A escolha da sede do Bispado em Limoeiro do Norte, deveu-se a alguns fatores: 1) Influência política; 2) Situação geográfica; 3) Poder econômico-financeiro; 4) Natureza cultural.
A influência política: O Dr. Felipe Santiago, de Limoeiro do Norte, tinha um grande prestígio político desde o tempo da LEC (Liga Eleitoral Católica), partido político de grande peso eleitoral no Estado, na década de 1930, e, como chefe político de prestígio e advogado de renome em Fortaleza, sua atuação influenciou a decisão final. Por outro lado, os inimigos políticos em Limoeiro do Norte, pelo bem da cidade, juntaram-se em um só bloco pelo interesse comum de conseguirem o bispado. Enquanto isso, os políticos aracatienses continuaram brigando entre si, para mostrar, cada um, mais serviço para depois tirar proveito em futuras eleições. Fizeram esforços isolados, o que enfraqueceu cada líder, desde os Costa Lima, os Felismino, os Figueiredo, os Valente, os Nogueira etc.
Situação geográfica: A BR-116, mesmo em piçarra, era uma via de acesso muito boa para os municípios vizinhos e importantes como Russas e Limoeiro do Norte, bem como para os então povoados importantes como Quixeré e Palhano. Aracati não tinha estradas de acesso. Na época da escolha, Aracati já estava em pleno processo de declínio econômico-financeiro. O acesso de Fortaleza para Aracati era feito pela BR-116 até Russas e de lá, sem estradas, os transportes (caminhões ou automóveis) faziam seu próprio caminho por entre os carnaubais até a Passagem de Pedras (hoje, Itaiçaba). Se o rio Jaguaribe estivesse seco atravessava-se o leito seco e seguia até o Aracati. Caso ainda estivesse água correndo no Jaguaribe, teria que seguir margeando o rio até o local onde se encontrava o “pontão” (um barco-chata) onde o caminhão ou carro subia para ser transportado para a outra margem, onde estava localizada a cidade.
O pontão era conduzido por quatro ou cinco homens, que o iam empurrando com longas varas de mangue.
E mais: se fosse na época das chuvas, o trecho Russas até Passagem de Pedras, que é todo um aluvião, se tornava uma pista de lama cheia de atoleiros. Era uma dificuldade medonha chegar ao Aracati, naqueles tempos das décadas de 1930 e 1940.
A bem da verdade, devo dizer, isso foi decorrente do relaxamento dos políticos aracatienses que nunca lutaram para que se construísse alguma via de acesso para outros municípios ou para a Capital. E nós, o que podemos pensar daqueles políticos que tiveram nas mãos o poder do Estado (ou da, então, Província) e nada fizeram? Não vamos falar somente do Presidente da Província do Ceará, como Costa Barros (Pedro José da Costa Barros), mas falemos também dos Vice-Presidentes mais recentes: Cel. Alexandrino (Alexandre Ferreira da Costa Lima), no começo do século XX, e o Cel. Alexanzito (Alexandre Matos Costa Lima), na década de 1930. Ninguém pressionou para que fosse feito um quilômetro de estrada, o que foi um enorme erro. Faltou visão desenvolvimentista aos líderes.
Quando a barra do rio Jaguaribe assoreou, a cidade de Aracati ficou ilhada com trilhas somente para carroças. Em suma, as lideranças políticas do Aracati – aqui incluídos todos os partidos - não tiveram visão de futuro. Parece até que foram educados para pensar no aqui e agora. Meu pai, amigo de Beni Carvalho, que governou o Estado por 6 meses depois da Ditadura de Getúlio, disse-me que o seu amigo Beni ao deixar o governo do Estado, destinou uma verba de Cr$ 200.000,00 (duzentos mil cruzeiros) para empiçarrar a estrada Aracati-Boqueirão. Que eu saiba, foi o único aracatiense a lembrar das estradas para o Aracati. Aproveito para elogiar, primeiramente o prefeito de Aracati, filho de Itapipoca, Dr. Antônio Perilo Teixeira, que deixou o trecho Aracati-Boqueirão de Césário, destocado e pronto para receber piçarra, em 1932. Também o deputado federal Ernesto Gurgel Valente, que lutou e conseguiu que a ponte sobre o rio Jaguaribe se tornasse uma realidade em 1959. Mas, o Bispo já morava em Limoeiro do Norte, há vinte anos...
Poder econômico-financeiro: A decisão de implantar um Bispado no Baixo Jaguaribe, ocorreu na década de 1930. Lembremos-nos de que o Cel. Alexanzito, na década de 1930, era o homem de maior poder financeiro da cidade e que tinha vultosa transação comercial com os Oliveira, os Chaves e os Santiago, de Limoeiro do Norte, e que, cada um destes, era quase tão rico quanto Alexanzito.
Quando foi decidida a ida do Bispado para Limoeiro do Norte, os inimigos políticos colocaram a culpa no Cel. Alexanzito. Esta a razão de, até hoje, quando se fala na ida do Bispado para Limoeiro, se não for algum parente dos Costa Lima, dizem logo que a culpa foi do Alexanzito, o que, na realidade é uma injustiça. Vejamos os fatos:
O Bispo Dom Manuel da Silva Gomes, atendendo às necessidades eclesiais e aos apelos dos interessados, resolveu criar um Bispado no Baixo Jaguaribe, mas para sua implantação seriam necessários cem contos de réis para as obras estruturais do bispado. Limoeiro do Norte rapidamente conseguiu juntar quase aquela importância. Por fim, conseguiram um empréstimo em Fortaleza, no Banco São José, para completar os cem contos de réis. Aí funcionaram as potências financeiras dos Oliveira, dos Chaves e dos Santiago, dando garantias ao Banco, além da forte contribuição financeira que cada um já havia dado.
No Aracati, os líderes políticos movimentaram o povo que deu até o que não podia dar e o Cel. Alexanzito entrou com uma forte contribuição, que, somando tudo, chegou ao total de oitenta contos de réis.
Quando Limoeiro foi o município escolhido, os críticos surgiram dizendo que Alexanzito era o culpado, porque poderia ter completado etc, etc. Será que a crítica tem fundamento? Analisemos.
Se você fosse o Alexanzito e houvesse estudado no Seminário para ser padre e o deixado no último ano para tomar conta da firma do seu pai que falecera, portanto, muito religioso, não lutaria por um bispado em sua cidade? Se você fosse um grande comerciante e visse o seu comércio minguar, principalmente por falta de estradas e da recessão mundial começada em 1929, daria uma fortuna como contribuição, sem retorno, para alguma entidade? Se você mantivesse um forte comércio com os Oliveira, os Santiago e os Chaves, de Limoeiro do Norte, os enfrentaria dando uma contribuição que poderia até prejudicar o seu capital de giro, além de provocar uma ruptura comercial com seus clientes? Alexanzito não era burro e nem louco. Era um homem correto, ético e responsável. Portanto, quem analisar as condições comerciais da época, não pode considerar Alexanzito culpado de nada.
Além do acima relatado, houve um fato que também contribuiu negativamente para o Aracati: houve uma reunião dos líderes locais com a hierarquia da Igreja, onde se encontrava entre outros, o meu amigo Monsenhor André Camurça. A reunião aconteceu na Igreja do Rosário em Aracati. Entre os líderes aracatienses estava o meu querido amigo Major Bruno (Bruno Porto da Silva Figueiredo), um dos maiores da Maçonaria local. Ao saber da exigência dos 100 contos de réis para construir o bispado, disse em alto e bom tom “A Igreja está é vendendo o Bispado!” e retirou-se da reunião. Houve um vexame inicial, mas passou logo e a reunião continuou. Ninguém me convence de que não ficou algum “ranço” ou antipatia na hierarquia da Igreja, por causa daquela frase.
Natureza cultural: Desde o domínio político dos Castro, na entrada do século 19, o Aracati tornou-se um exportador de pessoas cultas. Só havia escola primária na cidade. Quem podia, mandava o filho continuar os estudos em Fortaleza, Recife, Salvador, Rio de Janeiro ou no Exterior. Ninguém pensou em fundar um Ginásio sequer. Daí, membros de muitas famílias bem-sucedidas migrarem para Sobral, como os Castro, os Sabóia, os Albuquerque e outros.
Bastante tempo depois criaram o ginasial para mulheres e o Curso Normal, que formava mulheres como professoras primárias. Isto somente aconteceu porque o médico Dr. Eduardo Alves Dias, conseguiu com o Dom Manuel da Silva Gomes, Arcebispo de Fortaleza, que mandasse as religiosas da Congregação das Ursulinas para o recém-construído Colégio São José, resultado da luta do Dr. Eduardo. Três anos depois as irmãs Ursulinas foram substituídas pelas Irmãs de Caridade (Ordem de São Vicente de Paulo).
No Aracati, os líderes valorizavam acima de tudo o comércio, a indústria de tecido e a de palha.
Apesar das várias tipografias existentes no começo do século XX, serviam para impressão de jornais com fins políticos e raras revistas culturais. Assim, vimos as letras e a cultura, propriamente dita, serem pouco valorizadas pelos líderes, apesar dos estudantes criarem grêmios apoiados pelo povo e sem apoio dos Costa Lima, que mantinham a oligarquia viva.
Os jornais serviam, quase todos, para críticas políticas e muito pouco para crescimento cultural do povo.
Em tempo: o Bispado de Limoeiro do Norte, foi instalado em 1938, e setenta anos depois, ou seja, em 2009, já teve os seguintes Bispos:
1 - Dom Aureliano Matos;
2 - Dom José Freire Falcão;
3 - Dom Pompeu Bezerra Bessa;
4 - Dom Manuel Edmilson da Cruz;
5 -Dom José Haring[1], frade, que lá pontifica até hoje.
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Fernandes, Leônidas Cavalcante. Retalhos da História. Fortaleza: ABC Editora, 2009. p. 192-197
[1] Dom Frei José Haring (nascido Josef Häring) foi um bispo católico alemão radicado no Brasil, que atuou como o 5º bispo da Diocese de Limoeiro do Norte, no Ceará. Ele faleceu em 24 de dezembro de 2023, aos 83 anos de idade

