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Os fantástikos [detalhe] Os fantástikos [detalhe] Acervo do ator

Emiliano Queiroz

Escrito por  Maria Letícia Quinta, 21 Janeiro 2016 00:00

Emiliano Queiroz, ator aracatiense, participou de mais de cinquenta novelas e minisséries e quarenta peças. Em 2006, a Coleção Aplauso, editada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, incluiu o nome de Emiliano entre outras publicações dedicadas a dar visibilidade a estrelas do teatro e televisão brasileiros. Sob o título Emiliano Queiroz: na sobremesa da vida a obra perfaz a vida do ator cearense desde sua infância em Aracati até seus mais recentes trabalhos. Apresentamos, a seguir, o relato de Emiliano Queiroz sobre o Aracati de sua infância nos idos anos de 1930.

VOCAÇÃO

Aracati, 1.1.36, meu berço.

 

Aracati era uma cidade com mistérios. Repleta de casarões, sobrados de paredes com azulejos, varandas, igrejas e sons de pianos. Parecia que a cada quadra havia um piano.

 

– Esse som vem da casa do Jacques Klein ou então do sobrado do Barão, na rua de trás.

 

Outro som familiar: as brigas por amor de Dona Priscila com seu marido. Sempre que a loira vizinha começava a discutir, eu e minha irmã Terezinha levávamos nossas cadeirinhas de balanço para a calçada em frente e assistíamos, mais uma vez, a uma cena que era sempre igual. No final ela chorava muito, ele ia embora e ela desmaiava. Dias depois, ele voltava. E daí a pouco tudo acontecia outra vez para meu deleite.

 

A poucos minutos dali, o rio doce-salgado e, mais à frente, Canoa Quebrada. Ali dei meu primeiro mergulho, levado por minha mãe.

 

O mar soprava, em moto-contínuo, um vento doce, aromatizando o calor.

 

Diziam que anos atrás o oceano Atlântico era ali na nossa calçada. Contavam histórias. Uma aldeia fora tragada pelas dunas, sumiu do mapa. Era a lenda de Almofala. E um porto com entrada e saída de navios tinha desaparecido.

 

E dona Belinha, cujos longos cabelos haviam se tornado dois novelos, um de cada lado da cabeça, que ninguém conseguia cortar. Foi preciso a interferência milagrosa de São Francisco de Canindé para os novelos, duros como arames, cederem às tesouras.

 

Devia ter três anos quando meu pai me levou ao cinema. Fiquei a maior parte do tempo de costas para a tela, olhando o foco da projeção, para saber de onde vinham aquelas figuras. Assim meu pai me contava.

 

Com o teatro foi diferente. Abel Teixeira veio de Fortaleza com sua famosa montagem de O mártir do Gólgota. Madalena recostada numa recambier e o vulto de Cristo passando atrás de arcos em tons dourados. Voltei para casa e, durante um bom tempo, representei todas aquelas cenas. Sabia diálogos, sequências, mas meu grande momento era a Ressurreição. Anos depois, participaria de várias montagens da Paixão de Cristo, uma delas dirigida por Abel Teixeira, que havia me deslumbrado em Aracati. Com a proximidade do Natal começava o Pastoril e as vozes das pastorinhas chegavam até nossa casa todas as noites.

 

Borboleta bonitinha, venha aqui...

ela hoje canta um hino

hoje é noite de Natal

 

Depois, entrava o diabo e havia um grande alvoroço. O homem que fazia o diabo era quem entregava verduras e carnes na nossa casa. Minha mãe recomendava a ele:

 

– Não faça tanto barulho quando entrar no palco. O Emiliano acorda e fica querendo ir assistir ao Pastoril a todo custo.

 

Ele sorria e dizia:

 

– Leva o menino.

 

Era um homem grande, de pele morena e voz tonitruante. Foi o primeiro ator que conheci.

 

Um dia, me levaram para assistir ao Pastoril. O meu primeiro ator apareceu todo coberto de azul, como um filho de Nossa Senhora. E eu gostei daquele diabo de voz grave, baixa e azul. De repente, folhas-de-flandres foram sacudidas provocando um efeito de trovão. Luzes vermelhas piscaram. Vi raios e fumaça. O manto azul do meu ator foi jogado para o alto, revelando o outro lado daquela figura.

 

Agora, um macacão vermelho de seda brilhante, chifres e uma voz aterradora. Tomei um susto, dei uma risada, bati palmas. Naquele momento perdi o medo do diabo para sempre. Assim como para sempre foi o amor que senti pelo teatro.

 

Um fato curioso aconteceu por essa época. Todas as noites, na mesma hora, eu acordava chorando. Eu chamava meus pais e dizia que um homem de cabelos brancos e pijama listrado estava ali sentado num banquinho. Meus pais não eram de Aracati, não sabiam nada a respeito de antigos moradores. Minha mãe, já preocupada com a situação que se tornava incômoda, falou do fato a uma vizinha. A mulher teve um arrepio:

 

– Dona Ana, se mude dessa casa. Essa figura que o menino vê é de um antigo morador que se matou. Foi encontrado enforcado usando pijama listrado e tinha cabelos brancos e...

 

No dia seguinte, mudamos para outra casa e o fato mediúnico foi esquecido e nunca mais se repetiu.

 

Minha mãe foi preparada para alfabetizar crianças e, assim, logo aprendi a ler e escrever.

 

Ela lia histórias para mim. Eu adorava, era um ótimo ouvinte. Quando ia repetir as histórias para alguém, mudava as cenas e desfechos. Isso me encantava.

“Quem conta um conto aumenta um ponto”

 

Em casa tinha uma folhinha do Almanaque Capivarol, com Shirley Temple na contracapa. Ela usava pijama, tinha cachinhos e eu me apaixonei.

 

Um dia, acordei e me disseram:

 

– Vamos nos mudar.

 

Atravessamos um trecho ou afluente do rio Jaguaribe para chegar a Russas. O caminhão, com a mudança na carroceria e a família na boleia, foi colocado numa balsa que chamavam “pontão”.

 

Um relógio antigo de parede (que guardo até hoje) estava com meu pai, como uma preciosidade. E assim deixei Aracati para sempre, flutuando nas águas daquele rio veloz e ameaçador.

 

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Lido 373 vezes Última modificação em Quinta, 21 Janeiro 2016 16:20

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