Windstorm Windstorm Andrew Dubrik

A revolta do vento

Escrito por  Domingo, 11 Maio 2014 15:18

O vento chegou silencioso. Parecia uma onda gigante do mar, sem barulho, fazendo deitar curvado os coqueiros e todo o mangue da margem do rio. Um sussurro assim nem parecia vento. Soprava de tal modo que não trazia consigo nem um grão de areia dos morros para cima da vila do Cumbe. O vento zunia sobre os morros sem mexer com a areia. Parecia que tinha cor, uma cor azulada, quando estancou de repente sobre os morros do Cumbe.

 


Daí por diante foi o rufar dos tambores, os toques de cornetas e clarins, vozes desconhecidas de comando, ordens militares e depois o silêncio. Era madrugada, um pouco antes de o sol nascer.


D. Sebastião rei de Portugal que desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir no Marrocos como por encanto assomou no Cumbe e desapareceu na imensidão do areal que formava as dunas.


A manifestação de sua presença nos morros se fez notar em algumas ocasiões; numa delas foram ouvidos o rufar dos tambores e as explosões como se fosse o exercício de um exército. Depois disso os morros sofriam transformações com o deslocamento mudando-o de lugar e, imensas faixas de plantações desapareciam.


No entanto, a mais forte aparição de D. Sebastião no Cumbe foi quando seu exército, tendo ele a frente, ressurgiu das profundezas do areal, desceu o morro e marchou solenemente para combater os republicanos nas ruas do Aracati ao tempo da república do Equador.


A terra tremeu duas vezes; na partida para a batalha e ao seu retorno na madrugada quando encantado voltou ao Cumbe. Por muito tempo depois desse acontecimento houve somente o silêncio, quebrado poucas vezes pelo exercício militar das tropas nas entranhas dos morros que modificavam a paisagem.


Um dia quando o encantamento de D. Sebastião já era lenda e nem se escutava mais os barulhos das manobras do seu exército, chegaram aos morros do Cumbe as imensas torres e palhetas gigantes dos cata-ventos, moinhos de vento, que iriam cobrir toda a extensão dos morros da Canoa Quebrada até a barra do rio Jaguaribe.


O silêncio dos morros foi então substituído pelo zumbido constante das hélices dos cata-ventos que cortavam o vento fazendo girar os moinhos num movimento contínuo e ruidoso.


O tempo foi paciente. Pouco a pouco tudo começou a se mexer. Do seu encantamento D. Sebastião movimentou o seu exército e uma imensa cratera começou a se formar sob o alicerce em torno do pedestal dos cata-ventos fazendo com que fossem sendo tragados para o interior da terra, para as profundezas dos morros.


No afã de não serem engolidos pela terra que as tropas de D. Sebastião movera aos seus pés, os cata-ventos não paravam de girar chamando e cortando o vento como se tivessem asas, alçassem voo e subissem. Em vão. Na desesperada refrega para não sucumbirem, as imensas hélices na sua descida começaram a espalhar enormes ondas de areia. Pareciam nuvens do céu que se deslocavam numa grande velocidade tangidas pela ventania cobrindo tudo em sua trajetória.


O movimento constante das hélices, tocadas pelos ventos, empurravam os morros do Cumbe que avançavam sobre a cidade de Aracati como uma onda gigante do mar feita de areia enterrando e cobrindo tudo na sua inexorável caminhada ao seu destino final.


Enquanto os morros avançavam à “Morada Encantada” de D. Sebastião principiava a aparecer e seu exército, que latente por séculos permanecia, surgiu ao barulho das ondas do mar e a claridade do sol.


Desperto D. Sebastião ordena que suas tropas lutem contra os cata-ventos e destruam suas poderosas hélices que ainda continuam a soprar areia para o céu num arrebatado apelo para voltar à superfície.


Serenada a luta, derrotado os cata-ventos que não mais sopravam, assomou nesse momento a figura de D. Sebastião à frente do seu exército caminhando para o mar encarando pela última vez as dunas do Cumbe. O areal, longe muito longe, ia cobrindo por completo toda cidade de Aracati, transformando tudo num imenso “mar de areia branca”. A cidade sumiu. Ficou tudo submerso embaixo de uma montanha de areia na imensidão das várzeas.


Tudo havia se transfigurado. Sem morros, nem cata-ventos apenas uma esplêndida praia de areia branca surgiu onde antes havia dunas. Assim como D. Sebastião outrora adormecido, os moinhos de vento gigantes agora estavam encantados.


Tinham-se passado muitos anos quando um dia apareceu um profeta no lugar que depois se chamaria “Alto da Cheia,” ao ver aquela imensidão de areia branca que cobria toda cidade de Aracati profetizou: “Aracati ainda vai ser cama de baleia”.


Aqueles que ouviram a tal profecia acharam que o profeta estava dizendo uma heresia. Ficaram estarrecidos. Como aquele lugar que ora era um deserto poderia um dia vir a ser “Cama de Baleia”?


Mas as profecias como dizem os profetas existem para serem concretizadas e realizadas.


E assim aconteceu. Num determinado ano terminado em 4 houve um grande inverno. Chovia de noite e chovia de dia quase sem parar. Era tanta água que cobria o areal fazendo o rio Jaguaribe parecer um mar.


As chuvas de janeiro se prologaram até março, quando chegou abril não havia mais lugar para tanta água. Numa manhã chuvosa de final de abril, de repente abriu-se um clarão, tudo ficou tão brilhante como se o sol tivesse descido.


O Jaguaribe que a correnteza levava rio abaixo em busca do mar, parou de correr impedido pela imponente Barreira Preta. Como uma parede de pedra ela o fazia voltar e depois retornar num movimento que deslocava o imenso areal que cobria o Aracati. Lentamente uma massa compacta de terra acompanhava e seguia as águas do rio que conduzia o areal a seu ponto de origem. Pouco a pouco a cidade começou a se mostrar novamente. Tudo parecia ter voltado ao normal e, nem o passar dos anos, nem mesmo o areal afetaram-lhe a aparência.


Nada da cidade, nada mesmo, mudara. Era como se nada houvesse acontecido.


Quando o sol subiu e a noite chegou não havia mais enchente na cidade. Todo o povo começou a voltar para encontrar o seu passado. Naquele dia o povo acorreu para a igreja Matriz no sentido de agradecer pelo retorno à vida e o fim do “encantamento” da cidade. Como por magia a Matriz não tinha um grão de areia nem um pingo d’água em toda sua estrutura. Nem nas paredes, nem no teto nem no piso. No entanto, em meio à nave central, como se estivesse dormindo um sono profundo, uma enorme e intacta baleia permanecia como que para provar que a profecia era verdadeira, fora realizada, era real. Mas os que participaram daquele acontecimento afirmaram que a imagem da Baleia era uma visão. Uma visagem que se espalhava por toda nave da igreja sem ocupar nenhum espaço.


Com a volta dos morros para o Cumbe os cata-ventos, que jaziam inertes e parados nas profundezas da terra, emergiram e ao contato com o vento começaram a girar novamente.


D. Sebastião que se livrara do encantamento quando os morros do Cumbe viraram planícies, plainando sob as praias desertas como as areias dos desertos do Marrocos, foi tragado pelas dunas com a avalanche da areia que retornava, voltando novamente a ficar soterrado e encantado nos Morros do Cumbe.

 

Para ouvir o conto acesse:

 

 

 

 

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Lido 1596 vezes Última modificação em Sábado, 25 Outubro 2014 15:50
Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nascido no Aracati em 30 de novembro de 1946, foi o terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva. Viveu sua infância em Icapui onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta. Em 1957, ingressou no Grupo Escolar Barão de Aracati. Em 1974, casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e deste matrimônio nasceram os filhos Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira.

 

Em 1976 graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN. Atuou à frente do Instituto do Museu Jaguaribano como presidente, função que exerceu em duas diretorias (1976 1979/1982-1985). Foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996) período em que assumiu a pasta da Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.

 

A história e a memória da cidade e do povo aracatiense constituem objetos de seus estudos amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local em que colabora desde 1975. Em 2005 a crônica "O Amor do Palhaço", de sua autoria, foi adaptada para o cinema em um curta metragem (15") homônimo com direção de Armando Praça Neto,

 

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)

Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)

Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009) 

A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)

Fatos e Acontecimentos Marcantes da História do Aracati. (Inédito)

Aracati era assim (Inédito)

Notícias do Povo Aracatiense (Inédito)

 

8 comentários

  • Link do comentário Maria Eduarda da Silva Santos Sexta, 13 Outubro 2017 14:27 postado por Maria Eduarda da Silva Santos

    Ótimo texto!Com ele aprendi mais sobre Aracati e sobre as lenda de D.Sebastião.

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  • Link do comentário Lívia Moreira Lima Quinta, 12 Outubro 2017 16:20 postado por Lívia Moreira Lima

    Ele me me ajudou a entender a história do Aracati em uma forma poética e que D.Sebastião é um exemplo cultural da cidade de Aracati

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  • Link do comentário Caroline Barbosa Da Costa Terça, 10 Outubro 2017 20:59 postado por Caroline Barbosa Da Costa

    Podemos observar que são lembranças um pouco assustador que nos remetem a voltar ao passado foram momentos difíceis enfrentados na cidade do Aracati,e o que mais me chamou a atenção foi que na igreja Matriz não ficou nem um grão de areia,o que ocorreu para que isso acontecesse?São coisas que só quem viveu pode contar jamais iremos saber o que de fato ocorreu naqueles momentos e foi graças a D.Sebastião e seu exército que conseguimos enfrentar todas essas dificuldades.

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  • Link do comentário Rafael Silva do Nascimento Segunda, 09 Outubro 2017 20:36 postado por Rafael Silva do Nascimento

    O texto conta um pouco da tragetória de Aracati e também fala sobre um conto que fala que Dom Sebastião desapareceu na batalha do Marrocos e passou a habitar o Cumbe e travou batalhas contra os cata ventos colocando todo o território aracatiense debaixo de areia e mais tarde apareceu um profeta que disse que aquela cidade que naquele momento estava coberta de areia um dia serviria como cama de baleia e de fato realmente aconteceu e que em um determinado ponto da cheia a chuva cessou e a cidade voltou a ser a majestosa cidade que era antes de se afundar em areia.

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  • Link do comentário Arthur Torres Domingo, 08 Outubro 2017 21:58 postado por Arthur Torres

    Texto muito bom, gosto da forma que conta sobre Aracati

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  • Link do comentário Isadora Maria Garcia de Sena Domingo, 08 Outubro 2017 17:36 postado por Isadora Maria Garcia de Sena

    Que belo texto!
    Com ele pude aprender muito mais sobre a riqueza cultural do Aracati e sobre sua belíssima história!
    A cheia de 1924 foi realmente um importante fato histórico e as lendas que envolvem D. Sebastião são exemplos dessa riqueza cultural de Aracati.
    Amei?

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  • Link do comentário Frederico Gregorio Domingo, 08 Outubro 2017 17:17 postado por Frederico Gregorio

    Muito interessante entender a história do Aracati de maneira poética por meio desses filhos ilustres que temos no nosso aracati.

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  • Link do comentário Dário Oliveira Silva Mathias Domingo, 08 Outubro 2017 16:34 postado por Dário Oliveira Silva Mathias

    Neste belo texto histórico pude aprender que Aracati viveu uma época muito vamos dizer difícil que nesse época ouve uma grande ventania silenciosa que parecia uma onda do mar sem barulho e ao longo desses dias ouve a aparição de D. Sebastião rei de Portugal que vamos dizer ele e seu exercito ajudaram muito Aracati nesses tempos de crise e também teve o profeta que de acordo com sua profecia (Aracati ainda se chamaria cama de baleia) e n devemos esquecer o fato mais curioso na minha opinião que como por magia n tinha se quer hum grão de areia na igreja e mem uma gota de água por volta da sua estrutura então isso foi o meu ponto de vista sobre esse belo texto histórico.

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