Terminada a cheia (1924), voltamos à cidade de Aracati, para recomeçar as aulas da escola da d. Adelaide, onde nos alfabetizamos.
Aí, então, morreu o meu pai, pois sendo comerciante e tendo loja de tecidos, antes que a cidade fosse limpa, começou a trabalhar logo na loja, retirando as peças de fazenda que ficaram molhadas pela água da cheia, porque tendo ficado sobre um grande balcão, as extremidades das peças de tecidos caíam e foram atingidas pela água.
Todas as peças de fazenda eram levadas para casa e passadas a ferro, para o aproveitamento do tecido e foi então que meu pai apanhou tifo e veio a falecer com 40 anos de idade.
O seu corpo foi velado na igreja do Bonfim, perto da nossa casa, onde minha mãe tinha acabado de dar à luz à minha irmã Helena, no dia 17 de julho e ele morreu no dia 23, no ano de 1924.
Quem deu a notícia da sua morte à minha mãe, foi o dr. Eduardo Alves Dias, nosso médico, que assim expressou-se:
D. Anália, venho dar-lhe grave notícia, Joaquim não existe mais. Minha mãe conta que sentiu um calafrio, como se fosse morrer, diante da fala do dr. Eduardo, mas era o irremediável. Estava viúva com 29 anos de idade e com 5 filhos para criar.
A sorte é que meu avô estava vivo e ajudou muito a minha mãe, que só sentiu realmente a viuvez, depois da sua morte ocorrida no ano de 1929, quando estávamos já internos no Colégio dos Jesuítas de Baturité, onde fiz o curso ginasial.
Depois de terminada a alfabetização na escola da d. Adelaide, passamos para o colégio do dr. Moreira de Souza, para fazer o curso primário. Aí, tínhamos aulas todas as tardes, após o almoço, e ficaram famosas as bandejas de merenda que minha mãe enviava para o colégio todas as tardes.
Eram frutas, biscoitos, bolos e torradas, tudo devidamente coberto com toalha de linho branco e que deixava água na boca dos nossos colegas, quando a bandeja era descoberta.
Uma vez, tive uma grande dor de barriga no colégio e não consegui chegar limpo em casa, pois borrei-me pelo caminho. Outra vez, derramei o tinteiro na carteira do colégio e na minha roupa, o que me obrigou a voltar mais cedo para casa.
Naquela época, se usava tinteiro com tinta e caneta com pena de metal descartável, dourada ou prateada e que antes de ser introduzida no tinteiro, era molhada na boca, para ficar macia ao escrever. Usava-se muito tinta roxa, que não era fácil de retirar a mancha, quando ocorria um vazamento ou derramamento.
Aos sábados, havia sabatina e aprendia-se a tabuada pelo método da palmatória, pois dizia-se que "peia não é santo mas faz milagre".
Quando voltávamos do colégio, íamos brincar na calçada com os vizinhos, de preferência com a Railda e o Olavo, filhos do farmacêutico João Adolpho e d. Dulce, que nos ensinavam a brincar de "anel", três, três, passará, derradeiro ficará", cadê o grilo e outras.
Aos sábados e domingos, íamos soltar papagaio na Praça dos Prazeres, usando no rabo da arraia pedaços de vidro, para poder derrubar o papagaio alheio, cortando a linha com os cacos presos ao rabo da pipa.
Brincávamos também de soltar pião feito pelo marceneiro Ludgero, de madeira de aroeira, com ponta de aço.
A ponta de aço era feita, para partir o pião alheio, quando conseguíamos acertar com o nosso o adversário. Essas eram as brincadeiras da nossa infância na cidade, quando não íamos passar o dia na Fazenda com o nosso avô, atravessando o rio na canoa do Joaquim Bezerra, que servia toda a família e era muito nosso amigo. Depois do Joaquim, veio para a bateira o seu filho Antônio Bezerra, conhecido por “amigo”, visto que atravessava muita gente de graça.
Certa ocasião em que estive no Ceará, trouxe de lá a Leninha, filha do Antônio e neta do Joaquim, que morou conosco 17 anos, até casar, que era também filha da nossa babá Anginha, mulher de Antônio.
Gostávamos muito de montar nos carneiros e uma vez, quando voltávamos da Fazenda, meu irmão José vinha montado em um, quando puxei o seu rabo e José caiu quebrando o braço. Acontece que na queda, José deslocou também o quadril, mas ninguém notou o fato e só tratou do braço. O resultado é que ele ficou manco, puxando até hoje de uma perna, por causa dessa brincadeira de mau gosto.
Gostávamos muito de jogar futebol e, para isso, bastava uma bola de pano, feita com uma meia de mamãe cheia de trapos. Era nossa companheira de pelada a Maria Ney a nossa vizinha Maria Ney, filha do telegrafista, sr. Ney, aquele mesmo que recebeu, certa vez, um telegrama do bandido Lampião, avisando que iria invadir a cidade de Aracati.
A população ficou apavorada e todos em polvorosa colocaram barricadas de fardos de lã, na ponta da rua do Comércio onde morávamos, para defender a cidade. Lampião, no entanto, preferiu atacar Mossoró, pois Aracati pertencia ao Estado do Ceará, terra do seu padrinho Cícero do Juazeiro.
Maria Ney pulava o muro do nosso sobrado e vinha jogar pelada conosco, no nosso quintal, manifestando-se, assim, precursora do atual futebol feminino, naqueles idos de 1928 a 1929, quando fomos internos no colégio dos Jesuítas de Baturité, próximo à Guaramiranga, clima adorável.
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GUIMARÃES, Antônio da Rocha. Memórias de Antônio da Rocha Guimarães. Rio de Janeiro: ZN-Papelaria e Gráfica, 1987. p. 14-16.

