Detalhe de fotografia Detalhe de fotografia Acervo de Abílio Monteiro

Sagrado Coração

Escrito por  Quinta, 15 Maio 2014 10:45

A matriz foi aberta pelo sacristão com um vigor diferente dos dias lentos e mornos da antiga Aracati. O sino com sua voz mortiça anunciava a passagem de mais um cristão. Demorou pouco para que a igreja estivesse lotada pelas filhas do Sagrado Coração que se puseram em torno do corpo a debulhar ave-marias.

As falas monótonas das senhoras continham uma mecânica própria e as palavras eram ditas, por vezes, como uma canção triste que adensava o clima daquela sala. Entre um mistério e outro havia quem especulasse sobre o falecido, sua causa mortis e dependendo das respostas maledicências iam contornando a reza. Entre elas eram frequentes os comentários de Maria do Carmo e Genoveva, carolas viúvas que encontravam mais sentido na vida dos outros que em suas próprias.
- Ave Maria cheia de graça... o véu está furado.
- Bendita sois vós entre as mulheres... alguém precisa trocar a vela.
- Santa Maria mãe de Jesus... dizem que era um sovina.
- Agora e na hora... o Senhor tem cada filho! Pão duro até na morte!
Um jogo frenético de comentários se sucedia até que o corpo fosse encomendado. Depois se separavam e cada uma, com a indiferença de estranhos, seguia seu caminho até em casa.
O falecimento de quem quer que fosse era motivo para encontros -davam sentido às suas vidas. Aquele instante as resgatava da monotonia dos dias e as colocava diante do momento mais doloroso de nossa existência - a morte.
Novamente o som lúgubre do sino da matriz soava.
-O mês está animado! Dois corpos para encomendar -pensaram Maria do Carmo e Genoveva quase num instante de telepatia.
Ávidas por serem as primeiras a chegarem à matriz depararam-se com a sala cheia das senhoras do Sagrado Coração que rezavam com um fervor diferente.
– Deve ser alguém importante! -pensaram.
Todas as filhas da irmandade estavam presentes e isto só ocorria quando se tratava do falecimento de gente muito distinta e importante para a centenária Aracati. A muito custo conseguiram atravessar o círculo de senhoras que oravam. Quando chegaram aos seus lugares de costume, retiraram de seus bolsos o terço de contas de marfim, afinaram as suas preces ao canto dolente de suas companheiras e gelaram. No centro da sala estavam os seus corpos. O transe daquela imagem só foi interrompido quando elas ouviram comentários sobre suas vidas entre um mistério e outro.

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Lido 787 vezes Última modificação em Quinta, 15 Maio 2014 10:53
Marciano Ponciano Virginio

Sou natural de Aracati-Ce, terra onde os bons ventos sopram. Na academia da vida constitui-me poeta, realizador de sonhos, encenador de máscaras. Na academia dos saberes acumulados titulei-me professor de Língua Portuguesa e especializei-me em Arte-Educação. O projeto de vida é semear a arte por onde passe: teatro, poesia, artes plásticas- frutos da experiência acumulada em anos dedicados a ser feliz. Quando me perguntam quem sou - ator, poeta, encenador, artista plástico, educador? Afirmo: - Sou poeta!

1 Comentário

  • Link do comentário Kilvia Monteiro Quarta, 21 Maio 2014 20:37 postado por Kilvia Monteiro

    Genial!!! A narrativa em ambientação local nos leva a uma viagem onde a ficção se enlaça à realidade dos nossos antepassados!

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