A Luís Rosa
Crepúsculo de maio. Nevoento e triste, o feio aspecto da paisagem que meus olhos contemplam numa espécie de abstração enferma, lembra-me, – branca de neve – alvo sudário amortalhando gigantes.
O céu, baixo e torvo, como a tampa de um sarcófago, pulveriza sobre o álgido cadáver da floresta finíssima alma de neve que tomba lentamente, monotonamente, em fios cortantes quase imperceptíveis à vista, alastrando, como uma praga, o cabeço das árvores mumificadas e a profundidade escura da mata selvagem e compacta.
Nem um eco de dor ou de alegria, nem uma nota humana em toda a vasta extensão que me rodeia, prolongando-se cada vez mais – verde escuro toucada de neve!
Um silêncio de morte – oco e aterrador – causa arrepios, comunica uma extraordinária, uma sensação estúpida de catalepsia.
Vê-se perfeitamente, nitidamente, como por um vidro muito claro, o contorno das árvores colossais, os altibaixos do terreno, as depressões do solo, a erva rasteira medrando tímida à beira dos precipícios sem fundo; mais não se pode falar, porque o frio gela a glote e o silêncio gela a alma...
Como deve ser medonha a branca região dos gelos eternos!
Extenuado do peso da minha desgraça, tiritando como um cão tosqueado, rilhando os dentes numa penosa ânsia de calor, os braços cruzados, o cabelo escorrendo neve, repelido por Deus e pela Humanidade, fui andando, andando, sem destino, como um sonâmbulo na noite escura, completamente perdido, completamente desorientado, só, naquele imenso deserto onde a vida era quase impossível...
Veio a noite – noite escura e profunda – sem o conforto de uma réstia de luz carinhosa, sem o tíbio reflexo de um fátuo, sem ao menos a fosforescência de um olhar de fera – noite de remorsos e pesadelos horríveis, escuridão absoluta!
Continuo a andar, apoiado ao meu bastão de judeu errante (única arma que me concedera o Destino implacável, para enxotar os reptis e os cachorros, se os encontrasse...)
Cada vez mais escura a noite. Começo a sentir fome: abro a goela para o ar e bebo a neve que cai. Que horror! a neve queima-me a garganta, como enxofre derretido. Começo a sentir um sono fortíssimo...
Em pé, no meio da longa estrada invisível e sem termo, cedo à fadiga enorme...
E quando, n'uma tortura horrível de todos os sentidos, eu me dispunha a dormir o primeiro sono de criminoso, cortado de remorsos, cheio de sobressaltos – eis que acordo e – milagre dos milagres! – a luz boa e tépida do dia, – esse tônico inefável que nós bebemos pelos olhos – traz-me a compreensão nítida, clara e precisa da vida, e logo uma voz carinhosa, uma voz de mulher, aveludada e doce:
— Acorda, preguiçoso, olha que é dia! Vamos, levanta!
E um beijo fresco e sonoro, como um arrulho de pombo, diz-me alto, bem alto, na paz do meu gabinete, que a realidade, a dura realidade dos filósofos é preferível ao sonho, ao sonho azul dos poetas...
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FONTE: Contos. Adolfo Caminha. – Fortaleza: Editora UFC, 2002. p. 59-61


