Adolfo Caminha Adolfo Caminha Baseado em desenho de Pastor.

Adolfo Caminha: um autor tenso e intencionado

Escrito por  Carlos Eduardo de Oliveira Bezerra Terça, 18 Julho 2017 20:22

As histórias da literatura brasileira categorizaram Adolfo Caminha como um autor contraditório, frágil e menor, talvez marginal se pensado em relação aos grandes nomes do período. Preferimos chamá-lo de um autor tenso. Tenso em relação às transformações que marcaram aquele “início” do século XIX, pois, ao mesmo tempo em que ele as louvava e pedia por elas, ele também as via com desconfiança, destacadamente no caso da entrada do Brasil no mercado consumidor de bens importados, que a seu ver ameaçava a cultura e os costumes locais, como é possível apreender da leitura de sua coluna intitulada de “Sabbatina”, no jornal O Pão, da Padaria Espiritual.

 

 

Adolfo Caminha foi tenso também em relação à encruzilhada estética que foi o século XIX, cheia de possibilidades no campo geral das artes e da literatura em particular. E por fim, tenso em relação à escrita ficcional e à remuneração financeira dela advinda. Tensão parece ser uma das suas principais características. Tensão entre a vida e a arte, entre o viver e o escrever, entre a escrita e a publicação, entre as letras e os números, entre um suposto heroísmo e uma igualmente suposta vitimização de sua personalidade. Foi assim que iniciamos a nossa leitura do conjunto da obra de Adolfo Caminha. Mais do que um polo ou outro, o que nos parece mais importante é a tensão entre eles, pois Adolfo Caminha não esteve só de um lado ou de outro. Foi da tensão desses polos que resultou o conjunto da sua obra.

 

Além de tenso, também o consideramos intencionado, isto é, motivado por uma intenção, uma missão, como era comum aos seus pares letrados do período. Adolfo Caminha é um crente da literatura como arte civilizadora. Em seus textos críticos são muitos os exemplos dessa sua crença. Igualmente intencionada foi a sua participação no movimento republicano, notadamente no Ceará, movimento político que ele fez questão de representar em seus romances A normalista e Tentação. Tenso e intencionado é um binômio que o leitor pode encontrar no conjunto da obra caminhiana. Esse binômio ajudou-nos a compor aquela que achamos que é a sua maior característica como autor: a poligrafa. Uma poligrafa segundo as condições sociais e intelectuais de seu tempo e segundo as suas próprias necessidades pessoais, incluindo-se nelas as financeiras, bem como as necessidades de seu projeto literário: a de fazer-se um autor profissional. O possível é sempre a medida nesse projeto. Ser o polígrafo, no caso de Adolfo Caminha, era ser o autor possível em seu tempo, o que significa dizer também nas circunstâncias que o rodeavam. Portanto, estar em toda parte por meio da poligrafia era levar a cabo, ou ao menos tentar levar, esse projeto. O fim de sua poligrafa nos pareceu ser esse. Essa é a tese que aqui defendemos. Mostrando-se consciente do meios que o cercavam, e quando dizemos meio pensamos em sistema ou campo literário, Adolfo Caminha procurou estar em toda parte, ainda que suas ambições pessoais o limitassem a alguns circuitos específicos.

 

Considerado pela história tradicional da literatura brasileira como um autor naturalista, Adolfo Caminha morreu de tuberculose, a doença que mais vitimou os românticos e serviu à historiografia como critério de conceituação dos românticos. Louvando Émile Zola como exemplo a seguir, tanto nas letras como na vida, não deixou de reconhecer Cruz e Souza como o poeta mais bem acabado do seu tempo. Em comum com os homens de letras de sua época, deixou o Ceará, a sua província natal, para viver na capital do Império e, em seguida, a capital da República, que era também a capital da República das Letras nacionais. Ir ao Rio Janeiro era como ir a “Paris em ponto pequeno”, como ele afirmou em seu romance Tentação. Se o dinheiro não dava para atravessar o Atlântico, que tal desembarcar no Rio? Esse foi o percurso que o dinheiro possibilitou ao nosso autor. Na então capital do país, associou-se aos simbolistas, esses também marginalizados. Nela, criticou a poesia parnasiana e louvou a relação entre a ciência e a arte. [...]

 

Bezerra, Carlos Eduardo de Oliveira. Adolfo Caminha : um polígrafo na literatura brasileira do século XIX (1885-1897) - São Paulo : Cultura Acadêmica, 2009. p. 22-23.

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Lido 193 vezes Última modificação em Terça, 18 Julho 2017 20:29

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