O grande poeta Manuel Bandeira, tão grande mesmo que a gente nem sabe quem é o maior: se ele ou se Drummond de Andrade, conta como criou Pasárgada. Era um adolescente ainda, aluno de grego no Colégio Pedro II do Rio de Janeiro, e ficou encantado em saber que Ciro possuía uma cidadezinha, no sul da Pérsia, onde passava os verões.
Eu não tenho uma Ciropédia nem uma Pasárgada para passar os verões da minha vida, mas possuo Messejana-sur-Mer, que suplanta todas as cidades do mundo. Messejana-sur-Mer, é bom esclarecer de início, fica em Fortaleza, Ceará, Brasil.
E, nas vésperas de uma nova fuga, eu me recordo de Manuel Bandeira e do seu poema:
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei.
Em Messejana-sur-Mer, não sou apenas amigo do rei: sou irmão do Coronel! Verdade é que isso não dá o direito de possuir a mulher que eu quiser, que isso também já é felicidade demais.
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar.
Messejana-sur-Mer é minha Pasárgada, porém tem muito mais coisa. Tem uma lagoa encantada, dos tempos de Iracema. Tem história cintilante que nenhuma Pasárgada possui. Tem “verdes mares que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, prolongando as alvas praias ensombradas de coqueiros”.
Sim, eu sou da terra de José de Alencar, terra dos “verdes mares bravios, onde canta a jandaia nas frontes da carnaúba”, eu sou do mesmo chão do criador do romance nacional.
Dentro de poucos dias, se o avião não cair pelos longos caminhos estafantes, eu estarei em Menezópolis, que é um sítio real e palpável, localizado em Messejana, e não uma ficção ou uma imagem da adolescência. Estarei acordando com o cantar dos pássaros, das aves domésticas, dentro daquele mundão de mangueiras, coqueiros, sapotizeiros e dezenas de outras árvores frutíferas.
Em Messejana-sur-Mer não há trabalho, nem horário, nem aulas, nem INPS. Há muito sono na rede armada debaixo das mangueiras frondosas, muito livro atrasado para ler, alguns originais para revisar, tudo isso, evidentemente, sem os alcaloides de que fala Manuel Bandeira, mas com muito uísque com água de coco.
Em Messejana-sur-Mer não há plantões nem maternidades. O clima é tão ameno que lá fizeram um sanatório para a cura de doenças pulmonares. E os doentes ficam curados sem medicamento algum: só cheirando aquele que não existe mais na face da terra.
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei em pau de sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar.
*Nascido em Aracati-CE, o escritor Holdemar Menezes consagrou-se na ficção. Em 1972, conquistou o Prêmio Jabuti de Literatura com a célebre obra "A Coleira de Peggy".
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MENEZES, Holdemar. A Vida Vivida: crônicas. — Florianópolis: Ed. Da UFSC/ Ed. Lunardelli, 1983. p. 95-96