Água Cristalina
Mural Poetossíntese. Mural Poetossíntese. Arte de Edson Virginio. Projeto: Grupo Lua Cheia

Artes públicas em Aracati

Escrito por  Sábado, 10 Setembro 2016 20:11

Quando se pensa em arte, logo, se tem a noção do belo e a configuração de espaços “adequados” à sua exibição, entre os quais figuram os museus, galerias, ateliês e acervos particulares. Estes espaços, importantes para a fruição e alfabetização visual, são considerados, de modo consensual, a ambientes privilegiados para a exposição de obras de arte. Ainda hoje, muitos artistas “validam” o currículo em mostras coletivas e individuais realizadas em museus e galerias que chancelam o sujeito como artista, atribuindo aval perante a sociedade e a crítica especializada.

 

Todavia, desde as Vanguardas Europeias, a arte tem buscado dialogar com espaços abertos. Destarte, verifica-se a prevalência do público como tema recorrente em meio aos impressionistas, entre os quais destaca-se Claude Monet. O impressionismo foi uma importante ruptura na temática e na técnica. Ele foi o primeiro passo para uma série de mudanças que se processaram a partir do final do século XIX. As alterações no estatuto oficial da arte incluíam o sentimento e a percepção de mundo do artista e não tão somente o domínio da técnica. Representar o mundo sob essa nova concepção incluía a negação aos valores acadêmicos. Fora dos parâmetros oficiais instituídos pela academia, essa nova produção artística foi rejeitada e considerada de péssima qualidade, haja visto que não respeitava as regras de harmonia, proporcionalidade entre outras, tidas como necessárias ao status de arte e do belo.

 

Rejeitados pela percepção tradicional, os artistas mais uma vez inovaram com a criação de alternativas para a vinculação de suas obras como tradutoras das sociedades nas quais estavam inseridos.

 

A linha do tempo dessa evolução se dá ao longo de mais de dois séculos. Neste esboço, pretende-se possibilitar ao leitor a compreensão de que a arte dialoga com as sociedades, traduzindo-a. E que a noção de uso do espaço e diálogo com o público tem se acentuado neste último século.

 


Nesse sentido, aqui se debruça sobre a histórica cidade de Aracati-CE, importante entreposto comercial do Brasil colonial, na qual o espaço urbano dialoga com a arquitetura colonial e as manifestações artísticas contemporâneas.

 

Na cidade de Aracati, a rua, os muros, as casas, os postes, as calçadas passaram a se configurar como novos espaços de fruição artística.

 

 

Os monumentos históricos (hermas a Monsenhor Bruno e Pe. Sá Leitão, Monumento à Independência, pirâmide erguida em homenagem à Dom Luiz) e o sítio histórico de Aracati são importantes evidências de um passado cultural pautado na noção do belo.

 

Outras evidências podem ser percebidas pela crônica histórica ou ainda presenciadas em nosso cotidiano.

 

A crônica histórica registra que, até a década de 1980, havia um imenso mural de arte com temática abstrata, assinado por Joaquim das Freiras, em cerâmica assentada na fachada da agência do Banco do Brasil, na Rua Coronel Alexandrino, a, ainda, conhecida “Rua do Comércio”.

 

A loja Apacel expõe, desde 1970, um painel de aproximadamente 24m², em carvão sobre parede, com assinatura do artista Hélio Santos. É do mesmo artista a assinatura de diversos painéis dispostos nas igrejas de Aracati que adornam altares.

 

Em Aracati, durante a década de 1990, um muro da casa de nº 856, situada à Praça Dom Luis com a Rua Santos Dummont, foi galeria e suporte ao mesmo tempo para a expressão de poetas (R. Leontino Filho, Manuel Lima etc.) e artistas visuais (Edson Virginio e Marciano Ponciano). A atividade se manteve perene por uma década. Ainda, em 1990, concomitante à fundação do Grupo Lua Cheia de Teatro, nascia a Quarta Cultural - Exposição de artes visuais, literatura, música e teatro. A primeira edição realizada em espaço público, na Praça Pe. Champagnat, buscou aproximar a produção artística local e o público aracatiense.

 

Nas praias de Majorlândia e Quixaba, os murais de Toinho de Majorlândia permitem o acesso público a obras em baixo relevo, muitos dos quais realizados nas falésias de Quixaba.

 

Certamente, há outras manifestações não relatadas nesse breve artigo que podem ser motivo de apreciação em pesquisa sobre as artes públicas em Aracati.

 

Os artistas continuam esse diálogo que se pauta por uma arte acessível, cuja configuração pode ocorrer em espaço público. A cidade está cheia de evidências artísticas, muitas vezes anônimas. Alguns trabalhos, realizados com material muito simples, reafirmam que a arte deve ser acessível a todos independente de seu estatuto.

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Lido 1095 vezes Última modificação em Sábado, 10 Setembro 2016 20:37
Marciano Ponciano Virginio

Sou natural de Aracati-Ce, terra onde os bons ventos sopram. Na academia da vida constitui-me poeta, realizador de sonhos, encenador de máscaras. Na academia dos saberes acumulados titulei-me professor de Língua Portuguesa e especializei-me em Arte-Educação. O projeto de vida é semear a arte por onde passe: teatro, poesia, artes plásticas- frutos da experiência acumulada em anos dedicados a ser feliz. Quando me perguntam quem sou - ator, poeta, encenador, artista plástico, educador? Afirmo: - Sou poeta!

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