Uns com tanto, outros com quase nada. Assim foi a vida de Chico, sem sobrenome conhecido, sem pai, sem mãe, sem herança e sem futuro desenhado. Criou-se pelas bandas da Cacimba do Povo, em Aracati, tendo por família apenas dona Luíza, avó viúva havia tanto tempo que já não recordava o som da voz do marido.

Eram anos duros. Não existiam Bolsa Família, SUS, auxílio social ou qualquer mão estendida pelo governo. A pobreza andava solta pelas ruas, entrando pelas portas sem pedir licença.
Dona Luíza sobrevivia do labirinto.
Passava horas curvada sobre o tecido, desfiando, torcendo, cortando e preenchendo vazios para transformá-los em flores, estrelas e arabescos. Suas mãos, embora encarquilhadas pelo tempo, pareciam possuir inteligência própria.
Primeiro, trabalhou para Chico Domingos, conhecido comerciante do ramo. Depois da morte dele, tornou-se a labirinteira de Geraldo Tira-Língua, homem de apelido estranho e fala mansa.
O pagamento era tão magro quanto os gatos da vizinhança. Feijão, quando havia. Farinha, quase sempre. Carne, apenas quando algum santo resolvia interceder.
Chico cresceu nesse ambiente. Magro era pouco.
Parecia ter sido desenhado a lápis. As pernas eram tão finas que o povo dizia:
— Esse menino foi criado dentro de uma garrafa!
Mas o que lhe faltava em peso sobrava em inteligência.
Conhecia cada moita da região. Caçava preás. Pescava piabas. Apanhava camarões. Catava caranguejos.
Se lhe entregassem uma vara de pescar e um pedaço de linha, voltava para casa alimentando meio quarteirão.
Quando não estava nessas aventuras, sentava-se ao lado da avó. Observava-a trabalhar. O menino ficava fascinado. Via surgir beleza de um simples pano. Mas também refletia:
— Vó, por que só fazem toalhas, caminhos de mesa e colchas?
— Porque sempre foi assim.
— E se fizessem outras coisas?
— Outras coisas, o quê?
— Não sei… coisas diferentes.
Dona Luíza ria. A inovação nunca foi muito bem-vinda no mundo do labirinto.
Certo dia, quando Chico estava perto dos dez anos, a avó o levou para entregar uma colcha na casa de uma senhora rica da Rua Grande. Foi uma revelação.
Os olhos do menino passearam pelos móveis lustrosos, pelos quartos espaçosos, pela cozinha enorme e pelo quintal bem cuidado. Tudo lhe parecia pertencer a outro planeta.
Mas foi no fundo do quintal que ocorreu o acontecimento decisivo de sua vida. Ali estava um varal. Um simples varal. Ou, pelo menos, era simples para qualquer pessoa normal. Para Chico, era uma exposição de arte. Balançando ao vento, presas por pregadores coloridos, estavam peças íntimas femininas dos mais variados modelos.
Pequenas. Delicadas. Coloridas. Algumas com rendas. Outras com bordados. Pareciam bandeiras de um país desconhecido.
As peças íntimas utilizadas por dona Luíza eram grandes, severas e práticas. Aquelas não. Tinham graça. Fantasia. Moviam-se ao sabor do vento como borboletas domésticas.
Chico ficou hipnotizado. Na volta para casa, não falou uma palavra. E, naquela noite, mal conseguiu dormir. Não porque tivesse descoberto qualquer malícia. Aos dez anos, ainda não conhecia tais caminhos.
O que o encantara fora a beleza. A variedade. As cores. A dança silenciosa daquele estranho jardim de pano.
Foi então que nasceu sua mais extravagante ideia. Criaria uma coleção. Uma coleção particular daqueles pequenos estandartes voadores.
Com o tempo, passou a visitar quintais durante as horas da sesta.
Enquanto a cidade dormia, Chico passeava pelos fundos das casas. Algumas peças desapareciam. Outras apareciam misteriosamente em seu esconderijo. Ninguém sabia. Ninguém via. E ninguém imaginava.
Seu tesouro crescia. Havia peças vermelhas, azuis, amarelas, floridas e rendadas. Cada uma recebia um nome. A mais elegante chamava-se Condessa. A mais colorida era Rainha do Oriente. Uma rendada ganhou o título de Princesa das Nuvens. E assim por diante.
Mas o mais curioso ainda estava por vir. Utilizando restos de barbante, pedaços de madeira e uma criatividade que faria inveja a muito engenheiro, Chico criou, no quarto, um sistema de cordas. Ao puxar uma manivela improvisada, as peças deslizavam lentamente diante de seus olhos. Era um desfile. Um verdadeiro concurso de beleza.
Sentado em uma caixa de querosene transformada em poltrona presidencial, ele anunciava:
— Senhoras e senhores, começa agora o Grande Concurso Internacional dos Varais de Aracati!
Então surgiam as concorrentes. Ele aplaudia. Assobiava. Dava notas. Fazia discursos. Declarava vencedoras. Entregava prêmios imaginários. Às vezes, realizava até entrevistas.
— Como a senhora se sente após conquistar o primeiro lugar?
E respondia com voz fina:
— Muito emocionada.
Naquele quarto pobre existia um reino. E Chico era seu único súdito, rei e plateia. Talvez fosse apenas solidão. Talvez fosse imaginação. Talvez ambas as coisas juntas.
Os anos passaram. A coleção cresceu. A fama também. Não a fama do colecionador secreto, mas a de rapaz esquisito, sonhador, sempre olhando para o céu e conversando consigo mesmo.
Foi nessa época que ganhou o apelido de Chico Califont. Ninguém sabia exatamente por quê. Em Aracati, apelidos nascem sem certidão de nascimento. Aparecem. Pegam. E ficam.
Então veio a maior tragédia de sua vida. Morreu dona Luíza. Com ela, desapareceu o último laço que o prendia ao mundo. Foi-se a avó. Foi-se o labirinto. Foi-se o feijão certo de cada dia. Foi-se a conversa da noite. Foi-se a casa. Foi-se tudo.
A coleção já não tinha graça. O desfile perdeu o brilho. O concurso foi encerrado. O reino dos varais entrou em decadência. Chico passou a vagar pelas ruas. Mais magro. Mais silencioso. Mais distante. Definhou lentamente, como uma vela esquecida ao vento.
Faleceu em abril de 1960, aos dezoito anos, no dia em que o açude Orós arrombou e as notícias da tragédia corriam pelo Ceará.
Pouca gente percebeu sua partida. Menos gente ainda a lamentou. Mas talvez, em algum lugar inacessível aos homens, exista um enorme varal balançando ao vento.
E talvez Chico Califont esteja por lá. Organizando mais um concurso. Distribuindo medalhas imaginárias. Aplaudindo suas campeãs. E sorrindo como sorria quando menino.

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Fortaleza, 23 de junho de 2026