Estilo Lima

ARACATI | Os morros de areia

Escrito por  Patrícia Pereira Xavier Quinta, 13 Julho 2017 20:32

No relato de Freire Alemão, percebemos que além dos canaviais, havia naquele período outro elemento muito marcante da paisagem, que foi definido pelo pesquisador como “monte de areia fina e clara sem nenhuma vegetação”33. O conjunto de dunas do Cumbe prendeu a atenção do grupo de estudiosos. Das duas aquarelas produzidas pela comissão retratando o local, uma ilustra as dunas.

A beleza cênica dos morros de areia do Cumbe é citada por vários outros documentos produzidos por visitantes do lugar, mas também pelos próprios moradores. “Hoje o Cumbe não tem nada/Todos vivem na pobreza/Mas tem as mais belas dunas/De toda essa redondeza/Pra você ver o quando é grande o poder da natureza.” (PINHEIRO,2006, p.08.). No texto, o cordelista nativo do Cumbe fala sobre a decadência dos engenhos34 e reforça a beleza da paisagem proporcionada pelo campo de dunas. A paisagem pode ser apreciada da base do morro, mas o observador pode, também, subir no seu topo. Foi o que fez a Comissão Científica em 1859. Segundo Freire Alemão, “De cima desses enormes montes avistamos o mar e grande parte da costa, ficando-nos incuberta [sic] a foz do Jaguaribe. O panorama era magnífico o mar tranquilo estava de uma cor azul intensa”35. Da base ou do alto, as dunas do Cumbe são referências importantes para os habitantes e visitantes do povoado.

 

Os morros de areia, além de serem um motivo de orgulho para os que lá vivem, também causam medo à população. As dunas móveis estão constantemente se movimentando. A dinâmica do vento faz com que as finas areias encubram e descubram sítios, casas, lagoas, etc.

 

O texto “Impressões de um Passeio”, já citado anteriormente, trata do fenômeno da movimentação das areias. Sobre as dunas o visitante comenta: “Tivemos ocasião de admirar o assombroso espetáculo de como um morro, sem boca nem goela, engole os sítios que estão colocados em sua marcha devastadora! É assim que já existe soterrado pelas areias um sítio destas paragens, outro começa ser invadido e, mais tarde, elas terão avassalado tudo quanto achar-se na direção de sua carreira”36. A movimentação dos morros, portanto, há séculos, está presente no cotidiano das comunidades litorâneas que habitam próximas a dunas móveis. Conforme aponta o estudo de Luciana Queiroz (QUEIROZ, 2007), atualmente as dunas caminham na direção do Cumbe e da foz do rio Jaguaribe, havendo inclusive o risco dos montes de areia acelerar o processo de assoreamento do rio.

 

O temor causado pelos morros, contudo, não é motivado apenas pela sua constante movimentação. Os escritos e a narrativa oral dos habitantes locais, até hoje falam a respeito do “toque do Cumbe”37. Abelardo Gurgel Costa Lima, no livro Pequena Corografia do Município de Aracati, publicado em 1956, explica o fato: “Nos morros do Cumbe e da Beirada, ouvem-se de tempos em tempos, fortes estrondos e ruídos confusos, acompanhados de ebulição e deslocamento das areias. O barulho que se escuta quando isso se verifica, assemelha-se ao tamborilar, surdo e desordenado de caixas de guerra, ao longe.”(LIMA, 1956, p.10). Vários são os relatos de moradores que juram já ter escutado os sons dos tambores do Cumbe.

 

Mas o que eu ouvi certa vez, numa manhã, já há muito tempo, e... há... é uma marcação de tambores, mas uma coisa muito rápida quando você sintoniza, num é setembro, num tá havendo marcha nem nada, a coisa já passou e você acha curioso aquilo, né, tem um ritmo, tem uma marcação, aí eu digo: “Pronto, hoje eu ouvi a bateria do Dom Sebastião”, né.38

 

A respeito do texto de Abelardo Lima, é importante destacarmos que o livro era uma publicação didática. Nesse sentido, é interessante que, dentre várias peculiaridades do Cumbe, o autor tenha escolhido abordar justamente o barulho das dunas. O autor tenta explicar o fenômeno cientificamente. Segundo ele, os barulhos são causados por uma acomodação no terreno. Conforme as dunas se movem, esbarram no solo do mangue, que acabam cedendo e afundando com o peso das areias, provocando assim os estrondos. No entanto, o título do tópico é “A Lenda do Morro” e, mesmo que o escritor tenha dado uma explicação racional, ele também cita outra versão “A tradição, porém, nos legou a lenda criada pelos antigos moradores do lugar, procurando explicar supersticiosamente a origem do fenômeno. Conta-se ela que, no morro do Cumbe, está encantado El Rei Dom Sebastião com seus soldados.”39. O fato de a história estar retratada em um livro com fins didáticos na década de 50 demonstra a importância da narrativa, mas também pode indicar outro veículo, além da oralidade, que possibilitou que a lenda do Rei Sebastião chegasse até os dias atuais.

 

João Luís, morador do Cumbe, em entrevista concedida em 18 de janeiro de 2012, relata que escutou a história dos tambores pela primeira vez em uma roda de conversa dos adultos à noite no alpendre. Ele conta que a explicação dada para os barulhos ouvidos pelos caminhantes nas dunas era de que o Rei Sebastião estava encantado nas areias do Cumbe, e que em algumas ocasiões podia ser ouvido, e até mesmo visto, com sua cavalaria a vagar pelos morros.

 

O texto da Comissão Científica, preocupado em registrar todos os acontecimentos extraordinários que pudessem ser catalogados, e consequentemente, explicados cientificamente, nos dá notícia dos barulhos ouvidos nos morros. Freire Alemão e sua comitiva visitaram o Cumbe pela segunda vez para verificarem in loco, os fenômenos narrados por seus acompanhantes locais:

 

Era realmente curioso o som que dava a montanha, ora mais brando, ou quase nulo, ora mais intenso, e perceptível, assemelhava-se ao som do tambor dos pretos no seu camdombe, ouvido a uma certa distância; e quando o som se tornava mais intenso, a areia corria pelos flancos da montanha e sentia-se um estremecimento na areia, no monte e nas árvores sobre que estávamos deitados ou sentados.40

 

O estudioso não faz menção sobre possibilidade dos barulhos serem causados pela tropa do Rei Sebastião.

 

Outro documento que menciona os “tambores do Cumbe” é o Álbum do Jaguaribe de 1922. O Álbum foi publicado em comemoração ao centenário da independência, em suas páginas são encontrados relatos e fotografias sobre as principais cidades ribeirinhas do Jaguaribe. Ao povoado do Cumbe é reservada uma pequena nota, dentro do capítulo sobre Aracati. O texto comenta rapidamente que o povoado possui terras férteis para a produção de cana e é famoso pela produção da aguardente. Contudo, o que realmente demanda atenção no Cumbe são os intrigantes barulhos ouvidos nas dunas. “É notável pelo ruído que se ouve sempre em baixo, e por vezes tem oscilado, revolvendo as areias que se compõem, supõe-se que é agitado por uma ação vulcânica”41. Ação vulcânica ou acomodação do terreno, não sabemos, são somente hipóteses, no entanto, são sempre conjecturas mais plausíveis, diante da explicação que os “supersticiosos dizem estar encantado o Rei D. Sebastião; esta superstição nasce do ruído que se ouve em certas épocas, semelhante ao rufar do tambor"42.

 

O mito sebastianista está ligado à história do Rei Dom Sebastião que, no contexto histórico das cruzadas parte de Portugal, partiu com destino ao mundo árabe para travar guerra contra os mouros, considerados infiéis pelos cristãos naquele período. O fato é que o jovem rei, que representava a esperança para os portugueses que passavam por uma grande crise, morre na famosa batalha de Alcacér-Quibir. Surge daí a lenda (nascida, não se sabe se do desejo de que o rei não estivesse morto, ou de uma manipulação para que a população não entrasse em pânico com o ocorrido)43 de que o rei estaria vivo e voltaria a qualquer momento para assumir seu posto. Conforme aponta a pesquisadora Márcia Freire Pinto: “Esse movimento e a lenda de Dom Sebastião, conhecida como o encantado El Rei D. Sebastião, se espalharam pelo Brasil nos movimentos de caráter messiânico, em várias comunidades, como no caso do Cumbe, em Aracati, onde, segundo a lenda, o rei se encontra encantado nas dunas” (PINTO, 2009, p.38).

 

A história contada pela narrativa oral ganha riqueza de detalhes e situações que foram passadas de geração a geração e ainda hoje são contadas. Como, por exemplo o relato de João do Cumbe sobre a aparição de Sebastião para um homem nas dunas, vejamos nas palavras do entrevistado:

 

(...) um nativo andando 12 hora nas dunas, encontra um senhor num cavalo todo branco, aí esse senhor não se identifica e diz assim, fala pra ele: “ó, tal dia na Igreja do Senhor do Bonfim vai ter uma missa, então quando o padre tiver levando, o pão e a hóstia né (...) ele gritasse ‘Viva o Rei Dom Sebastião’ e aí né, esse cara não comentou isso com ninguém, foi para a missa e disse que né, assistindo a missa, e quando chega esse momento que hoje nós chamamos de ofertório né (...) e ai quando ele tava levando, ele diz que olha pro patamar, ele olha pra porta principal da igreja, então tava o, o cavalo, o, o Dom Sebastião com a sua cavalaria né, e... perdão, Dom Sebastião com toda a sua cavalaria que era imensa (...) resumindo a história, desmaiou entendeu, então o cara desmaiou, quando veio retornar né, já tinha passado esse momento e o padre pergunta o que foi que aconteceu e ai ele conta né, ai o padre disse pra ele, também que não sabe quem era o padre, meu filho ainda bem que você não gritou “Viva o Rei Dom Sebastião”, porque se você tivesse gritado ele tinha desencantado e o mundo tinha se acabado (...)44

 

A lenda de D. Sebastião, assim como outras histórias contadas e recontadas pelos habitantes do Cumbe, faz parte do patrimônio imaterial da comunidade. Essas narrativas contam sobre a relação entre homem e natureza. Explicam que a maneira de enxergar o mundo vai além do aspecto material, envolve o mundo sobrenatural, a esfera do intangível, do invisível. Nesse sentindo, os morros de areia não são apenas locais de passagem, são lugares em que é possível entrar em contato com o mundo fantástico, e vivenciar experiências que deverão construir a trama do significado de nascer e morar no Cumbe, e os sentidos de pertença ao território.

 

Nos campos de dunas do Cumbe, mais especificamente em um dos morros mais altos da comunidade, foi colocado o cemitério do povoado. Os mais velhos relatam que, com medo das grandes cheias (período em que quase toda a extensão da comunidade fica submersa), os moradores decidiram fixar a necrópole em local alto, para que seus mortos não ficassem imersos nas grandes inundações do Jaguaribe.

 

Neste mesmo local foi colocada a Santa Cruz. O monumento foi fincado no topo do morro em 1900, em comemoração a passagem do século XIX para o século XX. O responsável pelo feito foi o Sr. Abel Francisco Lopes, o mesmo que promoveu fausto banquete para 12 convidados em 1898 em seu sítio no Cumbe. Parece que o Sr. Lopes desejava mesmo ser lembrado. A Cruz, com cerca de 20 metros, foi construída com a madeira de carnaúba e rapidamente se transformou eu um lugar de oração.

 

O cruzeiro, fixado no morro mais alto, bem no início da comunidade, tem uma visão privilegiada. Lá de cima é possível enxergar todo o povoado, o rio Jaguaribe e Fortim. A subida até o local pode ser considerada uma forma de penitência, a duna, muito íngreme e de areia solta, faz com que seja preciso parar algumas vezes para chegar até o monumento. As dificuldades deviam se multiplicar, quando na subida era levado um ente falecido ou uma enorme cruz feita de carnaúba.

 

O cruzeiro acabou se transformando em um local sagrado para os moradores. Além de enterrar os mortos, os habitantes passaram também a fazer e pagar promessas no cruzeiro, aos pés do monumento encontram-se alguns ex-votos45. Além disso, sempre que possível, a comunidade organizava missas, que eram rezadas todos os anos nos dias de finados. Esse costume, no entanto, foi acabando. Um dos motivos, segundo alguns moradores, foi a privatização do terreno contíguo a duna que leva ao cruzeiro por uma fazenda de camarão, que passou a impedir que os moradores utilizassem o caminho para chegar a Santa Cruz. Atualmente, a população está se organizando para voltar a realizar missas periodicamente no alto da duna.

 

No dia 13 de setembro de 2011, em visita à comunidade, participei de uma missa no local. Para a igreja católica, no dia 13 de setembro é comemorado o dia da Santa Cruz. A celebração contou com a participação maciça da comunidade, que aproveitou a ocasião para visitar e rezar pelos seus entes falecidos.

A Santa Cruz, contudo, não é referência apenas espiritual, o monumento, além do caráter religioso, exerceu durante um vasto período, a função de localização. O marco pode ser visto por moradores de Fortim e por pescadores no mar. Com a chegada das torres gigantes, o cruzeiro que reinou por anos no topo do morro, fica quase imperceptível diante dos aerogeradores.

A foto foi tirada da base da duna que dá acesso ao cruzeiro. Por meio da imagem, percebemos como as torres da usina eólica modificaram a paisagem do Cumbe. O cruzeiro, contornado pelo círculo negro, passa despercebido diante do catavento de 80 metros.

 

Valorizar o local, e tentar retomar as manifestações religiosas que eram realizadas há mais de cem anos, demonstra uma sensibilidade diante das modificações verificadas nos últimos anos. Voltar a ocupar a Santa Cruz é uma maneira de construir uma continuidade com o passado e fazer reviver, não da mesma maneira, as memórias dos que já não estão mais presentes para lembrar o que passou.

 

XAVIER, Patrícia Pereira. Valorização e Preservação do Patrimônio Arqueológico na Comunidade do Cumbe - Aracati/CE. 2013. 141 f. Dissertação (Mestrado em Preservação do Patrimônio Cultural) - Iphan, Rio de Janeiro, 2013. p. 31-38


33 Biblioteca Nacional (Brasil). Anais da Biblioteca Nacional. Vol. 81 (1961) – Rio de Janeiro. A. Biblioteca, 1964.p.71.

34 A partir da década de 70, grande parte dos sítios foi vendida ou desmembrada.

35 Biblioteca Nacional (Brasil). Anais da Biblioteca Nacional. Vol. 81 (1961) – Rio de Janeiro. A. Biblioteca, 1964.p. 275.

36 Impressões de um passeio. Jornal O Jaguaribe. 10 de Fevereiro de 1898.

37 A expressão “toque do Cumbe” foi retirada do texto de Frei Alemão sobre o Cumbe.

38 Entrevista com Zé Correia cedida a autora no dia 26/03/2012.

39 Ibid. p.12.

40 Biblioteca Nacional (Brasil). Anais da Biblioteca Nacional. Vol. 81 (1961) – Rio de Janeiro. A. Biblioteca, 1964.p.277.

41 (SOUSA, 1922. p. 42)

42 Ibid.

43 Sobre o assunto consultar: LUCETTE, Valensi. Fábulas da memória: a batalha de Alcácer Quibir e o mito do sebastianismo. Tradução de Maria Helena Franco Martins – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994. Segundo a autora, no Brasil, o mito do Rei D. Sebastião foi propagado por padres jesuítas e de outras corporações religiosas, que se correspondiam com seus pares em Portugal, onde a espera pela volta do rei era difundida. No entanto, ao atravessar o Atlântico, o mito sebastianista foi folclorizado, ganhando contornos nitidamente sociais, separando-se do seu conteúdo político, como acontecia em Portugal. Aqui, a volta de Dom Sebastião foi pregada por vários líderes messiânicos que percorriam os sertões nordestinos. Dentre eles, o mais conhecido foi Antônio Conselheiro que, em Canudos no interior da Bahia, no final do século XIX, acreditava na volta de Sebastião com sua tropa. Depois de sua morte, a história continuou se espalhando pelo nordeste, alguns passaram a acreditar que Conselheiro ressuscitaria acompanhado de Sebastião. Assim, o mito foi se espalhando e ganhando novas versões.

44 Entrevista com João do Cumbe cedida a autora no dia 17/12/2011.

45 O ex-voto é uma parte, ou imagem de alguma parte do corpo, geralmente feito de cera ou madeira. Deixado em uma igreja ou em local santo, em comemoração pela cura recebida de uma doença do órgão retratado.

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