Padre Lamenha, vigário de Oeiras, tinha se comprometido, sob palavra de honra, a pregar o Evangelho, d’aí a três dias, em S. José de Arouca. Era um sacrifício, um grande sacrifício; mas uma vez que lhe ofereciam bom cavalo, cama e mesa, iria; um passeiozinho, de vez em quando, revigora o organismo, faz bem ao espírito, conforta a alma...
Os quatro devotos que o foram convidar, ainda bem ele não acabara de resolver pelo sim, ergueram-se vivamente, cheios de gozo, alvoroçados de alegria, d’essa alegria ruidosa e sincera de camponês, doudos por transmitir a grande notícia.
— Que surpresa para a boa gente de Arouca, Sr. vigário! Como todos iam morrer de contentamento!
— Então, domingo pela madrugadinha, sem falta...
— Sim, domingo pela madrugadinha, muito cedo.
Tiniram as esporas, houve um silêncio, e os quatro animais abalaram por aquele mato n’um galope vertiginoso, enquanto padre Lamenha risonho, vendo-os desaparecer no poeiral da estrada, mergulhava outra vez na querida paz do seu isolamento.
S. José de Arouca, outr’ora Riachão da Magdalena, ficava a seis léguas de Oeiras, n’uma eminência, dominando, com o seu belo aspecto de arraial sertanejo, uma vastíssima extensão glauca de floresta virgem, e ao longe, diluindo-se gradativamente n’um crepúsculo de bruma, trêmulo e desmaiado, o perfil indistinto, o vago contorno da Serra Grande, quase perdida na distância, simbólica e misteriosa como uma esfinge do deserto. Via-se a torre de Oeiras, o campanário da matriz, branco e microscópico, lá onde o arvoredo era mais tenro, abrindo uma espécie de claro na mata.
Com esforço distinguia-se a olho nu a casaria irregular do lugarejo, difusa e espalhada, n’uma deliquescência de guache, branquejando ao sol. D’ali é que se contemplava bem, com os olhos e com a alma deslumbrados, a paisagem brasileira, típica, inconfundível, larga e coruscante na sua nudez panteística.
Padre Lamenha pôs-se a pensar na viagem e no sermão, como quem medita profundamente n’um problema abstrato. O sermão era o menos: em último caso ruminava aí qualquer página ad hoc, engatilhava dous ou três versículos da Bíblia...
Afligia-o, porém, a ideia de viajar por aquele sertão de Jesus, — ele, um tímido —, em companhia de homens que não conhecia... Na semana passada um pobre vaqueiro, o Bentevi, fora miseravelmente assassinado...
Pois não era horroroso? Morrer debaixo de um punhal homicida, como qualquer bruto, — “Deus me perdoe” —, sem a Extrema Unção,
lavado em sangue; morrer à ponta da faca ou a tiro de bacamarte, era medonho! Antes um estupor...
Fraqueza ou pressentimento, seu coração lhe dizia (e o coração não engana...) que ficasse. É verdade que, durante quase um ano de vigariado em Oeiras, a vida fora sempre um céu aberto de paz e felicidade. Gozava saúde, graças à Maria Santíssima, e todos o respeitavam.
Dizia-se d'ele como de um santo: — Modelo de virtudes, alma sem pecado, lírio castíssimo... Por que, então, aqueles temores, por que esses receios de quem vive cercado de inimigos? Não sabia: nervoso, talvez...
Entretanto, aproximava-se o domingo, e já agora não havia faltar sua palavra de honra, o seu compromisso inadiável, sob pena de cair no ódio de toda uma população. Naturalmente o esperavam com pompa e foguetório, e tudo quanto pode inventar a crendice de um povo rude. Sua presença era talvez a grande novidade, o chamariz que havia de atrair gente de toda a parte, curiosa de ouvir a palavra inflamada, o verbo eloquente de um sacerdote novo, cheio de virtudes, e cuja fama galopava de vila em vila, de aldeia em aldeia, de sertão em sertão, como uma lenda ideal, casta e vaporosa...
Resolveu-se, por fim, a escrever o sermão.
Queria cousa nova, extraordinária, simples e forte, que abalasse todo aquele povo de devotos e transformasse a igrejinha n'um rio caudaloso de lágrimas: um discurso breve, conciso, mas em que houvesse relâmpagos de uma eloquência máscula e bizarra...
Abriu o grande livro da humanidade, — uma luxuosa edição da Sagrada Escritura, que possuía desde sua primeira missa —, e começou a ler com interesse o capítulo da Conceição de Jesus. Era justamente aí, n'esse ponto melindroso, que o sermão devia revelar engenho e habilidade.
Padre Lamenha devorou toda a página, linha por linha, marcando, com uma cruz vermelha na margem, episódios fundamentais, passagens de maior quilate, detalhes curiosos. Depois, estendendo sobre a mesa uma folha de papel, muito branca, deflorou-a com esta epígrafe solene, cautelosamente desenhada na primeira pauta: “Sermão proferido na vila de S. José de Arouca, pelo Rev. Cristiano de Souza Lamenha, vigário de Oeiras...”
E por baixo, n’uma letra fina de mulher: — “Meus irmãos!”
Estava aberto o caminho. Um pouco de paciência (como aconselhava o velho reitor do Seminário), dois dedos de vinho do Porto, muitas interjeições, e... “a humanidade fluidificava-se em lágrimas”.
Entretanto, o pequeno cronômetro de ouro, pousado na caixinha de veludo, marcava onze horas da noite, e padre Lamenha, tonto de sono, obrigou-se a continuar o trabalho no dia seguinte.
Acabou, com efeito, e pôs-se logo a decorar a obra, passeando ao longo do quarto, recitando a meia voz, brandindo o papel, gesticulando, como se já estivesse no púlpito.
Quando, no domingo, antes da missa da madrugada, os devotos de S. José bateram-lhe à porta, o Sr. vigário já estava de pé, esperando-os, todo perfumado, como se fosse para uma canonização: barba e coroa escanhoados com apuro; gola de renda; batina lustrosa, apertada por uma faixa larga abarcando o ventre; sapatos de verniz com fivelas de ouro; meias pretas de seda...
Tinha perdido as apreensões: “confiava em Deus...”
A madrugada límpida e serena exalava uma deliciosa frescura de selva, um cheiro leve de resina vegetal, — muito meiga, muitíssimo aromada, e o canto dos galos ao longe e o mugir do gado entravam n’alma saudosamente, fazendo pensar em lendas do Natal...
Partiram, acordando a mata com o tropel dos animais. O Sr. vigário, leve e forte, retesava as rédeas de onde em onde, para colher uma flor esquecida à beira do caminho...
De repente, já dia claro, sol fora desmanchando a púrpura da alvorada, estralejou lá adiante, no fim da vereda, uma girândola de foguetes.
Os cavalos estacaram focinhando o ar. Aquilo significava que de Arouca, da torre da igreja, tinha-se percebido a caravana, — o vulto negro do prelado.
Bela surpresa! Romeiros a cavalo vinham ao encontro do ilustre visitante, em bizarros trajes de montaria, segurando triunfalmente estandartes e palmas n’uma nuvem de poeira... S. José de Arouca delirava!
Em torno da capela, enchendo o largo, movia-se uma onda enorme de povo, sob arcarias triunfais de folhagem verde. No topo de um mastro fincado no meio da praça desfraldava-se a bandeira de São José, o patriarca, figurando-o com o menino Jesus no colo, obra talvez de algum pincel herético. Por toda parte lenços e chapéus acenando ao pregador que chegava. Flores caíam-lhe sobre a cabeça n’uma profusão incrível. E, apesar de tudo, ele pôde entrar na casa de Deus incólume, cheio de graça, aclamado, vitoriado, ao estampido festival dos fogos e ao barulho dos pífaros e tambores, como quando Jesus entrou em Jerusalém.
E o seu nome andava de boca em boca, delicioso, néctar celestial... Mulheres de mantilha queriam vê-lo à força, empurrando-se, acotovelando-se, estreitando-se, no bico dos pés.
E quando o padre Lamenha surgiu no púlpito, belo e viçoso, sacudindo as rendas do roquete, espanejando-se todo, houve um longo sussurro de pés arrastados; aquela massa de povo agitou-se espremida,
compacta, informe. Não se viam corpos, via-se uma grande sombra alastrando a igreja.
Padre Lamenha ajoelhou-se calmo, devagar; colou as mãos em atitude de prece, voltado para o altar-mor, e, baixando a cabeça, caiu em êxtase. Depois, ergueu-se, cravou o olhar na imagem do padroeiro, e desenrolou o sermão, dando às palavras um tom dolente de ofício fúnebre, ungindo-as de melíflua ternura, cada vez que se reportava à “Maria Santíssima, Esposa do Patriarca...”
Terminou com a frase de Cristo:
— Ó geração incrédula e perversa, até quando estarei convosco, até quando vos hei de sofrer! — que foi como uma descarga elétrica sobre o piedoso auditório.
Já se ouviam soluços recalcados...
Imediatamente a música arremedou o hino nacional e estrugiram bombas lá fora, no adro da igreja.
E tudo passaria na melhor ordem, se a filha do fogueteiro, a Joaninha, — uma de olhos meigos, muito devota —, não caísse com um ataque.
Àquela frase de fogo: — Ó geração incrédula...! Joaninha soltou um grito e começou a escabujar.
— Água benta, uma pinga d’água benta!
E com pouco a rapariga era conduzida em braços.
Padre Lamenha teve muita pena, e, como estava hospedado em casa do fogueteiro, mostrou-se deveras compungido.
— É uma desgraça, senhor vigário, lamentava o especialista de fogos. Uma desgraça!
— Por que não casa a menina? lembrou o sacerdote. O casamento é um santo remédio...
— Ora, senhor vigário, vontade não me falta...
— E então? A rapariga está se estragando, homem. Cuide n’isso...
O velho não teve réplica. Que fazer?
A filha dominava-o...
De resto, uma síncope ligeira. Com pouco Joaninha estava boa, fazendo roda ao Sr. vigário.
Enquanto se preparava o almoço, um rico almoço de festa, obrigado a leitão e peru recheado, falou-se de Deus. Padre Lamenha censurou o procedimento de certos padres que não sabiam compreender a “divina missão apostólica”; narrou casos horrorosos de apostasia, e louvou a população de Arouca, “gente mansa e devota”.
Joaninha olhava-o com seus olhos meigos de sertaneja bonita, gostando imensamente de ouvir “aquelas histórias”, embebendo-se na palavra do sacerdote, admirando a facilidade com que ele ia dizendo as cousas, possuindo-se de um quase amor inocente por aquele padre virtuoso e simples, todo cheio de bondade, que viera de longe pregar em Arouca. Olhava-o com uma fixidez calma, obrigando-o também a olhá-la cada vez que seus olhos pousavam demoradamente nos d’ele...
Depois da missa todos se recolheram e a vila adormeceu, batida de sol, n’um banho de luz forte, muito clara e risonha. O sino da igrejinha é que de vez em quando badalava um repique festival, lembrando o Te-deum e o fogo de vista.
Corridas pela soalheira, vacas mugiam tristemente, buscando a sombra.
Durante o almoço Joaninha não tirou os olhos do padre, fitando-o com insistência, medindo-lhe a gesticulação, os movimentos, adivinhando-lhe as intenções. Aquele homem de batina e coroa, moço e forte, bem podia fazê-la feliz... Por que é que os padres não se casam?
Não são homens, não pensam, não sentem? E se ela chegasse a amar um padre, haveria crime?
Lembrava-se do sermão, da bela figura do vigário em pé no púlpito, arrancando lágrimas, dominando as mulheres com a sua palavra repassada de ternura, com o seu aspecto de homem casto e sadio...
— Oferece vinho ao Sr. vigário, minha filha.
Joaninha despertou, como se lhe houvessem gritado ao ouvido, e muito solícita, muito pronta, deitou jeropiga no copo do pregador.
— Basta, basta... Obrigado...
Preocupava-o n’aquele momento o mesmo interesse em saber porque é que os padres não têm o direito de amar. Formulava mentalmente o problema, sem encontrar solução clara e plausível. Joaninha, a simples filha de um fogueteiro do sertão, acordara n’ele um forte desejo de amar, de viver exclusivamente para uma mulher...
Ergueu-se com um princípio de melancolia, disposto a ir-se embora logo e logo, antes que chegasse a noite.
Debalde o velho pirotécnico lembrou-lhe a imprudência de uma viagem àquela hora, com sol e o estômago cheio. Achava bom Sr. vigário ficar...
Mas padre Lamenha insistiu: — Ia andando devagarinho; tinha necessidade de estar em Oeiras muito cedo para um batizado...
— Pois bem, pois bem; vossa reverendíssima quer...
E quando, na hora da partida, o sacerdote apertou a mão de Joaninha, sentiu-a gelada e trêmula. A rapariga curvou-se, reprimindo a comoção, e, cheia de respeito, depôs um beijo sobre os dedos do prelado.
— Seja feliz, minha filha, murmurou ele.
— E o Sr. vigário por que não vem a Arouca todos os dias? perguntou Joaninha timidamente. É um passeio... Este povo ama-o tanto...
— Verdade, confirmou o fogueteiro: o Sr. vigário é muito estimado aqui. Por que não vem?
Padre Lamenha sabia que era muito estimado em Arouca, mas...
E logo, resolutamente:
— Adeus, adeus...
Cavalgou o animal, deu de rédeas e sumiu-se por trás do arvoredo, sem pompas nem foguetório, simples cura de almas, humilde pastor de ovelhas.
Joaninha ficou desolada e teria morrido, se padre Lamenha, consciencioso e reconhecido, não voltasse no dia seguinte.
O tímido vigário de Oeiras já não pensava em crimes, e nunca mais perdeu o hábito de viajar à tardinha, uma vez na semana, por aquela estrada que d’antes era o seu pesadelo...
*Este conto foi publicado na Gazeta de Notícias, de 5 de abril de 1894, com o título O Sermão.
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FONTE: CAMINHA, Adolfo Ferreira. Contos – Fortaleza: Editora UFC, 2002. p.77-85

