O maior sonho de Dª Raimunda era possuir uma geladeira. Não precisava ser uma daquelas que tinha na Macavi; bastava uma pequena, igual à que havia visto na Dimola ainda no tempo de Raimundo. Mas como comprar? Se o dinheiro da aposentadoria mal dava para comer, e nas lojas exigiam uma renda maior do que o cartão do INSS mostrava, o sonho parecia condenado a continuar sendo apenas isso: sonho.
Foi então que, num desses dias de conversa na calçada, uma amiga de Dª Raimunda, sabendo da sua vontade antiga, apresentou-lhe Chico da Goma — segundo ela, o homem certo para transformar desejo em realidade.
Chico da Goma, de fato, tinha se especializado numa profissão pouco convencional: Comprador Consignado. Comprava com seu cartão de crédito, que tinha limite alto, para terceiros, desde que estes lhe entregassem o cartão do INSS com a senha das máquinas dos bancos, ou outro documento que permitisse sacar o dinheiro no fim do mês, na data do pagamento — levando, naturalmente, o seu percentual.
Acertadas as condições com Dª Raimunda, lá foi Chico da Goma, tomando a bicicleta e munido do seu cartão “Comprador”, direto para a loja Leleo Móveis. Em seu próprio nome, comprou a tão sonhada geladeira da Dª Raimunda.
A chegada da geladeira à casa foi uma festa. Era a realização de um sonho finalmente concretizado. Agora sim, dava para aproveitar tudo o que uma geladeira podia proporcionar dentro de uma casa: água geladinha, frutas e verduras conservadas, alimentos guardados no congelador à espera de serem digeridos no dia que bem quisesse, sem a preocupação de salgar nem de estragar.
Mas o que era para ser só prazer começou a virar drama logo no pagamento da primeira prestação. O que sobrava depois dela não permitia a Dª Raimunda comprar quase nada; e, para piorar, a conta de energia subiu mais do que o esperado por causa da geladeira.
Aflita, Dª Raimunda procurou sua melhor amiga e contou a situação. A geladeira estava servindo apenas para gelar água, pois nada mais podia comprar para botar dentro.
— Dª Raimunda, o jeito é alugar o espaço da geladeira pra quem precisar — sugeriu a amiga.
— Como? — indagou Dª Raimunda, já interessada.
— Assim: a maior parte dos vizinhos aqui no bairro não tem geladeira, mas são doidos pra beber água gelada. A senhora pode alugar um espaço pra eles botarem umas garrafas de água. Outros compram frango barato na promoção do Super Aracati do seu Adonias, mas não têm onde conservar no gelo. A senhora podia alugar pra botarem os frangos no congelador. E assim por diante. Outro dia mesmo, Margarida matou um porco no quintal e tiveram que comer o bicho num dia só, porque não tinha onde deixar a carne. Foi porco do café até o jantar...
O conselho era a saída que lhe faltava. Dª Raimunda anunciou no serviço de divulgação ambulante de Lamparina Júnior o aluguel da sua geladeira. E não é que foi um tremendo sucesso? A aceitação dos vizinhos foi unânime, apesar de alguns atrasarem o pagamento. No fundo do coração, Dª Raimunda estava feliz por permanecer com sua geladeira — o objeto dos seus sonhos.
De vez em quando, Chico da Goma passava na casa de Dª Raimunda e comentava:
— Faturando alto, num é, Dª Raimunda? Às minhas custas!!! Às minhas custas!!!


