Consumia-se Roberto pela culpa. Anos se passavam e a memória daqueles momentos permanecia a atormentá-lo. Tantos anos de separação lhe eram uma verdadeira eternidade. Sem notícias, apenas recados. Sem beijos, apenas lamentos e um frio na barriga que inapelavelmente transformava-se em sudorese.
Um final de semana na Praia da Pipa, jantando a meia luz, de frente para o mar. Em Mundaú, ambos se banharam na areia acariciando os corpos seminus. Num show da Marisa Monte o banho foi de chuva, como choveu junto com suor e cerveja[8] na Rua Grande no Carnaval de Aracati, quando se conheceram.
Em Olinda, aproveitaram outros carnavais, ela sempre vestida de dourado, admirada pelo povo[9], ele de pirata. Estas viagens sempre terminavam em briga por detestar aquela prima dela, uma vadia, nítida má influência, aquela dona. Para ambos.
Em Jeri, ela sofreu com as muriçocas, numa época em que havia hora certa para as luzes desligarem e o céu estrelado reaparecer. Aliás, hoje com seu jaleco, recorda-se que fora naquela data que vira o céu iluminado naturalmente pela última vez.
No adeus, mandou um buquê lindo, com um breve cartão: “sempre, sempre você”. Ela educadamente agradeceu. E se despediram num último beijo na ponte metálica. Para não mais.
Naqueles dezembros, esquecia-se dos compromissos no hospital em que fazia residência médica e se misturava aos demais entre violões, garrafas e gemidos. Ela sempre ao lado, aprendera a sorver o aroma das noites praianas. E foram muitas praias.
O fim foi repentino. Um breve jamais. Sem perdão. Aquilo o atormentou amargamente. Um grande amor não poderia se acabar assim[10], apelaria um sem-número de vezes à pieguice romântica do cancioneiro popular. Sem sucesso. Nara preferiria Red Hot Chili Peppers.
Aliás, no gosto musical sempre se dividiram. Beto, nome que usava como violonista, admirava o dedilhar dos grandes instrumentistas. Vivia numa roda de samba debaixo de uma mangueira histórica no Benfica. Ou nos choros ao pôr do sol do Cais, esperando a Feijoada. Ou nos domingos no Bar da Mocinha. Nara alternava-se entre os roqueiros Biruta e Domínio Público. Mas de um jeito ou de outro, a noite sempre testemunhava seus encontros.
O tempo passara. Afogou-se no trabalho. Fortaleza era pequena demais para a saudade dos bares e praias que frequentaram juntos. Isolara-se com prontuários de diagnósticos malignos.
Já vasculhara a procura dela na internet. Perguntara ao porteiro novato do antigo prédio que desconhecia todos os nomes por ele informados. Uma velha gorda, mulher do síndico, pura a nicotina, contudo, falava que a antiga amada teria se casado com um megainvestidor e moraria na Beira Mar. Dois filhos homens, um de cinco outro de dois. Torcedores do Ceará. Como prova, mostrava-lhe a foto amassada de um jornal. Nara era hoje uma digna socialite, casada com um velho calvo de bigode espesso.
A imagem do nobre na fotografia o perseguiria por mais alguns anos até se encontrarem num final de expediente no hospital público em que atendia. Era o homem da foto, alquebrado, magro, fino, cambaleante, que esperava para se consultar. Nara, fingindo não se lembrar do médico, antigo amásio, pedia socorro.
Mesmo trêmulo, o agora Dr. Roberto atendera com presteza o velho agonizante. Sabia da gravidade do tumor. Pesquisara junto à enfermeira fuxiqueira sobre a vida do paciente: “perdera tudo em investimentos arriscados. A ainda jovem mulher sofria de depressão”.
Era a chance que Roberto sempre esperava para ser perdoado. Não como amante, mas como espírito reencarnado para a reconciliação, tendo outra noite como testemunha.
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MEIRELES, Lucio Telmo. Quando o olho brilhou – Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015. p. 63-65
[8] Inspirado na música Chuva, suor e Cerveja de Caetano Veloso.
[9] Inspirado na música “Quem te viu quem te vê”, de Chico Buarque.
[10] Inspirado na música “Detalhes”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos.

