Nascera nos confins de Patu, criado entre as feiras na companhia do pai revendendo bovinos e caprinos, seguindo as rodas de repente e sorvendo da poesia dos grandes mestres da cultura do oeste potiguar, numa educação ainda ancorada na religiosidade da mãe, uma professora infantil, que todos os anos obrigava a parentela a pagar promessa no Santuário.
Ainda cedo, quando rapazola, depois de viver embreado nas matas caçando preás, foi residir num pensionato em Mossoró para concluir os estudos. Lá se destacou, sendo considerado um rato de biblioteca, pois prendia-se entre os volumes empoeirados totalmente fascinado pelo mundo da literatura. Naturalmente o destino transformou-o num grande escritor, forjado a partir da sua crônica semanal publicada em diversos jornais.
Sua fama, outrossim, alcançara o Brasil todo, sendo uma figurinha carimbada de diversos programas de entrevistas, além das costumeiras palestras para grupos empresariais, em congressos literários e em vídeos do Youtube. Passou a ser traduzido para diversos idiomas e algumas frases retiradas de seus textos enfeitavam prints e posts nas redes sociais modernas.
Não se limitava a conviver com intelectuais. Entre seus amigos figuravam desde gente simplória do campo em que trocava experiências sobre a criação de gado a mulheres sem estudo, mas com conhecimentos de cura amparada na espiritualidade, geralmente os tipos que viravam personagens dos seus livros. Também se somavam ao seu cada dia mais extenso rol de amigos, políticos e lideranças empresariais das mais distintas cidades que costumava visitar, sendo sempre recebido com banquetes.
Recém devolvido à solteirice, queria logo arranjar uma namorada, de preferência jovem e liberal. Motivado pelo arrefecimento da pandemia, resolveu passar uns dias em Fortaleza, sendo bajulado por amigos e leitores cearenses em doses homéricas de vinho. Foi ao Beach Park, andou de buggy no Cumbuco, pernoitou em Canoa, mas com a preguiça própria dos cronistas não quis ir até a moderna Jericoacoara para não comprometer a imagem na memória de uma vila de pescadores sem luz elétrica que conhecera no início dos anos noventa.
Entretanto, numa bisonha e solitária tarde, a única em que se ocupou de ir até uma livraria - passeio este em que não houve nenhum voluntário entre seus amigos de farra a acompanhá-lo - se deparou com aquela figura esguia, de longos cabelos ruivos, pequena tatuagem indecifrável na perna, que circulava entre as estantes. Era a sua chance - “que mulherão” - mas tímido, não sabia o que fazer. Porém, para a sua grata surpresa, a moça se aproximou e pediu-lhe um autógrafo num livro de sua autoria. Atônito, perguntou-lhe o nome para a dedicatória: “Nancy, encantado”.
Ao aproveitar a oportunidade, convidou-a para uma homenagem que os amigos estavam preparando em comemoração ao seu aniversário, naquela mesma noite, num concorrido restaurante. Nancy confirmou presença sem pestanejar. O escritor, garboso, correu rumo ao hotel para se arrumar. A noite prometia e muito.
Na festa, Nancy chegou com um metaleiro cabeludo, camisa do Paris Saint Germain, mais espinhas no rosto do que quilos. Não se abalou, o escritor iria seduzi-la mesmo assim. Confrontado, passou a investir no seu charme em olhares sedutores para Nancy e a narrar as mais divertidas histórias que agradavam, além do jovem casal, a um seleto grupo de convidados em deleite geral de todos que riam à exaustão.
Na hora dos parabéns, depois de ter se excedido em alguns goles a mais do que o habitual, um emocionado escritor ajeitava metodicamente o relógio e, com a voz embargada, quase rouca, concentrava-se num discurso potente com os olhos determinados sempre fitados em Nancy que, por sua vez, parecia seduzida:
- “Tive uma vida hostil, vim do campo, peguei em enxada, dormi em pensionatos, sofri pelas estradas da vida vendendo a minha arte. Cometi excessos. Amei demais. Traí e fui traído. Me juntei, me separei. Bebi, fumei, apanhei, cresci, mas amei muito. E quero amar muito mais!...Nunca imaginei que ia chegar a esta idade. Agradeço todos os dias a Deus ter tido a dádiva de uma vida tão repleta de amores e amigos...”
Subitamente, Nancy interrompeu o orador:
- “...Mas o senhor, mesmo sendo velhinho, Deus queira, há de viver ainda mais dez anos...”
De repente, fez-se um silêncio demorado. Teria o escritor errado na percepção? Não havia interesse por parte dela. Nancy o achava um velho que só teria no máximo mais dez anos de vida! Ela aceitou o convite apenas por educação ou por pena, mas não pelo homem que ele é... O romancista acusou o golpe. Lenço na testa, respirou fundo, ajeitou mais uma vez o relógio, como se estivesse numa contagem regressiva. Olhou em súplica para a jovem Nancy que estava de mãos dadas com o metaleiro e, quase chorando, reverbera como se implorasse:
- “Só mais dez anos...?”

