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Ao longo do Rio Jaguaribe há uma imensidão de carnaubeiras nativas (nome científico: Copernicia cerifera Mart.). São vegetais que no período seco produzem mais cera e não sentem a falta de chuva, por causa de suas profundas raízes. Estudos técnicos realizados comprovaram que, quando a semente germina e a primeira folha chega ao tamanho de 10 cm, a raiz já está com 110 cm crescendo rumo ao centro da terra.

É um vegetal extremamente útil, pois é todo aproveitado: o caule é ótimo para construção de casas, sendo muito resistente a cupins e água. Só não pode receber água por muito tempo nas partes cortadas das pontas, mas, se estas forem protegidas, durarão séculos. De suas folhas, praticamente, se faz de tudo em artesanato, além de servir para cobertura de casas.

Esteiras para Navios

As folhas são recolhidas e cortadas no começo da palma, retirando o pecíolo (mais conhecido por talo). A seguir, são rasgadas ao longo de suas nervuras principais e deixadas em tiras. As folhas em tiras são aproveitadas para fazer esteiras, chapéus ou artigos os mais diversos (bolsas, tapetes, sacolas etc.).

Mulheres e crianças trabalham rápido na confecção de esteiras, a maioria no tamanho um metro por dois metros, que são vendidas nos armazéns do Aracati, onde se preparam fardos bem apertados. Poucos sabem que aqueles fardos de esteiras são vendidos para os fornecedores das empresas de navios. Sim! Os armadores brasileiros e estrangeiros descobriram uma forma baratíssima de separar os volumes que vão para diferentes destinos, sem perder espaço, usando esteiras marcadas com pincel para identificar as cargas e seus destinos.

Todavia, com a invenção e propagação do contêiner, os navios estão deixando de comprar as esteiras, que há muitas décadas foram o “quebra-galho” do camponês nas épocas de estio ou secas.

Chapéus de palha

Da palha da carnaubeira também se faz chapéu, hoje um artesanato muito rentável e evoluído em diversas regiões do Estado onde há carnaubeiras. Na região de Sobral, por exemplo, utilizam-se folhas de algumas palmáceas ou de gramíneas especiais misturadas à palha de carnaúba para variar o colorido e obter um produto de melhor apresentação e qualidade e, logicamente, mais caro.

Mas, voltando ao Aracati, vemos as famílias dos rurícolas inteligentemente utilizando o trabalho das mulheres e filhos na produção de chapéus que vendem nos armazéns da cidade.

Certos armazéns possuem máquinas para engomar os chapéus adquiridos. Seria melhor chamá-las de “máquinas de passar a ferro”. É uma geringonça com vapor d’água que umedece a palha antes de prensar o chapéu e o deixar bem durinho e bonito. Os armazéns que não possuem tal artefato e os vendem como receberam, o fazem por um preço menor.

Também os que são comercializados para o exterior não são “engomados”, pois vão servir de vasos para mudinhas de plantas, que serão posteriormente transplantadas para o lugar definitivo com o jarro (chapéu de palha) e tudo, o que diminui a mão de obra, fazendo com que o custo caia bastante.

A cera de carnaúba

Quem não conhece o processo de extração de cera de carnaúba e pega uma folha verde e, com a unha, raspa-a para conseguir algum pó, não consegue nada. Deduz, então, que não é da folha que se extrai o pó. Isto acontece porque na folha verde não há pó. A aspereza da folha verde é decorrente das incrustações minerais que, no período seco, ali vão sendo depositadas pelas células, a fim de criar uma camada impermeável que não permite ao vegetal perder água, mas permite a fotossíntese e as trocas gasosas.

A extração da palha da carnaúba

A colheita da folha de carnaubeira é realizada somente no período seco, ou seja, de novembro até o começo das chuvas, porque é esta a época em que as folhas estão mais cheias de incrustações (este é um termo técnico). Para colher as folhas das plantas altas, são contratados homens responsáveis e experientes, munidos de uma longa vara de bambu, em cuja extremidade está fixada uma pequena foice muito bem amolada.

O homem não pode beber bebida alcoólica durante o serviço, pois é muito perigoso e muitos já se acidentaram ou morreram no trabalho. É que, no momento em que a foice corta a folha — o corte é em bisel ou bico de gaita — quase sempre ela desce rápido montada na vara; o homem precisa dar uma pequena sacudida na vara para que a folha caia no solo. Se ele não sacudir a vara, em poucos segundos a folha chega à mão ou peito do operário.

Transportada para local previamente limpo e sem sombras, a palha verde é posta a secar ao sol. Com cinco ou seis dias de sol, as folhas ficam bem secas e as incrustações descoladas das folhas. Está chegada a hora de recolhê-las para serem batidas em lugar apropriado, onde o pó é separado da palha seca. O “lugar apropriado” nada mais é que uma sala comprida, com cerca de três metros de largura e chão cimentado, tendo pedaços de troncos fixados ao chão e com altura de 90 cm, como se fossem bancos onde são batidas as palhas. A sala é forrada, com esteira ou tecido, e, a cada três metros há um buraco na parede de um lado e do lado oposto também; os buracos são correspondentes. Pelo lado de fora, junto aos buracos, ficam montes de palhas a serem batidas. As mulheres, que ficam do lado de fora, jogam as palhas pelo buraco e, lá dentro, os batedores as apanham e, literalmente, surram o tronco com a palha, repetidas vezes. Ao bater a palha, a cera em pó (incrustações descoladas) salta e cai no chão e uma parte fica em suspensão no ar, antes de cair. Depois de bater a palha, jogam-na pelo lado oposto ao de entrada, por um buraco de cerca de quinze centímetros de diâmetro.

Imaginemos alguns homens numa sala escura, onde a luz só entra por uns poucos buracos na parede, muito calor e uma nuvem de pó no ar. Os homens trabalham neste inferno com um pano cobrindo o nariz, mas é preciso muita necessidade para sujeitar-se a um trabalho desse tipo.

A extração do pó da palha

O pó obtido das palhas é recolhido em sacos de malha fina, à semelhança dos usados para o transporte de farinha de trigo, e levado para um recipiente grande, que comporta uns cem quilos de cera. O recipiente é colocado sobre pedras com lenha e bastante fogo. Nesse tipo de fogão primitivo o pó derrete com o calor e quando todo o pó derreteu, aquele líquido, terrivelmente quente, é colocado em pequenos recipientes para esfriar e solidificar em porções fáceis de manusear, transportar e ensacar. Os recipientes mais usados são as latas vazias de doce, no tamanho de um quilo: todos concordam que são os mais baratos e os melhores. Depois, é só ensacar a cera sólida e não mais em pó.

O processo acima descrito vinha sendo utilizado em todo o Nordeste há mais de cem anos, até a década de 1950, quando foi inventada a máquina de extrair o pó da palha da carnaúba.

O mecânico inglês Mr. Thomas Pearce há muito radicado em Fortaleza, vendo o modo como se extraía a cera de carnaúba, resolveu estudar uma máquina que substituísse o homem batedor de palha. Depois de muitos experimentos, conseguiu colocar o seu invento no mercado.

Sua máquina constituía-se, basicamente, de um motor a diesel ou elétrico, um picador de palha seca, um ventilador e um enorme saco para receber o pó ventilado. Seu funcionamento: ao ser picada a palha, o pó salta da palha e o ventilador o sopra para dentro do grande saco, que fica inflado, deixando o ar sair devagar, mas não o pó, que fica retido. O saco inflado mede cinco a seis metros de comprimento, por dois metros de diâmetro. O ventilador, por sua vez, é projetado para soprar o pó e a palha, mas deixar cair os pedaços de palha que são muito mais pesados que o pó.

Foi uma revolução comercial! Não só porque a extração do pó tornou-se rápida, mas porque o custo operacional despencou drasticamente. Entretanto, todo o restante do processo continua o mesmo. Nada mais mudou.

Como vimos, a carnaubeira foi de grande valia nos meses de estio, quando o rurícola aracatiense não dispunha de outro meio de trabalho ou de renda.

 

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FERNANDES, Leônidas Cavalcante. Aracati: o que pouca gente sabe. Rio-São Paulo - Fortaleza: ABC Editora, 2006. p. 83-28.