Alto, abestalhado, malandro, cabeça fina e comprida, vestido sempre de fraque, alpercatas nos pés, selado como uma estaca empenada, constantemente falando só, eis o Aniceto.

Era o homem encarregado da limpeza pública. Era um funcionário público que desempenhava papel de importância no seio da comuna. 

Do ponto de vista psíquico, era um imbecil; mas limpava as ruas como ninguém.

Duas vezes por semana, às quartas-feiras e aos sábados, fazia o seu aparecimento nas ruas, puxando a carrocinha do lixo. Uma carrocinha muito bem-feita, pintada de verde, fechada aos lados, com uma abertura em cima.

Com um ciscador e uma pá, juntava o lixo em rumas que iam parar dentro da carrocinha.

Identificou-se tanto com a profissão que fazia dela a própria razão de ser de sua vida.

Sob o sol ou debaixo de chuva, aparecia sempre nos dias marcados. Era um limpador de ruas perfeito. Não compreendia a limpeza senão como uma coisa completa, onde não visse uma falha. Assim é que apanhava tudo: não deixava uma ponta de cigarro, uma garra de papel.

Fazia gosto vê-lo trabalhar. E, quando apanhava uma ruma de cisco e levava nas mãos para botar dentro da carroça, repetia sempre: “Vai tudo junto!”.

Nessa expressão ele botava toda a sua filosofia. Vai tudo junto: o lixo das ruas e o da casa dos ricos.

Sim, porque Aniceto era aproveitado pelos particulares para levar também o lixo das residências ou casas de negócios.

Não existia o uso, como hoje em Fortaleza e nas grandes cidades, de se deixar o lixo à porta da casa, dentro de uma lata.

Quando a carrocinha passava ou demorava em frente a uma casa, os moradores da vizinhança chamavam Aniceto, que ia buscar lá nos fundos o lixo existente, depositando-o na carroça com o invariável “vai tudo junto”...

Aniceto era imperturbável. O fraque, com o correr dos tempos, se transformava em verdadeira colcha de retalhos.

Era grotesco vê-lo com aquela indumentária, que outrora fora o traje solene de um aristocrata de Aracati, todo remendado com pedaços de fazenda de cores diferentes.

E o pior é que havia, costurados no fraque, aqui e ali, grandes pedaços de estopa... À frente, à guisa de botão, trazia amarrado um pedaço de corda...

Imaginem: um bruto fraque, tipo rabo de galo, remendado com estopa... Para Aniceto isso não tinha importância, pois se enquadrava no clássico conceito de que “vai tudo junto”.

Dissemos que Aniceto era imperturbável, querendo exprimir que nada neste mundo o alterava.

Não discutia cousa alguma, mas repetia sempre: “Vai tudo junto”. Os particulares lhe pagavam, invariavelmente, um tostão. Às vezes, o lixo era muito. Ele dava seis ou oito viagens do interior da casa para a carrocinha, e no fim lhe davam o mesmo tostão que ganharia se o lixo fosse menos. Botava no bolso, dizia “vai tudo junto” e se ia puxando a carroça como se fosse um burro.

Aí é que ele era imperturbável. Não sabemos se guardava o tostão, quando o trabalho era muito, sem nada dizer, como um protesto mudo contra a sociedade que o explorava, ou se, imbecil, não tinha noção do preço ou do valor do serviço que prestava.

Vegetava como um pária; mas prestava um grande serviço à comuna. Vivia do seu trabalho mal pago e não pesava à sociedade, porque não pedia esmolas. Foi, portanto, um cidadão útil, e creio que muito mais útil que outros homens que tinham seus nomes em placas de ruas...

Outros Anicetos tivesse o Aracati de hoje e as suas ruas seriam mais limpas.

Lembramo-nos sempre dele, porque não há quem se lembre de Aracati, de sua história, de seus homens, sem trazer à mente a figura de Aniceto.