O Baile de Carnaval O Baile de Carnaval Isaac do Carmo, 2006.

O Baile de Carnaval

Escrito por  Segunda, 08 Fevereiro 2016 19:09

Há muitos anos, quando não existia nenhum clube social no Aracati, as festas dançantes, inclusive os bailes de carnaval, eram realizados no salão superior da antiga Casa de Câmara e Cadeia, onde hoje funciona a Câmara Municipal.

 

 

Na parte térrea funcionava a cadeia pública, onde eram então encarcerados os presos correcionais e os presos da Justiça. Isto é, aqueles que cumpriam pena por seus crimes. Dentre esses prisioneiros da Justiça, havia uma mulher que tinha praticado um assassinato. Seu crime, segundo a história que contavam os mais velhos, fora motivado por vingança. Seu noivo, depois de desonrá-la com promessa de casamento, tinha abandonado-a depois de consumar o ato da desonra...

 

Esse rapaz trabalhava num navio a vapor da Companhia Pernambucana, que fazia porto no Aracati, como moço de convés. Sempre que seu navio aportava no Aracati, descia para terra e aqui construía amizades. Tendo conhecido então numa dessas ocasiões Anahí, moça fina e recatada, filha única de uma família abastada.

 

A promessa de um casamento, depois de um rápido namoro, era o sonho maior de qualquer moça daquela época que sonhava sair do Aracati - já então decadente economicamente- conhecer outros lugares, viver uma vida feliz e prazerosa ao lado do marido...

 

Ingênua, Anahí acreditou que seu sonho logo se tornaria realidade. Não imaginava que o apito da partida do vapor saindo do porto, seria o som da despedida para sempre. Imaginava que aquele apito, longo e estridente, fosse o silvo breve do retorno de Donato, como ele mesmo havia prometido: “No retorno do vapor para o sul vou levá-la comigo”...

 

Nunca houve retorno...

 

Durante muitos anos, Anahí esperou, em vão, que Donato retornasse. Todas as tardes, Anahí se dirigia ao cais na esperança de avistar o navio mercante da Companhia Pernambucana de Navegação que tinha levado Donato. Mesmo quando o rio Jaguaribe já bastante assoreado, não permitia mais a vinda dos navios até o cais da ribeira em Aracati, como antigamente, Anahí viajava embarcada ao Fortim, novo local de atracamento dos vapores que faziam o serviço de cabotagem pela costa brasileira.

 

Enlouquecida de saudade, cada vez mais, Anahí alimentava, mesmo com o passar dos anos, a esperança de ainda rever Donato e realizar seu sonho de amor.

 

O padecer do tempo e as aflições não lhe roubaram a beleza morena e cativante. Ficou então conhecida como a moça do cais, depois a mulher do porto, do trapiche...

 

Uma tarde esquecida, esquecida do tempo, contemplava a barra do Jaguaribe do alto da Pedra do Chapéu, quando foi abordada por um homem que se apresentou como mestre de um barco da Costeira, que fazia navegação de pequena cabotagem pela costa do Nordeste, indo a certas ocasiões, a alguns portos do sul do Brasil. Disse o mestre marinheiro, que já tinha lhe visto algumas vezes no cais e que conhecia sua história por ouvir dizer de alguns que frequentavam o cais do porto.

 

Anahí ouvia em silêncio, as palavras do homem do mar, que dizia, continuando sua conversa, admirar sua beleza morena e tristonha. Em silêncio permaneceu até que o mestre lhe fez a promessa de levá-la consigo na próxima estadia do barco no cais quando retornasse para o Sul.

 

Anahí, que até então havia permanecido em silêncio diante das palavras do mestre marinheiro, ao ouvir a proposta levantou os olhos que olhavam distante, e, encarando o pretendente, falou que lhe daria a resposta caso o moço do mar fosse até a sua casa naquela mesma noite antes de partir.

 

Uma longa e frenética noite de amor encerrou o jejum sexual de tantos anos. Anahí foi de uma entrega total àquele desconhecido que lhe fizera a proposta de levá-la no seu barco, quando esse retornasse para o sul e aportasse novamente no Aracati.

 

Ao amanhecer, o barco da Costeira não partiu. Seu mestre não retornou de terra aonde tinha ido, acompanhado de uma mulher desde à tarde do dia anterior.

 

Não foi difícil encontrar o paradeiro do mestre. As pessoas do cais o viram sair embarcado num bote a pano que fazia o trajeto do trapiche para o Aracati, quase ao cair da tarde com a mulher do porto.

 

Na travessa do Curtume, na casa onde vivia sozinha Anahí, foi encontrado numa rede com um punhal de madrepérola cravado no coração, onde se lia o nome de Donato em alto relevo no cabo, o corpo do mestre marinheiro. Anahí foi presa na cadeia pública de Aracati no terrível quarto 7, onde não havia ventilação nem a luz do sol entrava. Tendo em seu piso uma camada de sal grosso para que permanecesse sempre úmido e o ar fosse sempre pegajoso como numa masmorra.

 

Num baile de carnaval acontecido nos anos finais do Império, numa terça-feira, Baldomero, fidalgo moço de uma rica família aracatiense que fazia carreira na Marinha Mercante Brasileira, ao se debruçar na varanda principal do salão nobre da Casa da Câmara para contemplar a rua do Comércio iluminada pelos lampiões a gás, ainda acesos àquela hora da noite porque era carnaval, foi interpelado por uma bonita moça morena de olhar tristonho fantasiada de veneziana: “O cavalheiro não quer fazer parte do nosso cordão?” Não houve resposta. Baldomero deu-lhe o braço, e, a noite toda restante, dançaram pelo salão nobre da austera Casa da Câmara ao embalo das músicas carnavalescas executadas pela majestosa orquestra...

 

A madrugada era infinda. A moça conhecia todas as rotas de navegação mercante do Brasil. Conhecia cada porto. Sabia das Companhias de Navegação, dos vapores, dos navios e dos mares. Para aquele moço que não esperava encontrar alguém com uma conversa tão agradável, aquele baile de carnaval estava sendo inesquecível. Como uma senhorita tão bonita e instruída poderia ter permanecido em Aracati sem ter casado?

 

Quase ao final do baile, quando já não havia lampiões acesos e começava um pouco a clarear, a moça morena de olhar tristonho pediu licença ao moço fidalgo para se ausentar um pouco, que em breve voltaria...

 

Ao final do baile, debalde foram a espera e a busca do moço fidalgo pela moça que tanto o impressionara e que agora se tornara objetivo do seu interesse e quem sabe?! Por sua permanência mais alguns dias no Aracati, sua terra natal...

 

Passados os dias, permaneceu indagando a todos que estavam no baile, se não sabiam da moça que estivera com ele à noite quase toda a dançar e a conversar naquela terça-feira de carnaval. Ninguém tinha visto tal moça. Ninguém tinha lembrança de tal moça que tão forte impressão tinha causado ao moço fidalgo, que ansioso buscava encontrar aquela por quem tanto se interessara...

 

No último dia de sua estada em Aracati, foi levado por um amigo para uma visita ao prédio do Gabinete de Leitura Aracatiense, para que assistisse a uma reunião dos Romeiros do Porvir e pudesse apreciar a vasta biblioteca do Gabinete, assim como também sua formidável coleção de jornais antigos do Aracati, ali existente.

 

Depois de contemplar admirado, os volumes ricamente encadernados dos livros dos autores portugueses e franceses, Baldomero foi levado para a sala da hemeroteca onde lhe foram mostrados números raros de jornais publicados no Aracati, desde o surgimento do Clarim da Liberdade.

 

De repente, ao abrir o volume encadernado do jornal “O Jaguaribe,” Baldomero empalideceu: “É ela... É ela... Aqui está ela!!!!" Na primeira página do jornal estava estampado o clichê de Anahí com a manchete do seu crime... "Ela quem?” Indagou o amigo que o acompanhava na visita, ao Gabinete de Leitura Aracatiense. “A moça com quem estive no baile de carnaval da Casa da Câmara!!!!!” Não pode ser ela, meu amigo Baldomero. Essa moça já morreu há muitos anos. Há muito tempo. Foi uma assassina, confesso. Ela morreu na cadeia pública no quarto 7. Esse jornal que você tem nas mãos é do tempo do acontecido e conta sua história... Ela teve um noivo que a desonrou com promessa de casamento e depois a abandonou...

 

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Lido 791 vezes Última modificação em Segunda, 08 Fevereiro 2016 19:21
Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nascido no Aracati em 30 de novembro de 1946, foi o terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva. Viveu sua infância em Icapui onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta. Em 1957, ingressou no Grupo Escolar Barão de Aracati. Em 1974, casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e deste matrimônio nasceram os filhos Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira.

 

Em 1976 graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN. Atuou à frente do Instituto do Museu Jaguaribano como presidente, função que exerceu em duas diretorias (1976 1979/1982-1985). Foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996) período em que assumiu a pasta da Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.

 

A história e a memória da cidade e do povo aracatiense constituem objetos de seus estudos amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local em que colabora desde 1975. Em 2005 a crônica "O Amor do Palhaço", de sua autoria, foi adaptada para o cinema em um curta metragem (15") homônimo com direção de Armando Praça Neto,

 

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)

Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)

Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009) 

A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)

Fatos e Acontecimentos Marcantes da História do Aracati. (Inédito)

Aracati era assim (Inédito)

Notícias do Povo Aracatiense (Inédito)

 

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