Antigamente, o rio (Jaguaribe) sofria a influência das marés, dada a sua proximidade do mar e até cações eram vistos com a barbatana de fora, subindo da foz até Aracati, quando as marés de lua cheia subiam até Itaiçaba, passando ainda 2 léguas de Aracati, na direção do sertão, local antigamente conhecido como Passagem das Pedras, onde se pode atravessar o rio a vau, e onde poderia ser feita uma barragem para acabar com as cheias da cidade.

Hoje, com o açude de Orós, eles soltam água do açude o ano todo, para perenizar o rio e a influência das marés quase desapareceu, pois a água do rio não fica mais salgada na fazenda, como antigamente, mas doce o ano todo, inverno e verão, permitindo que o gado beba dela sem problema, prejudicando, todavia, as salinas ribeirinhas, que precisam é de água salgada. 

Outrora, no tempo das marés salgadas, fazia-se uma tapagem no rio com redes e apanhava-se grande quantidade de peixe, mormente o camurupim, que, além de excelente peixe, tem um tamanho descomunal, chegando a pesar mais de 30 quilos e fazia a alegria dos pescadores, além do sururu, marisco muito gostoso, que abundava nas coroas de areia do rio.

Eu mesmo pesquei muito sururu e a pesca era feita com um grande cesto de cipó, que se ia enchendo com areia e tudo e depois de separada a areia e convenientemente lavado o crustáceo, era posto em grande panela para ferver no fogo, até que a casca se abra, deixando extrair-se o marisco que é amarelo.

Preparado com leite de coco, constitui o sururu excelente prato, mas pode-se comê-lo apenas fervido, pois é bom demais.

Além do sururu, pescava-se também muito siri, para complementar as refeições diárias, como aconteceu certa vez com o encanador Salomão, que vivia de consertar bombas e que ao ser por mim surpreendido pescando no rio disse-me: “fui ao mercado e comprei carne e peixe, mas estou pescando uns siris para completar,” pois tinha mais de 15 filhos, e morava no Velame, bairro operário da cidade.

Mas, as figuras populares da minha infância eram várias.

Existia Cruel, especializado em limpar fossas e encher caixa d’água no braço, puxando as bombas até elevar a água ao 3º andar dos sobrados, abastecendo-os diariamente.

Havia ainda Sal Amoníaco, Lupicínio, Chimila, Cangalha, que era exímio engraxate e atendia a todos os passantes na rua do Comércio, esquina do sobrado do Barão.

Todos eram figuras muito populares no meu tempo de menino e acompanhavam a banda de música do Mestre Gomes, no desfile para a novena do Senhor do Bonfim, na igreja do mesmo nome, encarregando-se de soltar os foguetões, transportar as prendas arrematadas nos leilões realizados na porta da igreja, além de outros afazeres sempre necessários aos moradores da cidade.

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GUIMARÃES, Antônio da Rocha. Memórias de Antônio da Rocha Guimarães. Rio de Janeiro: ZN-Papelaria e Gráfica, 1987. p. 24-25.