A obra destaque integra a série Entidades e Ferramentas (2023), do artista cearense Gérson Ipirajá, nome que se destaca no cenário da arte contemporânea brasileira por sua poética visual singular, profundamente enraizada na cultura e na ancestralidade de seu povo. Em uma paleta de cores terrosas, que evocam a terra e a ancestralidade, Gérson nos transporta para um universo simbólico onde o profano e o sagrado se entrelaçam.
A obra, um acrílico sobre tela de 100 x 100 cm, impacta pela força de sua composição: duas faces negras, quase gêmeas em sua beleza serena, dividem o espaço com uma figura central que remete a um machado estilizado. Como em um espelho mágico, a obra revela a profunda conexão de Ipirajá com suas raízes. O artista afirma que sua “raiz imagética” bebe da fonte da cultura dos povos originários do Brasil e afro-brasileira, evocando a pintura corporal, os objetos rituais, as armas e as ferramentas — elementos que transcendem sua função utilitária para se tornarem símbolos de poder, resistência e identidade.
Observe como a força telúrica do machado, ferramenta primeva de trabalho e sobrevivência, se transforma no eixo central da composição. A simetria da obra, reforçada pela repetição de elementos geométricos, remete à busca por equilíbrio e harmonia, enquanto as cores quentes, como o amarelo ocre e a terracota, evocam a terra, a ancestralidade e a força da natureza. As faces, em sua serenidade enigmática, parecem observar o espectador do fundo da tela, convidando-o a adentrar esse universo simbólico e a desvendar seus mistérios.
A justaposição dos elementos na tela constrói um sistema semiótico rico em significado. As faces negras, em sua frontalidade, chamam à memória a matriz cultural afro-brasileira, enquanto o machado, ferramenta de trabalho e poder, impõe-se como signo de força e resistência. O contorno vermelho que delimita as faces, além de destacar sua presença imponente, pode ser lido como uma alusão à herança de povos originários presente na pintura corporal ritualística. O olhar atento das faces, direcionado ao observador, estabelece um contato direto com essa força primeva, convidando à reflexão sobre a história, a identidade e a resistência dos povos que ajudaram a construir a cultura brasileira.
As formas pontiagudas que circundam a obra, como pontas de lanças dispostas em formação defensiva, criam uma atmosfera de força e alerta, delimitando um espaço sagrado que se abre para o diálogo com os saberes tradicionais. As setas, presentes em diferentes camadas da composição, reforçam essa ideia de movimento e direcionamento. Atrás das máscaras, apontam para o alto, sugerindo ascensão espiritual e conexão com o cosmo. As setas duplas, presentes na parte inferior da obra, podem ser interpretadas como portais ou caminhos que se abrem para outras dimensões, reforçando a ideia de interseção entre o mundo material e o espiritual.
A seta dupla em tons de verde oliva e pigmentos amarelos, que se sobrepõe às máscaras, assume um caráter ainda mais simbólico, evocando a força da natureza e a ancestralidade presente na cultura de povos originários, dialogando com a força telúrica do machado.
A série Entidades e Ferramentas, da qual esta obra faz parte, é um convite à reflexão sobre nossa própria história e ancestralidade. Por meio de sua arte, Gérson Ipirajá nos instiga a olhar para o passado, não com nostalgia, mas como forma de ressignificar o presente e construir um futuro mais justo e igualitário.


