Nossa querida amiga Tia Nilda, hoje esbanjando saúde e boniteza, num determinado tempo de sua vida passou por uma crise existencial que a levou a uma depressão.

Acreditava Tia Nilda que estava sofrendo de uma doença muito grave que a levaria à morte. Todos os sintomas de doença que existem, Tia Nilda sentia. Desde uma forte dor de cabeça, passando por palpitações cardíacas com indisposição estomacal, até mesmo artrose e unha encravada. Seu prontuário médico era uma verdadeira enciclopédia... 

O corpo todo estava doente na sua engenhosa imaginação.

Esgotados todos os recursos da medicina local, foi então Tia Nilda a Fortaleza para se submeter a todos os exames precisos e necessários. E foram tantos, que se fazia obrigatória uma mochila das grandes para carregar e acomodar todos os exames de imagem, de sangue, de ultrassonografia, de imunologia, de audiometria, de albumina etc.

Todos os médicos consultados diziam, depois de ver os exames, que Tia Nilda não tinha nada... Mas Tia Nilda não se conformava. Pensou numa ocasião em procurar um centro espírita, um terreiro de macumba, porém, seu pavoroso medo de assombração a impediu.

Desanimada, recolhida em sua casa, sem nenhuma melhora, Tia Nilda já estava conformada com o desfecho final de sua vida, esperando a morte chegar, quando um belo dia recebeu a visita de uma amiga que a encheu de esperanças:

— Tia Nilda, mulher, largue disso, saia desse marasmo, que desânimo é esse!? Por que você não vai se consultar com um médico que chegou agora no F. Sesp? Dizem que ele é uma maravilha, só falta fazer milagre...

— Mulher, tou tão descrente de médico, já fui a tantos médicos e eles não descobrem o que eu tenho. Esse, na certa, vai ser mais um... A mesma desilusão.

— Não custa nada tu tentar, Tia Nilda. Vai lá, quem sabe ele não adivinha, não acerta tua doença?

Tia Nilda se aprontou toda, fez uma maquiagem caprichada com batom, blush, rímel, base, sombra, pó compacto, delineador e filtro solar e partiu com o calhamaço de exames para sua esperançosa consulta no F. Sesp.

Ao entrar no consultório médico, Tia Nilda se deparou com um homem alto, de pele morena, cabelos pintados para aparentar ser mais moço, sentado atrás de uma mesinha branca, usando óculos meia-lua bem na ponta do nariz, com um jaleco branco por cima da roupa.

Identificado o doutor, Tia Nilda não se fez de rogada, foi direto ao assunto da doença que tanto a afligia:

— Doutor, tenho andado por tudo quanto é hospital e consultório médico à procura da cura para essa minha doença, de modo que já estou desanimada e conformada, e nenhum doutor me diz o que eu tenho de verdade! Veja todos esses exames que já fiz e até agora nada. — disse, colocando sobre a mesa do médico o arsenal de exames que cobriu todo o tampo da mesa.

O médico, sem olhar pra Tia Nilda, começou a analisar cada exame detalhadamente. Depois de quase uma hora lendo os exames, ajeitou os óculos meia-lua bem pra ponta do nariz e, fixando o olhar profundamente bem dentro dos olhos de Tia Nilda, falou com uma voz grave e cavernosa:

— Eu já sei o que a senhora tem.

— Sabe, doutor?! — indagou ansiosa Tia Nilda, cheia de esperança...

— Sei. E é grave.

— Me diga logo, doutor, pode dizer que eu estou preparada.

— Sua doença é feiura... Feiura...

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PEREIRA FILHO, Antero. Assim me contaram. — Fortaleza: 2015. p. 193-195.