O aracatiense Francisco Leite Barbosa, mais conhecido por Pe. Leite, era de uma inteligência fora do comum e, como sacerdote, foi designado e assumiu a paróquia do imenso município de Lábrea, em pleno coração do Estado do Amazonas. Homem culto e trabalhador, logo percebeu que estava ilhado no meio daquela selva compacta, onde os rios eram as estradas.
Naquela última década do século XIX, observou que quase nada poderia fazer por seu rebanho cristão, se não agisse rápido. Assim acreditando, pediu ao Vaticano autorização para construir um barco-igreja motorizado e justificou o pedido de tal maneira que foi logo atendido.
Foi assim que o Pe. Leite pôde atender a uma grande população dispersa, há muito desejosa de casar, batizar os filhos e rezar numa igreja, além de conversar para saber as últimas notícias, melhor dizendo, ouvir qualquer novidade do mundo civilizado, mesmo atrasada, já que o padre recebia os seus jornais e revistas também atrasados, mas recebia. Era a hora que ele dispunha para evangelizar e aproveitava sempre que podia.
Mandou chamar os irmãos, o Miguel se interessou e foi. Miguel era o pai de Izaura, que nasceu em Lábrea e mais tarde casou-se com o Major Bruno.
Era o auge do Ciclo da Borracha, época em que as fábricas aperfeiçoavam os automóveis e aumentavam a produção de veículos de todos os tipos e, obviamente, de pneus. Época para todos enriquecerem. Para os que já tinham família financeiramente bem situada, como eles, foi ligeiro o aumento da riqueza.
O padre Leite, que não tinha família, tornou-se, talvez, o mais rico e foi passear na Inglaterra, levando vários sobrinhos. Lá, comprou uma fábrica completa de fio e tecelagem (foto abaixo), até a estrutura metálica da fábrica foi comprada. Por sinal, é bom que se registre que a estrutura era semelhante àquela que chegou, nessa mesma época, para o Theatro José de Alencar, em Fortaleza.

A indústria recebeu o nome de Fábrica de Tecidos Santa Thereza, talvez em homenagem à sua irmã Thereza. Foi inaugurada, segundo informações, no início de 1910 e dava emprego direto a mais de 200 pessoas. Décadas depois, mudou o nome para Cotonifício Leite Barbosa. A fábrica, dentre outros bens, possuía 252 teares e 7.200 fusos de fazer fios e sua produção diária era de 10.000 metros de tecido, afora os fios produzidos. Creio ter sido, na sua época, a maior indústria de fiação e tecelagem do Estado.
O padre nada quis para si, doando-a para seus irmãos Miguel e Dr. Leite (médico), que deveriam explorá-la. Poucos anos depois, o Miguel comprou a parte do irmão médico, que não desejava trocar a medicina pelo comércio.
O motor que acionava as máquinas da fábrica era enorme e tinha um só grande cilindro, mas eram utilizadas as duas cabeças do pistão, onde explodia o chamado gás pobre, ou melhor, gasogênio, gás produzido a partir do carvão vegetal. Esse motor tinha um volante, roda imensa, pesando 18 toneladas, que para ser transportado teve que ser desaparafusado e deixado em duas bandas, de nove toneladas cada.
Até hoje não consigo imaginar como aquelas duas peças, cada uma pesando nove toneladas e medindo cerca de três metros de diâmetro, no ano de 1909 desceram de um navio, no Rio Jaguaribe, sendo levadas para montagem na dita fábrica, lá perto da igreja matriz, distante cerca de 2 quilômetros de onde desembarcou. Esse volante servia para uniformizar a rotação do motor que fazia girar as polias, as quais, por sua vez, faziam trabalhar os teares e outras máquinas.
Embora não se saiba explicar o porquê, de sete em sete anos, em média, registra-se uma crise no setor de comercialização de tecidos e a fábrica do Aracati também enfrentou seus déficits periódicos. Mas, naquele tempo, não havia Ministério do Trabalho nem Sindicato e os homens tinham mais honra na palavra que os de hoje. A negociação entre empregados e patrão era feita cara a cara, sem juiz presente, valendo somente a palavra.
O Sr. Miguel Leite Barbosa, superintendente da empresa, nos períodos de crise reunia seus subordinados e falava mais ou menos o seguinte, segundo me contou meu avô, Reinaldo Cavalcante, então funcionário da fábrica:
— Pessoal, como vocês já sentiram, não estamos vendendo quase nada e os nossos armazéns estão quase cheios. É a crise no comércio. Pergunto a vocês: é melhor fechar a fábrica, por uns seis meses, ou baixar o ordenado de cada um e continuarmos estocando, até passar a crise? Quando começarmos a vender normalmente, voltarei a pagar o que vocês ganham hoje.
Todos aceitavam, tanta era a confiança naquele patrão, que sabiam correto e de palavra. Assim, saíam todos menos prejudicados da crise e a firma não ia à falência e nem parava a produção.
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Fernandes, Leônidas Cavalcante. Aracati: o que pouca gente sabe. Fortaleza: ABC Editora, 2006. p. 197-198

