Estava Chico da Tuba sentado na calçada de sua casa depois de sua participação na procissão de São Sebastião, tocando seu instrumento na Banda de Músicos Jacques Klein, quando chega sua mulher com seu neto mais novo:
— Chico, tu não vais marcar o Bingo não? — Vou nada. Quero é descansar da procissão. — Vô, vamos então para a casa da Vó Maria — pediu o neto Jorge.
Com o neto Jorge segurando-o pela mão, Chico da Tuba tomou o caminho da casa de Dona Maria, onde o menino queria ficar.
Ao seguir pelo Beco da Dimola, como é conhecida a Travessa Cel. Valente, Chico da Tuba se deparou com um casal que ele não conhecia nem nunca tinha visto na vida, sentado num dos bancos bem no meio do beco. Assim que avistou Chico se aproximando, o rapaz se levantou, agitando os braços e gritando:
— Olha aí quem vai ganhar o carro... Olha aí quem vai ganhar...
E, encarando Chico da Tuba, completou:
— Seu Chico, o carro é seu... O carro é seu... O carro é seu...
Assustado, Chico nada respondeu, ignorando aquela criatura; porém, no pensamento, ironizou a profecia daquela figura que surgira à sua frente sem propósito: — Ganhar como, se nem cartão do Bingo eu tenho?
Ao chegar à casa de Dona Maria, avó paterna do neto Jorge, constatou que ela não se encontrava em casa. Os familiares presentes informaram que ela havia saído para marcar o Bingo da festa de São Sebastião.
Por insistência do neto, Chico da Tuba se dirigiu, meio a contragosto, à Praça dos Prazeres, onde estava sendo realizado o Bingo de uma camionete F-100 ano 1999, em benefício das obras sociais da Igreja.
A praça estava totalmente tomada por uma multidão que tinha vindo de todas as localidades para a festa e a procissão de São Sebastião, aproveitando a oportunidade de marcar também o Bingo, que fora por demais anunciado durante todas as noites do novenário.
Bem no centro da praça, um pouco ao lado, perto do busto do Monsenhor Bruno, Chico da Tuba foi abordado por um vendedor de cartão do Bingo que anunciava:
— São os últimos... Últimos... Os últimos...
Tentando se desviar do vendedor das cartelas, Chico da Tuba, sem querer, esbarrou em seu colega da Banda de Músicos, Serginho Seresteiro, que surgiu de repente:
— Essa cartela quem vai ficar sou eu — disse ele, causando surpresa em Chico, que não tinha visto o amigo aparecer e tirar das mãos do vendedor as últimas anunciadas.
— Pronto, Chico, eu fico com essa primeira e tu ficas com a segunda.
Não querendo causar desfeita ao amigo, que imperativamente lhe colocava nas mãos o bilhete do Bingo da camionete da Festa de São Sebastião, Chico não teve alternativa senão ficar com a cartela e pagar ao vendedor.
Quando tomou a cartela nas mãos, o locutor já chamava a primeira pedra, que Chico da Tuba marcou numa sequência quase sem pausa a cada número anunciado.
Foi tudo muito rápido, sem intervalo...
Um sopro de vento forte e um empurrão da multidão levaram Chico da Tuba para cima do palanque armado em frente à Igreja dos Prazeres. Na pressa e no entusiasmo pelo que estava vivendo, Chico não acertou a entrada lateral do palanque. Querendo alcançar o locutor, que continuava chamando as pedras, teve então que pular o alambrado que circundava todo o palanque, protegendo a mesa onde estavam expostas as pedras chamadas.
E, quase sem fôlego, Chico da Tuba, com a cartela na mão, gritava a todo pulmão:
— Bati... Bati... Bati. Bati...


