Detalhe da Pintura Lovers Embrace - Detalhe da Pintura Lovers Embrace - Renata Brzozowska

O TANGO

Escrito por  José Jorge Pereira Sábado, 05 Novembro 2016 17:24

Gosto muito de viajar para Buenos Aires, já fomos até lá três vezes. Os motivos não faltam. A carne, o vinho, a arquitetura, os museus, a Feira de San Telmo, alfajores, Borges, Darin, mas não nego que o que mais me impele à capital portenha é o tango. Não saio da capital portenha sem assistir a uma apresentação de tango e nunca saio impune a qualquer uma delas. Vou às lágrimas se, de um bandoneón, notas passionais aflorarem, meu sangue esquenta, minhas pernas envergonhadamente dançam na cadeira, acompanhando cada passo dos dançarinos a bailar.

 

Para o escritor Jorge Luís Borges, o tango era “uma forma de caminhar pela vida”, ou como dizia o poeta Enrique Santos Discépolo, “um pensamento triste que pode ser dançado”.

 

Não conheço nenhuma dança de salão, em que a música tenha uma comunhão inevitável com a dança e que a parceria do casal seja tão vital. O tango tem algo de triste, é introvertido e introspectivo, ao contrário de nosso samba que é mais extrovertido. O tango tem um certo caráter fatalista, dramático, mas que vai além do lamento e da nostalgia de se chorar a perda do ser amado. É solene. Segundo o Ernesto Sábato, “somente um gringo pode fazer a palhaçada de aproveitar um tango para conversar e se divertir”. O portenho dança um tango para meditar em seu destino. Os passos da dança seguem um ritual, são elegantes e passionais, com uma sensualidade estonteante sem ser luxuriante, erótico, sem ser indecente. Enquanto os braços se postam solenemente, e o tronco elegantemente faz movimentos minimalistas, as pernas fazem malabarismos no chão, no ar e entre si. O par sempre elegantemente trajado. O homem sempre conduzindo a parceira, que o segue sem submissão, apenas conjurando a parceria. O homem é o pincel e a mulher é a tinta que dá cor a este quadro, um não faz sentido sem o outro. São cúmplices no trançar das pernas.

 

Enfim, o tango reflete a alma de nossos hermanos. Acho que a arte é uma forma do homem se desculpar com a natureza de ser o único ser vivo capaz de crueldade com os seus e com os de outras espécies. O tango é a maneira mais bonita que os argentinos encontraram para serem perdoados.

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Lido 479 vezes Última modificação em Sexta, 11 Novembro 2016 11:52
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