Durante muitos anos, ao cair da tarde, dois amigos colocavam suas cadeiras na calçada da Rua Santos Dumont, em Aracati.
Chamavam-se Armando e Nonato.
Segundo Ananias Bernardo, tinham praticamente a mesma idade. Talvez por isso houvessem envelhecido juntos, como duas árvores plantadas lado a lado, castigadas pelos mesmos ventos e aquecidas pelo mesmo sol.
Aquela reunião começava sempre no final da tarde, quando o calor diminuía, as sombras se alongavam sobre a rua e as pessoas procuravam as calçadas para tomar a fresca.
Armando e Nonato conversavam sobre tudo: política, futebol, doenças, acontecimentos da cidade e histórias de um tempo que parecia cada vez mais distante. Divergiam algumas vezes, elevavam a voz, batiam o pé, mas nunca permitiam que uma discussão sobrevivesse ao anoitecer.
No dia seguinte, lá estavam novamente as duas cadeiras, uma ao lado da outra.
A amizade começara nos primeiros anos da década de 1940 e se prolongara até 1951, quando Armando faleceu.
Naquela tarde, pela primeira vez em muitos anos, nenhuma cadeira foi colocada na calçada.
Nonato emudeceu.
Durante meses, quase não saiu do quarto. Recusava visitas, falava apenas o necessário e permanecia longas horas sentado junto à janela. A família insistia para que reagisse, voltasse à rua e retomasse os antigos hábitos.
— A vida continua, papai — dizia a filha.
Nonato não respondia.
Sabia que a vida continuava. O que ninguém parecia compreender era que, para ele, continuava faltando uma parte dela.
A calçada permanecia no mesmo lugar. A rua conservava seu movimento. As pessoas passavam, cumprimentavam-se e conversavam. Apenas Armando não aparecia mais.
Após muita insistência da família, Nonato resolveu finalmente sair do quarto.
Tomou banho, barbeou-se e vestiu uma de suas melhores roupas. Penteou cuidadosamente os cabelos, calçou os sapatos e, quando o sol começou a baixar, caminhou até a calçada.
Levava duas cadeiras.
Colocou-as no mesmo lugar de antigamente, uma ao lado da outra. Sentou-se em uma delas e deixou a outra vazia.
A família observou a cena com preocupação. Alguns chegaram a desconfiar de que a dor lhe houvesse perturbado o juízo. Entretanto, Nonato mostrava-se lúcido, equilibrado e com uma disposição física capaz de causar inveja a homens mais jovens.
Todas as tardes, repetia o mesmo ritual.
Arrumava-se com esmero, levava ambas as cadeiras para a calçada e deixava uma delas reservada ao amigo que não voltaria.
Às vezes, falava sozinho. Gesticulava, balançava a cabeça, contava algum caso e, de repente, soltava uma de suas espalhafatosas gargalhadas. Para quem passava, parecia conversar com o vazio. Para Nonato, entretanto, Armando continuava ali, ocupando o lugar que a morte esvaziara, mas que a memória jamais permitiria que outro homem ocupasse.
Certa noite, um menino de aproximadamente dez anos, morador da vizinhança, criou coragem e perguntou:
— Seu Nonato, para quem é essa cadeira?
O velho olhou para o assento vazio, esboçou um sorriso e respondeu com fingida severidade:
— Menino, você ainda não aprendeu que criança não deve se intrometer em conversa de adultos?
O garoto afastou-se sem compreender. Nonato virou-se novamente para a cadeira e continuou a conversa interrompida.
A filha, cada vez mais preocupada, decidiu enfrentá-lo:
— Papai, precisamos pôr um fim nisso. O senhor fica conversando com uma cadeira vazia. As pessoas vão pensar que enlouqueceu.
Nonato permaneceu em silêncio por alguns instantes. Depois, com a serenidade de quem havia sofrido o bastante para conhecer certos mistérios da vida, respondeu:
— Minha filha, os cães demonstram amizade abanando o rabo quando encontram alguém de quem gostam. Nós, seres humanos, devemos demonstrá-la de uma maneira mais elevada: guardando nossos amigos na memória.
Fez uma pausa e pousou a mão sobre o encosto da cadeira vazia.
— Armando faleceu, eu sei. Não perdi o juízo nem ignoro que ele está debaixo da terra. Mas a morte levou o seu corpo, não os anos que vivemos juntos. Não levou nossas conversas, nossas divergências, nossas risadas nem o silêncio que partilhávamos quando já não havia mais nada para dizer.
A filha baixou os olhos, comovida.
Nonato concluiu:
— Enquanto eu colocar esta cadeira ao meu lado, ele continuará tendo um lugar em minha vida. E, enquanto converso com ele, nenhum de nós está inteiramente sozinho.
A partir daquele dia, a família deixou de repreendê-lo.
Todas as tardes, quando as sombras se estendiam sobre a Rua Santos Dumont, Nonato voltava à calçada e colocava as duas cadeiras no lugar de sempre. Sentava-se em uma delas e, na outra, acomodava a saudade.
Os anos passaram.
Um dia, a calçada amanheceu sem nenhuma cadeira.
Nonato partira para encontrar o velho companheiro.
Talvez, em algum lugar que desconhecemos, Armando já estivesse à sua espera, ao cair da tarde, com duas cadeiras colocadas lado a lado.
Porque existem amizades que o tempo enfraquece, a distância desfaz e o interesse destrói.
Mas existem outras — raras e verdadeiras — que nem mesmo a morte consegue separar.
Fortaleza, 08 de setembro de 2026

