Os cabelos encaracolados, a pele alva, a eterna barba desgrenhada e por fazer e, principalmente, o timbre de voz, assemelhava muito Daniel Medeiros ao seu ídolo maior na música, Renato Russo, a ponto de incorporar o sobrenome do artista famoso ao seu, quando se apresentava juntamente com a banda cover Religião.
No palco, em êxtase, esquecia que era o jovem professor de química, com dois filhos para sustentar: Maurício, de oito anos, e Clarice, de apenas quatro, frutos do casamento com a namorada do bairro, Leila, que engravidou aos dezesseis. Ele, mais velho, em dezembro de 1991, já contava com vinte e nove.
Em virtude dos compromissos, os shows haviam escasseado naquele ano. Além disso, sem disco novo da Legião Urbana, parecia que todo mundo só queria ouvir música sertaneja. Com a agenda vazia de apresentações, o violão ficara até um pouco descuidado e desafinado. Como consequência da frustração em fazer algo que não o agradava, o magistério para ele havia se tornado um fardo, a ponto de dizer que odiava tudo aquilo, literatura, gramática, vestibular e, principalmente, química.
Com o tempo, a depressão atingia o jovem professor a olhos vistos e, para piorar, àquela altura, já se encontrava apaixonado por Natália, uma bela morena que só andava com um vestidinho hippie. Queria ainda, além de pôr fim a um casamento de conveniência social, dedicar-se à sua carreira como músico. Mas não podia, as circunstâncias o impediam e evidentemente aquilo o entristecia muito.
O maior medo, sem dúvida, seria da reação furibunda do conservador pai, caso anunciasse, ao mesmo tempo, o divórcio e que largara o emprego na mais famosa escola da Aldeota, que era dirigida por sua sogra.
Por sorte, vieram as férias do final do ano. Na loja de discos situada na Santos Dumont, havia um cartaz gigantesco, com um desenho de uma lua e uma estrela, numa tela toda branca. Era o quinto e muito aguardado novo disco da Legião Urbana. Como de costume, comprou logo um long player para ouvir na vitrola e uma fita cassete para ouvir no carro.
Ao retornar para casa, encontrou Leila, cara de poucos amigos, anunciando que Nando, o baixista, o aguardava na sala. Havia um convite para tocar no Icaraí Clube no sábado seguinte, dia 14 de dezembro de 1991, mas teriam que ensaiar à exaustão as canções do novo disco da Legião. A turma toda o esperava com certa ansiedade num condomínio da praia situada na cidade cearense de Caucaia.
De carrancudo e taciturno, Daniel correu, jogou umas peças na mochila OP, umas camisas com a foto de Renato, Dado e Bonfá, beijou as crianças, deixou uma quantia em dinheiro na mesa da sala e, adentrou no velho Fiat do amigo em direção ao Icaraí. Na estrada, destruiria uma garrafa de conhaque. Não sabia se o frio da barriga seria em função da apresentação, do repertório do novo disco que não conhecia profundamente ou se viria da informação de que Natália estaria na mesma praia.
Dias depois, naquele domingo, 15 de dezembro de 1991, Daniel Russo estava mais deprimido do que nunca, apesar de o show da noite anterior ter sido um sucesso. Muitos até pensavam se tratar do Russo original. Nos bastidores, Daniel e Natália se entenderam. Fizeram muitos planos. Ele iria se divorciar e pedir demissão. Tudo parecia às mil maravilhas. Mas não, na manhã seguinte, a depressão o atingiria como nunca.
Ao final da tarde, sozinho, de ressaca, Daniel resolveu ir até à praia. Deprimido, nem um casal de cavalos marinhos formando um coração o animara. Fixou-se no horizonte. Subiu nas pedras, pensou até em se jogar de lá de cima. Hesitou, voltou para a beira do mar. A onda lenta e quente tocava-lhe os pés. Sentiu o vento na face, gostaria que a brisa levasse muitas das suas angústias naquele instante. Mas era inútil, nem o vento se encarregava de livrá-lo da dor que sentia e do medo que o entorpecia.
Tresloucado, aos prantos, tirou a roupa. Era começo de noite. Completamente nu, adentrou mar adentro, como se deixasse a onda levá-lo de uma vez. Sentiu um torpor. Perdeu os sentidos como se estivesse em transe. Teve a estranha sensação de ter se desprendido do corpo. Depois, assistiu a um espetáculo de cunho transcendental: acenderam todas as luzes ao redor da linha do horizonte como se estivesse em uma New York natalina ou numa Paris no verão. Via um outdoor gigantesco no céu com uma frase que brilhava insistentemente: "a vida continua e se entregar é uma bobagem".
Minutos depois, Daniel, já recuperado, decidiu "começar a viver". Divorciou-se de Leila, assumiu o amor por Natália e largou o emprego de professor para se dedicar à música.
Em outubro de 1996, quase cinco anos depois, a banda cover Religião, liderada por Daniel Russo, faria um show tributo em homenagem ao recém-falecido Renato Russo, numa barraca na Praia do Futuro. Na plateia, Mauricio e Clarice cuidavam do irmãozinho mais novo, enquanto a madrasta Natália aguardava o marido deixar o palco para beijá-la.
Obs: O texto, bem como os nomes dos personagens foram inspirados em composições de Renato Russo: Vento no Litoral, Química, Vinte e Nove, Daniel na Cova dos Leões, Natália, Leila, Maurício, Clarice.
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MEIRELES, Lucio Telmo. Quando o olho brilhou – Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015. p. 45-48


