Água Cristalina

ARACATI | Os engenhos de ferro e os moinhos de vento

Escrito por  Patrícia Pereira Xavier Terça, 11 Julho 2017 20:51

Francisco Freire Alemão, estudioso que fazia parte da Comissão Científica do Império22, esteve de passagem pelo Cumbe em 1859 e retratou o lugar com detalhes em dois textos: “Passeio ao Cumbe” e “Visita ao Cumbe”23.

 

Em seu relato, o viajante descreve o caminho entre a vila de Aracati e o povoado, segundo ele penoso, feito no lombo dos cavalos que atravessaram rios e areias finas com muita dificuldade:

 

Chegamos enfim à grande Gamboa, que bem que estivesse a maré vazia apresentava um rio de umas 20, a 30 braças de largo e com bastante fundo; passamo-la em uma pequena canoa levando os cavalos a nado, passagem dificultosa e aborrecida com a maré vazia por causa das lamas atoladiças que ficam descobertas. Passada a Gamboa continuamos o caminho, por terrenos já coberto de matos e carnaubais, e por sítios com plantações de canas de mandioca. Iamo-nos chegando aos morros da costa. Seriam talvez 10 horas quando nos apeamos em um Engenho, antes Engenhoca, que estava moendo; tem moendas de ferro e eram puxadas por duas juntas de bois reunidas. É engenho só de aguardente. Está êle situado bem na fralda do morro redondo (Cumbe), que é um grande e vistoso monte de areia fina, e clara sem nenhuma vegetação24.

 

A comitiva saiu de Aracati no dia 25 de agosto de 1859, às sete horas da manhã. O grupo era composto por dez pessoas. Dentre eles, três faziam parte da Comissão Científica: Lagos (seção de zoologia), Reis (pintor da comissão) e Francisco Freire Alemão. Além destes, acompanhavam o grupo Manuel e Bordalo, dois ajudantes, um criado e o guia.

 

Segundo as descrições do viajante, o rio Jaguaribe e suas gamboas dificultavam o caminho que deveria ser percorrido. Às 10 horas, pararam em um dos engenhos, e por volta de meio-dia, o grupo decide retornar para a vila. Para evitar o caminho pelas Gamboas, escolhem voltar pelos morros de areia. O sol e o vento forte prejudicavam o atalho pelas dunas. “Andamos por espaço de muito mais de 2 léguas rodeando a vargem, o vale e por cima, digo subindo e descendo montanhas de areia fina e solta, onde os animais se enterravam, e tão clara que o reflexo do sol deslumbrava a vista e causava dores nos olhos e na cabeça (...).”25Percebemos através do relato do pesquisador, ao qual recorreremos outras vezes, as dificuldades para chegar até o povoado. O autor chama atenção para o fato de o rio não estar cheio, ou seja, essas complicações deveriam duplicar em momentos de cheia do Jaguaribe.26 Essa foi a primeira visita do grupo ao Cumbe, dias mais tarde, o grupo retornou ao povoado, e desta vez, pernoitaram no local.

 

Naquele período, a economia local era alimentada pela produção da cachaça. A fama da aguardente do Cumbe chegou ao século XX. Antonio Bezerra, em 1902, relata que no Cumbe havia “12 moinhos de vento para o serviço de irrigação, de 2 kilometros de terras optimas para a canna, em cuja zona trabalham 09 engenhos de ferro. É afamada no Estado a sua aguardente”. (BEZERRA, 1902, p. 136)

 

Atualmente não existe mais nenhum sítio que cultive a cana ou produza aguardente no Cumbe, contudo, este capítulo da história do povoado permanece na memória de todos os entrevistados. As lembranças desse tempo vêm da infância ou das histórias contadas pelos pais e avós. Os relatos descrevem um tempo de fartura, em que os donos de sítios eram bons, e que os moradores que não tinham sua terra, arrendavam o terreno e plantavam banana, manga, coco, mandioca, etc. Contam que os caçoas saiam carregados de frutas e de outros gêneros que eram vendidos na feira em Aracati.

 

Eu acho que se voltasse o passado, voltava os sítios que eram, novamente a agricultura que o pessoal plantava, que voltasse, ai era, eu achava que era uma boa, porque naquela época existia uma parte da pobreza, mas a gente nem notava a pobreza, porque era muita fartura, aí os sítios aí, porque se quisesse banana, colhia banana, pra comer madura, aquelas bananas mais menor os donos não tiravam, e lá amadurecia (...) os sítios onde eram os engenhos, aqueles menino com um bucho, a barriga chega espelhava, de barriga cheia de garapa, era o dia todinho, era os cortes de cana (...)27

 

Não sabemos até que ponto esse momento da história do Cumbe foi um tempo de fartura, ou se as agruras do tempo presente acabaram transformando o período dos engenhos e da cachaça, em um momento idealizado. Essa segunda hipótese provavelmente seja a mais aceitável.28 O que sabemos é que, além dos registros orais, no Cumbe podemos encontrar ainda hoje, os alicerces de antigas casas e os resquícios de um dos engenhos.

 

Essa utopia de que o Sítio Cumbe era um local abençoado, em que a terra era extremamente fértil e onde era possível aproveitar o dia entre os passeios a cavalo e banhos de rio e lagoa, não estão presentes somente nos depoimentos orais. Em 1898, um autor desconhecido publica um texto intitulado “Impressões de um passeio”. Trinta e oito anos depois da Comissão Científica, o narrador descreve um domingo passado no Cumbe. Vejamos um trecho de sua descrição:

 

As 5 horas da tarde de sábado seguimos em companhia do ilustre Coronel João Adolfo Gurgel do Amaral, em uma canoa por sobre as marulhosas águas do poético Jaguaribe, e 2 horas depois chegamos ao desejado Cumbe, onde já encontramos, com antecedência de ½ hora, a cavalgada que daqui havia seguido por terra, composta de 12 cavalheiros, isto é, da quase totalidade dos “convivas” e da qual éramos apenas fração muito insignificante.29

 

O narrador a convite do Sr. Abel Francisco Lopes, que era proprietário de um sítio no Cumbe, relata a noite de sábado e o dia de domingo passados em um local que em suas palavras era “de uma esplêndida e caprichosa natureza”. Segundo o autor, nada faltou naqueles dias, todos os convidados foram servidos com fresca e abundante água de coco e caldo de cana, não faltando às bebidas alcoólicas, champanhe, vinho, conhaque, e a famosa cachaça do Cumbe. O jantar da noite de sábado e o almoço de domingo são descritos como verdadeiros banquetes. O repouso noturno foi no grande alpendre da casa em “alva e macia rede, tendo por companheiras de nossa noite as estrelas do firmamento e as travessas brisas, que brincavam nas varandas das nossas camas”30.

 

Percebemos na narrativa uma clara idealização da vida no campo. Logo no início do texto, o autor revela: “feliz aquele que se passa longe do bulício das cidades completamente esquecido das lutas e fadigas da véspera”. O relato, que foi publicado em jornal, sem dúvida foi o maior agradecimento do autor ao proprietário do sítio, que podia propagar que, além de sua residência em Aracati, possuía outra no campo onde poderia receber dignamente 12 convivas e ainda servi-los com as melhores iguarias locais.

 

Nesse tempo, os engenhos povoavam os terrenos do Cumbe, e o relato de 1898, ao contrário dos escritos de Francisco Freire Alemão, dão conta de um passeio agradável sem dificuldades no caminho. No entanto, o texto publicado no jornal “O Jaguaribe” não descreve como funcionavam os engenhos de cana, assunto que para ele não era tão importante quanto a informação de que o Cumbe era um dos melhores passeios de Aracati. Já para a Comissão Científica, pormenorizar a maneira como funcionavam os engenhos naquela região era uma tarefa que deveria ser realizada por dever de ofício. Vejamos o que nos informa o viajante em 1859:

 

De manhã acordamos ouvindo gritos de quem tocava bois; era o engenho que movia. (...) O engenho consiste em uma máquina ou aparelho de moendas de ferro inglêsas, como são todas as que tenho visto aqui, exposta ao tempo e só coberta por um teto de palhas assentada sobre as aspas, e que se move com as almanjarras e apenas cobre as moendas. Dois bois puxam o engenho e um mulatinho metia canas, e há muito tempo tocava os bois. (...) Uma bomba que tira água dum poço, ao pé da casa de destilo, é toda feita de carnaúba – esteios, travessos e bomba. O corpo da bomba, o êmbolo e válvulas tudo é de pau e tosco: mas serve. O que aqui achei curioso é que a bomba é tocada por um moinho de vento31.

 

O texto de Francisco Freire Alemão cataloga o engenho, descreve todos os processos de extração da garapa, os materiais utilizados, os trabalhadores (bois e mulatinhos) e por onde passava a garapa até a casa de destilo. Ele informa também que os sítios ficavam “pela beira dos morros de areia”, e que se distanciavam uns dos outros “100 ou 200 braças”, medida que equivale a aproximadamente 200 a 400 metros. Eram engenhos produtores de cachaça.

 

O proprietário do engenho havia hospedado o grupo e o pesquisador inicia sua narrativa descrevendo a casa do sitiante, que em suas palavras era uma “verdadeira sanzala”32. A casa era coberta de telha, mas as paredes eram de palha “sustentadas por paus-a-pique de carnaúba”, o piso era de terra, com um alpendre coberto de palha. Depois de descrever o engenho propriamente dito, o viajante conta que a cana era amontoada no chão próxima da moenda, e que a garapa seguia por um “tubo de carnaúba” para a casa de destilação, que, segundo o autor, era “pequena, tosca e suja”. É perceptível o quanto aquela indústria, na visão do visitante, era tacanha e necessitava de melhoramentos, em suas palavras os engenhos eram “toscas engenhocas, onde só há de bom as moendas de ferro”.

 

Por fim, Freire Alemão fica surpreso com os moinhos de vento, que eram totalmente fabricados de carnaúba, “esteios, travessos e bomba”. O moinho, neste caso, seria para puxar a água utilizada no processo de destilação, mas, conforme o texto, as engenhocas também eram usadas na irrigação das plantações de cana.

 

 

Na imagem, vemos a casa “pequena, tosca e suja” conforme as palavras utilizadas pelo viajante. É possível identificarmos também, o tubo de carnaúba, a bomba e o moinho. Tudo fabricado com a madeira de carnaúba, muito comum na região. Naquela visita, o grupo observou que em apenas um canavial havia cerca de oito moinhos de vento iguais ao retratado na aquarela do pintor da Comissão Científica. Visitando o Cumbe, em uma das pesquisas de campo, verificamos que ainda hoje os moinhos podem ser encontrados no povoado. Continuam sendo fabricados de carnaúba, no entanto, não são eles que predominam na paisagem. Atualmente, os moinhos de vento do Cumbe que se sobressaem pertencem à usina eólica que lá se fixou, e que não servem para puxar água, mas sim para produzir energia.

 

 

O mecanismo realmente surpreendeu o grupo. Freire Alemão chega a comentar que, apesar de “tosco”, o aparelho funcionava muito bem, e que, pelo serviço que prestava, não sabia por que motivo, a engenhoca não era “vulgarizada na província”. O aproveitamento dos ventos naquela região vem de longa data, seja para puxar água ou para gerar energia, o vento é um patrimônio natural do Cumbe.

 

Xavier, Patrícia Pereira. Valorização e preservação do patrimônio arqueológico na Comunidade do Cumbe – Aracati-CE– Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2013.p. 25-31.



22 A Comissão Científica do Império, idealizada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e

financiada por Dom Pedro II, tinha como principal objetivo conhecer as longínquas províncias do território nacional. Conforme aponta o historiador Paulo César dos Santos a comissão fazia parte “de um projeto nacionalista e científico para o Brasil (...). Saber e poder caminhavam juntos na tentativa de construção da nação. Conhecer e administrar pareciam verbos conjugados em um único intuito: produzir uma história para o Brasil independente.”. (SANTOS, 2011.p.12). O autor explica ainda que o Ceará foi o primeiro destino da comissão que era formada por cinco seções de estudos (botânica, geologia e mineralogia, zoologia, astronomia e geografia, etnográfica e narrativa de viagens). Francisco Freire Alemão era o chefe da comissão e responsável pela seção de botânica. O cientista produziu um extenso diário contando a respeito do cotidiano da viagem, além de correspondências e outros artigos. A comitiva era composta também, pelos ajudantes e pelo pintor Reis de Carvalho, que registrou suas impressões em diversas aquarelas.

23 Biblioteca Nacional (Brasil). Anais da Biblioteca Nacional. Vol. 81 (1961) – Rio de Janeiro. A. Biblioteca, 1964.

24 Ibid.p.271

25 Biblioteca Nacional (Brasil). Anais da Biblioteca Nacional. Vol. 81 (1961) – Rio de Janeiro. A. Biblioteca, 1964. p.271.

26 De fato o Cumbe viveu durante muito tempo um certo isolamento, devido a sua localização e configuração geográfica. Sobre isso Luciana Queiroz afirma: “Esse relativo isolamento se explica, em grande medida, pelas características ambientais da comunidade — que está encravada no centro de um complexo e importante mosaico de unidades morfológicas, formado por campo de dunas fixas e móveis, planície fluvial (Rio Jaguaribe), fluviomarinha e o tabuleiro litorâneo (...)”. (QUEIROZ, 2007: 36).

27 Depoimento de Zé de Chiquim, concedido a autora no dia 08/02/2012.

28 No entanto, concordamos com Ecléia Bosi que ao analisar os depoimentos de idosos contendo seus relatos de vida afirmou: “A veracidade do narrador não nos preocupou: com certeza seus erros e lapsos

são menos graves em suas consequências que as omissões da história oficial. Nosso interesse está no que foi lembrado, no que foi escolhido para perpetuar-se na história de sua vida.” (BOSI, 1994, p.37).

29 Impressões de um passeio. Jornal O Jaguaribe, 10 de Fevereiro de 1898.

30 Ibid.

31 Biblioteca Nacional (Brasil). Anais da Biblioteca Nacional. Vol. 81 (1961) – Rio de Janeiro. A. Biblioteca, 1964 p. 273,274.

32 Acredito que o autor se referia à senzala.

 

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