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Poesia: exercício máximo da linguagem PDF Imprimir E-mail
Por Larissa Newton   
08 de janeiro de 2010
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R. Leontino Filho
O Jornal O Mossoroense, edição do dia 1 de novembro de 2009, publicou no Caderno Universo entrevista cedida pelo poeta Leontino Filho à jornalista Larissa Newton.
Leontino Filho é poeta aracatiense de cuja pena nasceram os livros Cidade Íntima (poesia) e seu mais recente trabalho A Geometria do Fragmento (ensaios).

A seguir transcreveremos trecho da citada entrevista.

Você publicou seu primeiro livro com 22 anos de idade. Descobriu cedo o talento para a poesia e as letras?

Leontino - Sim, principalmente como leitor. Muito cedo acabei me identificando com a poesia. Foi assim a partir dos 14, 15 anos. Também tem a ver com a educação. Estudei no Colégio Marista e lá sempre tinha rodas de poesia. Assim acabei me identificando com o texto poético.

Por que a predileção pela poesia?


Leontino - Eu acho que a poesia é um texto que trabalha mais com a acuidade. A poesia trabalha com a palavra na sua densidade maior. Existem romances que também fazem esse jogo com as palavras. Mas no caso da poesia, é o trabalho com a linguagem de carregar as palavras com a questão da vida, do sentimento... Então eu reputo à poesia o exercício máximo da linguagem. E esse exercício máximo da linguagem é um desafio pra gente. Quer dizer, retratar as questões da existência humana, da minha existência, através de um trabalho com a linguagem.

A linguagem liberta?

Leontino
- Ela pode lhe libertar, mas pelo que ela significa. Quer dizer, a linguagem é a significação da gente. Nós existimos através dessa significação da linguagem, seja ela de que tipo for: verbal, ou não verbal. A gente só é significante a partir da linguagem. Só nos reconhecemos através da linguagem. Mas ela aprisiona porque quando você não consegue se expressar, você se limita.

Quer dizer que a pobreza do vocabulário aprisiona e a riqueza favorece essa libertação.

Leontino
- É. A literatura não se faz com pobreza de linguagem. Não existe literatura pobre. Não é arte. Quando se diz que linguagem de fulano é pobre, no sentido de que ela é reduzida, deixa de ser arte, deixa de ser poesia, deixa de ser romance. Na poesia a linguagem é trabalhada no sentido de dar significação à existência da gente, à experiência da gente. É nesse sentido que eu falo.

Quando um poema termina de ser escrito, o que acontece?

Leontino - Ele passa a ter vida própria. Às vezes o próprio autor quando lê percebe coisas novas. O grande texto de uma forma geral permite várias leituras. Ele se pereniza através disso. Por que você lê um autor depois de 400, 500, mil anos? Porque ele se pereniza através do texto, das palavras. Por exemplo, Shakespeare, Cervantes. Então o texto não acaba no ponto final. Ele se amplia para o próprio autor e para o leitor.

Dos livros que você publicou, qual você gosta mais?

Leontino - Foi quando eu passei por uma fase de pulsão e fiquei vários dias, meses , escrevendo. É o livro Cidade Íntima. Mesmo assim foi uma coisa pensada, meditada. E foi a partir dele que eu norteei outros textos que eu tenho hoje. E tem também o Sagrações ao Meio, que foi um livro artesanal, que produzi com sobras de papel de uma gráfica lá de Pau dos Ferros. Este livro acabou saindo tão bem feito como um objeto de arte.

A maioria dos poetas sempre tem uma outra profissão...

Leontino - Você pode ser uma jornalista e a poesia tomar conta de você. Eu, por exemplo, sou professor. Porque não dá pra viver de poesia neste país. Os grandes poetas brasileiros, os escritores, tinham outra atividade. Eles procuravam atividades mais próximas a deles. Jornalismo por exemplo, professores. Drummond e Rubem Braga eram cronistas. Mário Quintana era tradutor. No meu caso, sou professor. Alguns dizem que atrapalha a poesia sendo professor, de tão enfronhado na teoria, essas coisas. E quando fazemos a obra isso tudo vem refletido. Claro que a obra, o formato, isso tudo reflete a vivência, a experiência que a gente tem. Não há como fugir disso, há uma necessidade de traduzir isso, a própria existência.

O poeta, o artista... eles se expõem. É preciso coragem para isso, de se expor a críticas, à opinião pública...

Leontino
- A coragem de mostrar a verdade. E essas verdades têm suas ambiguidades. Mas você precisa ser verdadeiro com você mesmo, de traduzir essa verdade, no sentido de ser um fingimento verdadeiro ou uma verdade mentirosa. Porque a arte é esse espelho, e que espelha várias verdades. Então a coragem é nesse aspecto, é a pulsão de se expor. Há escritores que passam a vida toda sem publicar um livro, um poema. O máximo que fizeram foi mostrar a um amigo, a um colega. Qual a necessidade que eu tenho de expor aquilo que eu penso para alguém, para a sociedade? É como eu falei: para ter uma significação, um sentido. Então essa coragem se dá pela necessidade da busca de uma verdade, se essa verdade realmente existisse. E a gente supõe que ela exista. E existem várias maneiras de se dizer alguma coisa. Ao se buscar essa exposição surge um ponto muito positivo que é a leitura, que pode ser totalmente diferente de uma pessoa para outra. Às vezes você escreve uma frase e não acha muito legal, chega alguém lê e se identifica. Isso é um prêmio! É ter uma ressonância, um “feed-back” de algo que você criou.

Falando em linguagem e mudando de assunto. Que caminhos você vê para melhorar o nível cultural do povo em geral?

Leontino - Já é redundante. Mas o único caminho é a leitura. Na verdade só existem duas grandes atividades na área da educação: ler e escrever. Ou seja, a partir do momento em que você reflete através da leitura, de certa forma ela lhe encaminha e facilita as outras coisas. Não existem fórmulas mágicas, as pessoas é que criam fórmulas mágicas só para não resolver. A leitura é que vai abrir novos caminhos. E isso não afeta apenas as pessoas analfabetas. Há uma gama de pessoas alfabetizadas, pós-graduadas e tudo mais que não fazem o exercício da leitura. Não leem romances, não leem poesias. Essas pessoas contribuem e muito para a falta do hábito da leitura, e para esse estado de coisas. Então, o que faz melhorar o nível cultural das pessoas? Só a massificação da leitura. A educação tem que estar destravada desses mecanismo de fórmulas mágicas, pois isso não existe. Por isso que nunca se resolve isso. E a solução é simples: massificar a leitura. Ou seja: quem é mais analfabeto? Quem não sabe ler, ou quem sabe ler e não lê? Na minha concepção é quem tem todas as informações e não lê. Que adianta isso? Continua aquela coisa bitolada, aquele conhecimento estancado.
 
Matéria publicada no jornal O Mossoroense do dia 1 de novembro de 2009. Caderno Universo.
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Comentários (2)add
Valores aracatienses
escrito por Marília , janeiro 08, 2010
Excelente a entrevista de Leontino Filho ao jornal local de Mossoró. Resta-nos apenas divulgar este talento que ainda faz-se desconhecido entre os seus.
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poesia, sonho ou realidade?
escrito por josé wellington da silva pinto , janeiro 28, 2010
Nunca fui um bom orador, e tinha uma necessidade enorme de retratar a realidade, de dizer o errado na sociedade, porém faltava voz... foi aí que aproveitei a minha facilidade de escrever e expus a minha voz na poesia,não sou um poeta profissional, mas consegui instigar pessoas a verem as mazelas da sociedade de uma forma poética.A construção da poesia é trabalho de ourives que vai lapidando aquela massa de palavras até conseguir uma forma definitiva.Vejo injustiças e me vem aquela vontade de falar,como não posso gritar nos quatro cantos,escrevo,pelo menos alcanço um canto...
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