Quando se propalou que Plínio Varela fora encontrado em pleno dia estendido no meio da rua, sem pinta de sangue no rosto, macilento, sujo de lama, imundo como o mais vil dos bêbedos, houve uma exclamação geral e dolorosa: – Coitado!

A princípio ninguém quis tomar a sério tão contristadora nova, e toda a gente procurou justificar a sua incredulidade, afirmando, convicta, que Plínio procedera sempre corretamente, irrepreensivelmente, com a máxima prudência: que era um belo rapaz, sério e ajuizado, incapaz de semelhante desonra: que nunca o tinham visto beber sequer um gole de bordeaux ao jantar, quanto mais a ponto de andar caindo escandalosamente nas ruas de uma cidade – ele, um filho-família nobre, ele, um fidalgo!

Calúnias... Inventaram-se logo mil histórias, cada qual mais extravagante, para justificar o fato, caso fosse verdadeiro...

Se Plínio fosse um simples burguês, um maltrapilho, um miserável – nada mais natural; mas Plínio era filho do sr. visconde, e, portanto, o caso mudara inteiramente de figura, oferecendo-se aos olhos da bisbilhotice humana sob um aspecto novo e fenomenal.

Segredava-se que o jovem perdera no jogo quase toda a fortuna, empenhando até joias da família, comendas e brasões...

A maior parte das conjecturas versavam sobre assuntos amorosos.

Na rua, nos cafés, nas tavernas, em toda a parte se comentavam os atos desregrados de Plínio Varela. – Ninguém o via agora que não fosse delirante de embriaguez, de copo em punho, e valente, desfeiteando a uns, insultando e desrespeitando a outros, como um louco, no auge de uma superexcitação ridícula e teimosa.

Desgostos! Tédio da riqueza! Vício hereditário...

A verdade é esta: Plínio amava de longa data uma Carolina Mendes, mulher tão opulenta de carnes como pobre de dinheiro, que ele arrebatara da miséria para colocar ao lado das mais luxuosas cortesãs do Rio. Graças a ele (felicidade inaudita!) Carolina ostentava diademas de brilhantes, braceletes caríssimos, ricos vestidos suntuosos e carruagem de assentos estofados e belíssimos, um esplêndido palacete em Botafogo.

Foi assim que uma simples e anônima costureira se tornou rica e desejada.

– Aí tens tudo quanto precisas, filha, dizia-lhe Plínio: eu só desejo, eu só ambiciono o teu amor, o teu amor absoluto, incondicional!

Ela jurara não o deixar nunca, viver exclusivamente para ele.

Um dia, porém, ao entrar em casa de Carolina, Plínio notou que ela não fora recebê-lo à entrada, como era costume. – Oh!... nunca lhe acontecera aquilo!

Bateu palmas. Nenhuma voz, Nenhum criado!... Todavia a casa estava aberta...

Plínio empalideceu, e, cobrando ânimo, galgou sem fôlego, duma assentada, o último degrau superior da escadaria e logo investiu para os aposentos da sua amante.

– Carolina! chamou o fidalgo.

Mas ninguém respondeu. Ria-se para ele a careta de um clown pousado sobre a mesa, em bronze.

– Carolina! repetiu com a voz trêmula.

O mesmo silêncio de catedral deserta, o mesmo abandono glacial de sepultura aberta, a mesma desolação...

Imóvel no meio do quarto, Plínio viu passar a sombra de um gato, cujos olhos luziam como duas tochas de fogo, debaixo da cama.

– Que diabo! murmurou. Dar-se-á o caso?...

Veio-lhe à ideia um crime, alguma desgraça.

O aposento principal de Carolina conservava o mesmo aspecto de sempre, a mesma ordem, o mesmíssimo arranjo dos móveis. Lá estava exatamente à cabeceira do leito, esbelta e graciosa, a figura mitológica de Vênus surgindo das espumas, nua, cabelos soltos, túmidas as pomas cor de leite... Vênus sorria deliciosamente na rica tela de Bonhomme.

Sobre uma pequenina e artística mesa de ébano, trabalhada a lavores, um magnífico relógio de mármore indicava – XII.

Plínio aproximou o ouvido: estava parado.

Apreensões sinistras tomaram de assalto o jovem fidalgo.

– E esta! exclamou, cruzando os braços, estatelado. Veem-se coisas!...

Depois, com o passo incerto, a respiração curta, e o olhar úmido, percorreu toda a casa escrupulosamente, desde a grande sala da frente, onde os passos morriam na rica tapeçaria de felpa, até os fundos, e, como fulminado por um raio, foi cair, pálido de cólera, roído de ciúmes, soluçando de amor, naquele mesmo leito coberto de renda e escumilha, perfumado a sândalo, com espelhos de cristal, que fora tantas vezes seu ninho de felicidade, agora transformado, ó escárnio! em leito de amargura!

Soluçou como um desesperado, no triste silêncio da alcova, e para não chorar como uma criança todo o resto da noite, ergueu-se com um salto, precipitando-se portas fora, possesso...

Ria o clown de bronze e ria a Vênus de Bonhomme...

No dia seguinte foi encontrado o pobre fidalgo no meio da rua, sem pinta de sangue no rosto, sujo de lama, imundo, como o mais vil dos bêbedos.

Gente parava e repetia:

– Coitado!...

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CAMINHA, Adolfo Ferreira. Contos – Fortaleza: Editora UFC, 2002. p.87-90

Em A Revista do Norte, ano V, n. 2, outubro de 1905, com o título O Fidalgo.