Abigail, naquele dia, saiu de casa resolvida a decidir de uma vez por todas o problema do banheiro que há tanto tempo atrapalhava seu relacionamento com Hermes. Era uma briga antiga: Abigail insistia em construir um banheiro decente na casa onde morava, pois aquela latada no fundo do quintal — como ela mesma dizia — não se podia chamar de banheiro; enquanto isso, Hermes implicava que o dinheiro da poupança, o FGTS de Abigail, seria muito mais bem empregado na compra de um carro para alugar à Prefeitura, vaga que já havia conseguido através do seu vereador como promessa de campanha.
Logo cedo, com essa guerra doméstica martelando na cabeça, Abigail saiu disposta a ir à Caixa Econômica. Na bolsa colocou todos os documentos, os cartões de crédito do Frangolândia e do Super Aracati, e ainda o celular novo, comprado na Macavi na promoção do Dia das Mães em 12 prestações.
Antes de seguir para a Caixa, resolveu passar na casa da amiga Adina, na rua Dragão do Mar, talvez buscando uma última opinião que confirmasse sua coragem.
— Adina, mulher, resolvi fazer uma reforma lá em casa. Morro de vergonha quando chega uma pessoa e pede para ir ao banheiro.
— E Hermes, o que diz disso? Ele concorda?
— Não, ele quer comprar um carro para alugar à Prefeitura.
— E tu vai contrariar o homem?
— Pois é, mulher...
A conversa não ajudou muito, mas serviu para empurrá-la adiante. Decidida, Abigail saiu da casa da amiga e tomou o rumo da Caixa Econômica na rua Cel. Pompeu, cortando caminho para não ter tempo nem de pensar. Atravessou a rua Dragão do Mar, entrou na Agapito dos Santos, seguiu até a travessa Barão de Messejana e chegou ao prédio da Caixa por volta das onze horas.
Antes de subir as escadarias, porém, a dúvida voltou com força: retirar o dinheiro ou não? Banheiro ou carro? A cabeça fervia. Abigail então fez uma pequena e rápida oração, pedindo ao seu anjo da guarda que lhe mostrasse a melhor solução. Foi quando ouviu, vindo do outro lado da rua, quase em frente ao Mini-Box, um grito:
— É melhor tirar... Tira isso daí...
Pronto. A dúvida se dissipou. O anjo tinha respondido pela boca de um anônimo.
Dentro da agência, recebeu sua senha e esperou cerca de meia hora até ser atendida. Depois de conferir todos os comprovantes e documentos, saiu de lá com R$ 10.000,00 nas mãos — fruto de vários anos de trabalho. Finalmente iria realizar seu sonho. Ou melhor, o sonho de Hermes. Isso se resolveria quando chegasse em casa, depois de uma conversa definitiva sobre a melhor finalidade para aquele dinheiro que tanto tempo permaneceu guardado.
Ao sair da Caixa, já quase uma da tarde, lembrou-se de que não tinha feito nada para o almoço. Pensou em ir à lanchonete do Chicão, na rua do Comércio, mas como já estava tarde, resolveu lanchar ali mesmo, ao pé das escadarias, na carrocinha do irmão Leléo.
De barriga mais tranquila, tomou o rumo da Praça da Caixa d’Água, onde pretendia falar com o motorista do ônibus da Tábua Lascada para transmitir um recado à sua mãe. Ao chegar à esquina do Banco do Nordeste, na pracinha em frente à igreja do Rosário, viu um envelope caído no chão. Apanhou-o. Ao olhar para trás, percebeu uma mulher morena, de cabelo grande e cacheado, procurando algo. Acreditando ser dela, perguntou se havia perdido alguma coisa.
— Um envelope com todo o dinheiro dentro — respondeu a mulher.
— É esse o envelope? — perguntou Abigail, mostrando o que tinha na mão.
— É esse mesmo! Ainda tem gente decente nesse mundo — dizia a mulher, agradecendo desesperadamente.
Nesse momento, aproximou-se um senhor moreno claro, baixo, um pouco calvo, de blusa clara, que perguntou o que estava acontecendo. A mulher explicou:
— Essa senhora, essa doce criatura, me salvou de perder o emprego.
— Como é o seu nome, minha senhora? — perguntou a mulher de cabelo cacheado.
— Abigail.
— Dª Abigail, queria que a senhora me acompanhasse até a esquina da Telemar para que eu pudesse ir à loja do meu patrão trazer uma recompensa.
Abigail, acreditando na conversa daquela mulher distinta, seguiu com ela e com o senhor moreno claro até a esquina da Telemar.
— Dª Abigail, espere só um instante que vou ali na loja de sapatos onde trabalho falar com meu patrão para lhe trazer uma recompensa, pois a senhora merece...
Para reforçar a confiança, o senhor que acompanhava a mulher entregou a Abigail um pacote, dizendo que havia muito dinheiro dentro. Abigail não quis segurar, dizendo que confiava que a mulher voltaria. Mesmo assim, o homem insistiu. Como ela recusasse, ele disse que precisava ir à lotérica e retornaria logo.
Quando a mulher morena de cabelo cacheado voltou, trazia um vale de R$ 100,00 e uma ordem para pegar um par de sapatos. Entregou a Abigail:
— Esse dinheiro e o par de sapatos a senhora pode ir pegar agora na loja São Raimundo. Meu patrão está esperando pra entregar, pois ele vai já sair. Deixe sua bolsa comigo que eu espero a senhora aqui mesmo quando voltar.
Abigail, cheia de boa vontade, entregou sua bolsa — com todos os pertences e o dinheiro de toda uma vida — nas mãos da mulher morena e saiu em busca da loja São Raimundo. Rodou o comércio inteiro. Até que foi informada de que tal loja não existia no Aracati.
Ao retornar ao local onde havia deixado a mulher que aparentava tanta honestidade, não encontrou ninguém. Todos tinham sumido. Foi então que Abigail se deu conta de que tinha sido enganada. Caíra no famoso Conto do Baludo.
A primeira reação foi ficar sem fala. Queria falar, mas não conseguia; mexia os lábios, mas as palavras não saíam, a voz não tinha som. Depois veio o choro desesperado, sem consolo, sem controle, a busca aflita pelo casal de malandros que lhe arrancara um pedaço da vida, arrebatando um sonho que já era quase realidade.
Abigail foi encontrada vagando sem rumo, totalmente descompensada, perto do Colégio Municipal. Populares, vendo sua situação, chamaram um táxi e a levaram à emergência do Hospital Municipal. Por sorte, uma enfermeira que a conhecia avisou ao marido sobre o estado em que ela se encontrava.
Uma semana depois, Hermes foi buscá-la no hospital quando recebeu alta médica. Mesmo assim, ainda teria de continuar com a medicação conforme receitada pelo doutor que a acompanhava.
Um mês após a tragédia do Conto do Baludo, Abigail recebeu um convite para trabalhar na Da Fruta, no período da safra do caju. Satisfeita, saiu cedo para tomar a Topic ao lado da Matriz, rumo ao primeiro dia de trabalho. Da janela da Topic, quando passava em frente à Vila Buiu, avistou Hermes acenando e gritando:
— Vamos fazer o banheiro... O banheiro... o banheiro... banhe...

