Antônio Miolo e Maria Borges Antônio Miolo e Maria Borges

Crianças ilustram livro sobre ´causos´ de pescador

Escrito por  Melquíades Júnior Domingo, 09 Setembro 2012 13:50

O livro "Miolo de Pote" traz um pedaço do saber e da experiência de vida dos pescadores da Praia de Canoa Quebrada.

Sempre transmitidas pela oralidade, as histórias antigas dos povos do mar do Ceará começam a receber registros escritos por seus próprios coadjuvantes. Os causos do pescador Antônio Miolo, da Praia de Canoa Quebrada, ganham páginas de livro, com ilustrações feitas por crianças, sobre as peripécias porque passou o antigo trabalhador, entre o real e o fantástico.

 

Cada narrativa é ilustrada por desenhos feitos com lápis de cor pelos garotos Felipe, Lana, Tomas, Anderson, Lázaro, Pedro, Bruna e Lucas, da própria comunidade

Nelas as narrativas de um povo que vencia as adversidades sociais convivendo com a natureza e uma imaginação fértil. O livro "Miolo de Pote" traz um pedaço do saber e da experiência de vida dos pescadores que, assim como os sertanejos da região Nordeste, encontram no meio de um dia difícil algum motivo para uma boa risada.

Os causos do pescador Antônio Pereira da Silva, mais conhecido como "Antônio Miolo", davam-se geralmente quando ele voltava do mar e tinha a sua esposa Maria Borges, a "Maria Miolo", de testemunha (ou cúmplice). Como lá deixaram seus filhos, netos e bisnetos, as histórias não cessam.

Labuta

 

Certo dia, voltando de uma trabalhosa labuta no mar, Antônio Miolo encostou na areia com a jangada cheia de peixe. O que não ficou para comida em casa, foi vendido às mãos de comerciantes. E como pescador completo não apenas pesca, mas "trata" (corta e abre) o produto, pediu à mulher uma bacia e foi à mesa. Quando abriu o bucho de um cação de quase cinco quilos, deixou cair debaixo da mesa um punhado de ovas do peixe.
Colocou tudo que tinha em mãos para cozinhar, mas reparou que sua galinha chocadeira ciscava onde caíram as ovas. Dias depois, no meio de um domingo, seu Miolo percebeu que da ninhada da galinha Griselda havia cinco novos pintinhos, quatro deles "caçãozinhos, balançado as barbataninhas e soltando uns piadinhos diferentes".
 

Os registros revelam um homem que convivia com a natureza, tinha uma família grande, mas com seus "acontecimentos" não deixava a rotina tirar o brilho das histórias. As idas e vindas para o mar eram entrecortadas por histórias vividas a maior parte em casa, em meio às dunas e falésias de Canoa Quebrada.

 

Luta

Como no dia em que conseguiu roubar tanto mel de um cacho de abelhas que foi possível encher um balde. O machado usado na "luta" com as abelhas ainda estava sujo de mel e ficou em cima da mesa. O balde com o mel, deixou no telhado, para as formigas não alcançarem. Pois tanto alcançaram apenas o machado melado na mesa que deixaram somente o cabo, devorando a ferragem.

Ilustração infantil

As histórias foram organizadas pelo arte-educador Tércio Vellardi, presidente da Organização Não Governamental (ONG) Recicriança, e pelo jornalista e historiador Túlio Muniz. Cada narrativa é ilustrada por desenhos feitos com lápis de cor pelos garotos Felipe, Lana, Tomas, Anderson, Lázaro, Pedro, Bruna e Lucas. À exceção de Túlio, todos moram na comunidade dos Estêvão, um povoado na Praia de Canoa Quebrada e onde morou o pescador Antônio Miolo.

"Podemos também dizer que a engenhosidade de Miolo denota, sobremaneira, a criatividade dos habitantes locais, profundamente marcados pela oralidade indígena que cria e recria seus personagens num universo mágico, fantástico", afirma Túlio. O livro tenta materializar o que a oralidade transforma a cada nova geração. E pela própria comunidade dos Estêvão ficam outros resquícios da presença de Antônio Miolo.

Como a falésia em que ele batizou de "Mentira" um ovo depositado por um pássaro Albatroz que, horas antes, disputou no mar com ele um peixe fisgado no anzol. "Esta área é pra ficar isolada, vamos proteger o nascimento deste passarinho e batizá-lo com o nome de ´Mentira´, pois ninguém vai acreditar que pesquei um pássaro com meu anzol", teria dito Antônio Miolo.

Perda


O velho pescador morreu no ano de 2004, aos 85 anos, sem a mesma animação quando contava suas histórias desde que sofreu uma "trombose" que o deixou debilitado até a morte. No entanto, seus causos não morreram, e ainda hoje são contados por gente como Girlene Pereira dos Santos, que é sua neta e, também, trabalha como arte-educadora na ONG Recicriança.

 

 

 

Mais informações:

Associação Recicriança Vila dos Estêvão - Canoa Quebrada/Cidade de Aracati www.recicrianca.org.br


 

Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1179203

 

 

 

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