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Vida nas entrelinhas PDF Imprimir E-mail
Por Thiago Barros   
15 de outubro de 2009
ImageDocumentário do cearense Glauber Filho, selecionado pelo programa Doc.TV, do Ministério da Cultura, terá exibição hoje, sexta-feira, na Vila das Artes em Fortaleza. Linhas de Organdi fala sobre as vidas das rendeiras de Aracati

 

Há muito mais por entre as linhas que tecem as rendeiras de Aracati do que pode imaginar a nossa vã filosofia. Mas, se a intenção não for a de simplesmente retratar de forma fria e impessoal seu cotidiano, nem tampouco, por outro lado, a de erigir um estudo do ponto de vista antropológico acerca de seu trabalho, e, sim, a de elaborar uma narrativa viva, que mistura elementos reais e ficcionais para abordar os sonhos, as paixões e as decepções dessas mulheres, aí talvez se possa tirar mais proveito de um mergulho para dentro dessa trama.

Partindo da simbologia do Mito de Aracne, uma jovem tecelã que, segundo a tradição grega, desafiou a deusa Atena a tecer um bordado mais belo que o dela e, por isso, foi transformada em aranha, o documentário Linhas de Organdi, de Glauber Filho, aceita o desafio e procura adentrar nas almas repletas de resignação da última geração de labirinteiras do Córrego da Anica. O filme foi um dos projetos selecionados no início deste ano pelo IV DocTV, um programa nacional de fomento de documentários realizado pelo Ministério da Cultura (MinC), através da Secretaria do Audiovisual.

Como explica Glauber, foram ouvidos os depoimentos de cerca de dez rendeiras para a composição do documentário. No entanto, eles entraram na narrativa apenas como parte do off. Com todas essas informações, o diretor afirma que foi constituída uma única história, que corre ao lado do conteúdo do mito grego, na narração, no melhor estilo dos coros das tragédias gregas, de Leuda Bandeira. ``Todas essas mulheres relataram momentos em que desafiaram o destino. Como Aracne, elas foram punidas por isso``, argumenta o realizador, que fez essa aproximação. Segundo ele, o filme trata da alma feminina e de sonhos não alcançados. ``Elas falam que todos os seus segredos estão escondidos nas tramas. São desejos de liberdade, de ter tido um marido que as sustentasse, de ter vivido uma infância melhor``, diz.

No Córrego da Nica, a tradição das labirinteiras que trabalham o organdi não foi passada para a geração mais nova. Mas, antes dela, a vida da maioria das mulheres de lá, desde a mais tenra idade, era baseada na confecção de bordados. Um ofício que lhes deu o sustento, mas que lhes foi imposto por um costume que acabou tolhendo muitas de suas aspirações. ``É muito comum essas rendeiras terem problemas de vista quando vão ficando mais velhas e que, às vezes, vão piorando até elas ficarem cegas. Mas há também uma cegueira interna``, esclarece Glauber.

Apesar de ser de um gênero que se enquadra na categoria documental, Linhas de Organdi explora fluidamente os limites da realidade com a ficção. Todas as cenas são elaboradas, planejadas ficcionalmente, de modo que os atores da vida real representam possibilidades de acontecimentos cotidianos que ficaram apenas no campo dos desejos, como, por exemplo, quando em determinado momento uma jovem se veste com um vestido de noiva. Para explorar ainda mais o efeito, o cineasta usa de recursos de montagens e trilhas sonoras a fim de dar a impressão de falsa realidade e de criar a sensação de uma fábula. ``As ações montadas representam coisas que poderiam acontecer. As personagens estão lá de forma metafórica``, destaca.

Com estreia nacional prevista para março de 2010, na TV Cultura, Linhas de Organdi será exibido antecipadamente nesta sexta (14 de outubro), na Vila das Artes. Após a exibição, haverá ainda um bate-papo com o realizador e, em novembro, o filme irá para a comunidade de rendeiras de Aracati. O documentário foi realizado pela Trio Filmes, mesma produtora de Bezerra de Menezes, O Diário de Um Espírito, também de Glauber Filho e que alcançou grande repercussão nacional. A obra contou com a participação dos cineastas Isabela Veras, Joe Pimentel, Armando Praça, Danilo Carvalho, Ivo Lopes, Alexandre Veras e com a participação especial do músico Ítalo Almeida, na trilha sonora.

SERVIÇO
LINHAS DE ORGANDI - Exibição especial de lançamento do comentário de Glauber Filho. Amanhã, às 19h, na Vila das Artes (rua 24 de Maio, 1221, Centro). Grátis. Outras informações: 32521444.


fonte: Vida nas entrelinhas. Disponível em: http://www.noolhar.com/opovo/vidaearte/918490.html. Acessos em 15 de outubro de 2009.

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