Nasci e me criei com uma liberdade rara, dessas que hoje parecem invenção. Meus pais não me proibiam quase nada, e talvez por isso eu tenha aprendido cedo a andar sozinho. Circulava solto pelos quatro cantos de Aracati, levado pela vontade própria, como pluma obediente apenas ao vento que a empurra até pousar onde se sente bem. Foi um aprendizado silencioso — e foi bom. 

Assim conheci a cidade inteira: sua gente e seus gestos, suas ruas largas e becos estreitos, suas igrejas, seus bairros, seus acidentes naturais, suas praias, os braços generosos do velho Rio Jaguaribe, essa espinha dorsal que sustenta a memória e a vida do nosso município. Aracati não foi apenas cenário: foi mestra.

Talvez por isso eu nunca tenha sido alguém medroso. Convivi com o medo, desses que saltam; tenho medo, sim, daqueles profundos, esses que crescem conosco: a solidão, o abandono, a velhice — essa que, às vezes, tem cheiro de chicote no ar.

Quando menino, tive poucos amigos. Muitos conhecidos, é verdade, mas amigos mesmo, poucos. Com o tempo, aprendi que amizade não obedece a rótulos fixos. Às vezes, quem chamamos de amigos se torna apenas companhia, e quem era só companhia acaba ganhando o lugar de amigos. A vida tem dessas trocas silenciosas: a decepção e a alegria mudam de endereço.

Foi ainda menino que conheci um homem chamado Bastim. Morava na Infunca, bairro emblemático e poético de Aracati. Conhecíamo-nos apenas de vista, sem aproximação, sem conversa. Nem carne nem peixe — como diziam os antigos. Nem fedia nem cheirava.

Depois, o destino — esse bicho que não solicita licença — me arrancou da cidade. O tempo correu ligeiro, levantando poeira, fazendo curvas, trazendo aragem e esquecimento. Até que, um dia, o acaso me colocou frente a frente com Bastim. Ele já avançado nos anos; eu, caminhando para lá. Nos abraçamos com uma fraternidade inexplicável, dessas que não solicitam justificativa. Conversamos por poucos minutos e nos despedimos. Eu estava no bar de João Luís Ponciano.

Anos mais tarde, no mesmo bar, Bastim passou e acenou. Fui ao seu encontro. Cumprimentamo-nos com alegria, como se fôssemos amigos de longa data. Era uma manhã ensolarada de um sábado indeciso. E foi ali que veio a surpresa: Bastim me convidou para ir à sua casa. Disse apenas que queria minha companhia. Não explicou mais nada. E eu aceitei.

Fui acompanhado de um rapaz chamado Assum, exímio tocador de violão. Bastim e sua família nos receberam como quem abre a porta da alma. A casa cheirava a alegria, a harmonia, a verdade simples. Houve um banquete à maneira deles — e perfeitamente ao meu gosto: cerveja gelada, camarão, lagosta, tira-gostos e uma infinidade de sabores da culinária aracatiense.

Bastim cantou. Bastim contou histórias. Falou do seu Flamenguinho, time de futebol amador e bloco carnavalesco que carregava no nome e no coração. A cerveja me deixou tonto; mais tonto fiquei da alegria e da emoção que me foram oferecidas sem economia.

Naquele dia, aprendi — tarde, mas ainda em tempo — que a amizade é invisível, imprevisível e nasce sem solicitar explicação. Às vezes, ela não vem na infância, nem na juventude. Vem quando quer. E quando vem, vem inteira.

Foi a última vez que vi meu amigo Bastim. E talvez por isso essa tenha sido, sem dúvida, a homenagem de que eu mais gostei.

Fortaleza, 30 de junho de 2026

José Nilton Fernandes