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Amor de Negro

Escrito por  Gustavo Barroso Quarta, 20 Janeiro 2016 00:00

Na noite calma e enluarada, dois vultos deslizavam por trás das árvores do quintal de dona Eufrásia, na velha cidade do Aracati. Dois vultos cautelosos. Um, de mulher, levando o outro, de homem pela mão. E ciciavam:

 

- Você tem certeza mesmo Iria?

 

- Ora se tenho! Estou cansada de ver com estes olhos que a terra tem de comer cansadinha de ver...

 

- Pois eu, ainda vendo, duvido...

 

- Vai ver agorinha mesmo com seus olhos que nem eu nem Luís somos capazes de levantar um falso testemunho desse tamanho... Credo! Somos lá o que!

 

Nisto, outro vulto lentamente se moveu, meio oculto por umas touceiras de bananeiras, rente à  cerca do fundo do quintal, que dava para uma várzea; onde gemiam carnaubeiras.

 

- O miserável já pulou a cerca! Murmurou, rangendo os dentes de raiva, o homem que acompanhava Iria.

 

E, de súbito, largando-lhe a mão, deitou a correr para o terceiro vulto, erguendo ameaçadoramente o cacete com que se armara. O outro não fugiu. Esperou-o a pé, firme, descascando uma comprida faca. Esquivou-se agilmente às cacetadas, mas uma delas lhe acertou no meio da cabeça, abrindo-lhe uma brecha. Soltou um uivo de dor e, com um salto felino, cravou a faca no peito do agressor. Este cambaleou com os braços pendidos sem defesa. Deu-lhe mais golpes no tórax e no abdômen. Caiu por fim, pesadamente. Foi quando a mulher se aproximou e falou:

 

- Anda, Luís, espeta este diabo! Não o deixes com vida! Anda!

 

Várias vezes mais a faca se embebeu nas carnes da vítima. O sangue ensopou o chão.

 

A mulher e o assassino afastaram-se cautelosamente. Ao luar, quando saíram das sombras das árvores frutíferas do quintal e ganharam um terreiro limpo, mais adiante, via-se que eram negros retintos. Iam abraçados, como dois amantes que passeiam, enquanto a poucos metros dali os porcos começavam a grunhir e fuçar o chão empapado de sangue em volta do cadáver.

 

O barulho dos porcos acordou a vizinhança, alta madrugada. Reunidos em bando, com apetite excitado pelo sangue fresco, atacaram o corpo e travaram luta uns com os outros. Duas ou três pessoas foram afugentá-los para poderem dormir em paz e acharam o morto.

 

Era este o professor primário Tomas Pinto, conhecido pela antonomásia de Baluarte, homem alto, forte, de gênio violento, que estava para casar com a dona da casa em cujo quintal aparecia palitado com quatorze facadas. A rica viúva Joaquina Eufrásia de Almeida, vendo seu noivo naquele estado, botou a boca no mundo. Seu desespero era de fazer dó.

 

Quem o teria morto? Quem o teria atraído àquela emboscada justamente no quintal de sua noiva? A quem aproveitaria o crime? A polícia começou suas indagações e logo desconfiou dum dos escravos da casa, o de nome Luís, que não explicava direito a brecha que apresentava na cabeça, vestígio duma luta recente e que combinava com o cacete manchado de sangue, encontrado ao pé do corpo. Interrogaram o negro de todos os modos. Negava. Meteram-lhe a peia. Confessou tudo.

 

Fora seu amor pela escrava Iria que o conduzira ao crime. Havia muito tempo vivia amasiado com ela, que tomava conta da casa de dona Eufrásia e lhe facilitava a vida livrando-o de serviços pesados e preparando-lhe quitutes. De repente, tudo isso estava ameaçando ir de águas abaixo. A viúva metera-se de namoro com o professor Baluarte, que andava a espalhar por toda a parte que, mal se apanhasse casado, acabaria com a vagabundagem – como dizia – dos negros da viúva, separando os amancebados e obrigando os malandros a trabalhar no duro. Negro como ele, afirmava, era no relho, no nó da peia, no bacalhau, e repetia a trova famosa dos cantadores do sertão:

 

Xique-xique é pau de espinho,

Umburana é pau de abeia,

Gravata de boi é canga

Paletó de negro é peia!

 

Toda a escravaria da viúva ficou alvoraçada. Os dois amantes, então, se apavoraram. Ferveu-lhes o ódio no fundo do coração. Iria dominava Luís e convenceu-o da necessidade de liquidar o intruso. Combinaram um plano. No dia em que a viúva o mandou levar ao noivo um presente de frutas, Luís fez-se muito risonho e puxou conversa com ele. Palavra vai, palavra vem, deixou cravado no coração do professor o espinho do ciúme:

 

- É, a sinhá gosta muito de mandar presentes... Ainda o outro dia levei um prato de canjica para um moço bem bonito. Estava cheirando como que e tinha até o nome dele escrito com canela...

 

- Que nome era?

 

- Eu não sei ler, não senhor; mas acho que Iria sabe o nome do moço. Pergunte a ela.

 

O Baluarte foi perguntar à Iria, que lhe aguçou mais ainda a curiosidade ciumenta com sua recusa em falar. Ele levou muitos dias atormentando-a. Deu-lhe mesmo dinheiro. Até que a negra soltou:

 

- O nome não me lembro mais. O que sei é que, depois que o senhor vai embora, às oito horas da noite, ele salta a cerca do fundo do quintal e passa a noite com a dona Eufrásia...

 

- É mentira, sua negra do diabo!

 

- Se duvida, venha ver com seus olhos amanhã junto comigo.

 

Tomas Pinto veio e encontrou a morte na ponta da faca do escravo.

 

O processo e o julgamento do crime se fizeram em Aracati, mas confirmou a sentença o júri de Fortaleza, para onde os dois cúmplices foram transferidos com algemas e gargalheiras. A escrava Iria foi condenada a prisão perpétua com trabalhos, isto é, a uma escravidão mais rigorosa. O escravo Luís foi condenado à morte natural na forca. Corria o ano de 1837. O réu suplicou a graça do Poder Moderador, que lhe foi naturalmente negada pela Regência diante desta informação do presidente da Província:

 

“não sou de opinião que se comute a pena imposta ao réu, e antes me parece dever ser ela executada para com o exemplo do mesmo fazer-se abater a fúria dos malvados que, sem respeito à lei, à religião e à humanidade, com facilidade privam da vida os cidadãos pacíficos, como todos os dias se está vendo.”

 

As delongas do processo e de seus recursos legais fizeram com que o réu somente fosse executado em fevereiro de 1840. A execução demorou tanto que ele não acreditava mais nela, nem mesmo ao pé da forca, diante do horrendo aparato do suplício. Comia bem. Dormia como um justo. Quando lhe falavam da morte, punha-se a rir e a dizer:

 

- Tudo isso é tatu para me fazer medo!...

 

Achava-se na cadeia de Fortaleza quando veio da Corte a ordem da execução, que se devia realizar, de acordo com a lei, no local do crime, para escarmento dos povos. Levaram-no algemado para o Aracati, escoltado por trinta praças da polícia comandadas pelo alferes Joaquim do Carmo Ferreira Chaves cunhado do morto. Ia também o carrasco oficial da capital, o célebre Pareça. A cidade do Aracati não tinha meios para se dar ao luxo dum verdugo privado.

 

Na véspera de morrer, o negro Luís dormiu a sono solto. Pela madrugada, o alferes acordou-o e perguntou-lhe:

 

- Como pudestes dormir tão tranquilamente? Não sabes que vais morrer?

 

Deu de ombros, desdenhosamente. Com o mesmo desdém caminhou para o suplício. Era no dia 25 de maio de 1840. Saiu do oratório acompanhado pelo vigário Galvão e pelo padre Sampaio. Os sinos dobraram a finados nas torres das igrejas centenárias. O povo fervilhava desde a cadeia até a Cruz das Almas, onde estava o pelourinho e se erguia a forca. Luís ia de alva, com anjinhos e correntes, pisando com firmeza, sorrindo aos conhecidos.

 

Ao subir a escada do patíbulo, fez um gesto e, no silêncio estupefato que o rodeou, disse alto, sem um tremor na voz:

 

- Eu sou o único culpado na morte do Tomas Pinto! A Iria é inocente!...

 

No limiar da eternidade, o escravo assassino inocentava a negra por amor de quem se tornara criminoso. Quem sabe se não afrontava a morte com tamanha coragem porque não lhe era mais possível a vida sem ela?... Não matara para não perdê-la?...

 

 

Fonte: BARROSO, Gustavo. O Livro dos Enforcados. Fortaleza: Getúlio M. Costa, 1939.

 

O texto de Gustavo Barroso trata-se de obra literária, licença poética, baseada em fato ocorrido na cidade de Aracati. O relato que serviu de inspiração ao autor foi publicado na Revista do Instituto do Ceará sob o título “A Pena de Morte em Aracati” de autoria de Benedito dos Santos. Segundo Santos a data da execução é 17 de março de 1840 e o local da forca ficava em frente à Cadeia Pública com a Travessa da Cacimba da Rua, e não na Cruz das Almas. Provavelmente onde hoje se encontra a capela da medalha milagrosa das irmãs de Caridade.

 

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