em um navio, que a levou da Alemanha até Cuba; daí em diante, deslocou-se voando. No Brasil amerissou — na verdade, era um hidroavião modelo D-218 (...) e, por ainda não haver muitos aeroportos em diversos países, descia nas águas de lagos ou rios, que eram abundantes. Cidades sempre nasciam próximas às águas desses acidentes geográficos.

 

Em Fortaleza, por exemplo, os aviões da Condor e os da Nyrba do Brasil (depois de 1930, mudou o nome para Panair do Brasil), que eram os que percorriam a rota Fortaleza-Rio, desciam nas águas da barra do Rio Ceará. No dia 20 de julho de 1930, a Nyrba inaugurou sua estação de passageiros e uma rampa que adentrava a água, à margem do Rio Ceará, hoje Barra do Ceará. O primeiro avião a inaugurar a rampa foi o "São Luiz", que zarpou às 14 horas. A Panair utilizou a citada rampa até o início da década de 1940. Eram todos hidroaviões, com seus flutuadores.

 

O hidravião Junker, alemão, também tinha seus imensos flutuadores em forma de barquinhos para descer n'água. Nele chegaram ao Amapá, onde tiveram dificuldade em conseguir combustível. De lá, foram a São Luiz, onde reabasteceram e seguiram até Camocim, de onde rumaram, sem reabastecer em Fortaleza, direto ao Aracati. O jovem piloto Werner Junkers e seu amigo e copiloto Hermann Müller desceram no rio Jaguaribe, após sobrevoar a cidade, para espanto e deleite de ricos e pobres. Eram cerca de 13h30min.

 

Foi um alvoroço na cidade, onde o piloto, jovem e milionário, demorou pouco conversando com os empresários, enquanto reabasteciam a aeronave. Foram duas horas de festa para o povão, que olhava a máquina voadora boiando próximo à margem do rio. As moças passeavam à margem, de um lado para o outro, na esperança de ver, mesmo de longe, aquele animal raro, alemão, branco, bonito, milionário e, quem sabe, solteiro...

 

Após o reabastecimento do avião e feitos os agradecimentos, os alemães resolveram continuar viagem e a multidão enche a margem do rio para ver a saída. O avião desliza na água e, em seguida, sobe altaneiro. A multidão delira! Era um espetáculo que jamais o aracatiense vira e demoraria a ver novamente.

 

O piloto resolveu dar um adeus àquele povo tão hospitaleiro, fazendo uma curva fechada, ainda a pouca altura. O jovem piloto não contava com a força do vento que vinha das várzeas e, quando o hidravião tinha uma asa apontando para o céu e outra para a terra, foi derrubado pelo vento. Ao trombar com o solo, explode, a fuselagem dividindo-se em duas. A dianteira, onde estavam os pilotos, explodiu e o fogo cobriu os infelizes aviadores alemães. O povo corre para ajudar, mesmo sem saber como fazê-lo, mas era tarde e os dois foram carbonizados. O delírio da multidão, em segundos, passou à angústia e ao pavor.

 

Mortos os jovens alemães, seus corpos foram velados e, em grande cortejo, levados para o cemitério da cidade, próximo e por trás da Igreja Matriz. Foi erigido um mausoléu em alvenaria, bastante robusto, mas que, apesar disso, deteriorou bastante, devido à ação das enchentes periódicas que maltratavam o Aracati.

 

Os admiradores aracatienses e de Camocim, juntamente com o consulado alemão em Fortaleza, mandaram uma firma daquela Capital, a Marmoraria A. Gondim, especializada em trabalhos em mármore, fazer um monumento todo em mármore branco, importado de Carrara. Terminado o trabalho, levaram-no desmontado para Aracati, onde foi erigido, em um local situado um pouco antes do começo da Rua Grande (à época, Rua Cons. Liberato Barroso, hoje Rua Cel. Alexanzito). Uma base de alvenaria coberta com placas de mármore branco, e, na parte superior, uma coluna de mármore com o seu topo quebrado, simbolizando que uma vida em ascensão fora rompida.

 

Era um belo obelisco com três metros e meio de altura. Foram colocadas duas placas, homenageando os mortos: a mais alta, em mármore (hoje exposta no Museu Jaguaribano), foi ofertada pelos aracatienses. A que ficava mais abaixo, em bronze, foi ofertada pelo povo de Camocim.

 

 

Quando o Brasil declarou guerra à Alemanha, durante a II Guerra Mundial, os aracatienses, que tinham o seu patriotismo há muito adormecido, com a ajuda dos políticos, acorda, e, sem nem mesmo saber o porquê, vê o seu nacionalismo tornar-se irracional e agressivo. As manifestações de patriotismo levam o povo às ruas, desejoso de enfrentar o exército alemão. Em uma dessas passeatas, estimuladas não se sabe por qual líder local, o povo "descobre" o orgulho alemão naquele monumento à memória dos pilotos mortos. Era demais aquela expressão de arte, como a exibir a superioridade alemã! Era extremamente humilhante para os brasileiros aquele obelisco! Atacaram-no com fúria insana e não deixaram pedra sobre pedra. Virou cascalho o que era o "orgulho" alemão", apesar de ser obra de operários cearenses especializados. Depois, cansados, cada um foi para sua casa, contar para a família como foi a vingança dos patriotas (?!) brasileiros contra os covardes alemães que estavam torpedeando nossos navios!...


FERNANDES, Leônidas Cavalcante. Aracati: o que pouca gente sabe. Fortaleza: Abc Editora, 2006. 248 p.

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