Ventania sobre dunas, 2015. Ventania sobre dunas, 2015. Luis Barros

ARACATI | A lenda do morro

Escrito por  Abelardo Gurgel Costa Lima Sábado, 05 Agosto 2017 19:18

Nos morros do Cumbe e da Beirada, ouvem-se de tempos em tempos, fortes estrondos e ruídos confusos, acompanhados de ebulição e deslocamento das areias.

 

O barulho que se escuta, quando isto se verifica, assemelha-se ao tamborilar, surdo e desordenado, de caixas de guerra, ao longe.

O deslocamento das areias muda, de repente, o aspecto local. Plantações que se encontravam nos alagadiços alteiam-se a 3, 4 e até 5 metros, em pleno morro; cercas, coqueiros e outras árvores que se erquiam nas encostas são transportados a 30 ou 40 metros de distância, intactos, às vezes, como se mão de gigante os tivesse transplantado.

 

Várias são as explicações sobre a origem deste fenômeno.

 

O dr. Tomaz Pompeu de Souza Brasil (O Ceará no Começo do Século XX, p. 90) insinua que talvez seja a mesma causa que no Mississipi forma os montes de lama. E explica: "As grandes massas de produtos vegetais, trazidas pela correnteza e detidas nos bancos para serem cobertas por camadas de lama, entram em fermentação e produzem gases que acabam por intumescê-las e formar os cones (muds lamps) donde se escapam gases".

 

“No Jaguaribe, é provável que a sua vegetação marginal, mais basta nos pequenos furos em que ele se bifurca na foz, seja coberta de areias movediças, formando internamente, nos sítios mais apropriados, pequenos centros de decomposições gasosas".

 

Já Alípio Luís Pereira da Silva (Considerações gerais sobre as províncias do Ceará e Rio G. do Norte, 1885, p. 41), discorrendo sobre o fato, afirma: "Grande parte dos terrenos aí são antigos brejados e nele fazem-se plantações de cana. Tem-se visto, precedidos de fortes ruídos subterrâneos, parte desses terrenos que se compõem de barro lamacento, se elevar de repente com as respectivas plantações, a altura de vinte e trinta palmos.

 

"Atribuo este fenômeno ao peso dos morros de areia que se formaram sobre aqueles brejos e que, por não acharem um solo ainda bem consolidado, descem produzindo esses deslocamentos".

 

A tradição, porém, nos legou a lenda criada pelos antigos moradores do lugar, procurando explicar supersticiosamente a origem do fenômeno.

 

Conta-nos ela que, no morro do Cumbe, está encantado El Rei D. Sebastião com os seus soldados. Em certos dias, principalmente nas noites de luar, D. Sebastião, ao som de seus tambores de guerra, sai passeando pelas encostas do morro, acompanhado de sua tropa.

 

Diz Alípio Luís Pereira da Silva que "essa superstição nasce do ruído que se ouve em certas épocas, semelhante ao ruflar de tambor".

 

LIMA, Abelardo Gurgel Costa. Pequena corografia do município de Aracati- Fortaleza-  Minerva,  1956. p. 10-12

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Lido 462 vezes Última modificação em Sábado, 05 Agosto 2017 19:50

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