Entre os muitos torcedores que se acotovelavam na sala estava a famosa turma do Rabo da Gata, comandada por nosso amigo Luís Keon, que se comportava como podia — e em silêncio — exigência expressa do proprietário da casa e da TV.
Mas no jogo Brasil contra Uruguai apareceu, sem convite e sem cerimônia, o conhecido Pampo, ajudante do ônibus de Joãozinho, aquele que fazia a linha Aracati–Fortaleza. Raimundo Nanu, ao ver aquela turba se aproximando da calçada, tendo à frente Pampo só de calção, camisa aberta e exibindo aquela barriga monumental, tentou espantar a assistência com um prognóstico desanimador:
— O que é que vocês vieram ver? O Brasil vai perder do Uruguai.
O presságio de Raimundo Nanu parecia mesmo profético, porque o Uruguai começou ganhando. Mas bastou o Brasil empatar para Pampo perder o juízo: levantou os braços para o alto e saiu gritando pela sala inteira:
— Aí é Bresil, Reimundo!... Aí é Bresil, Reimundo!...
Raimundo Nanu, com toda a autoridade de dono da casa e da televisão, não tolerou tamanha petulância. Explodiu num grito, dedo em riste apontando a porta da rua:
— Pra fora!... Pra fora!... Cambada de vagabundos!...
Foi uma debandada geral, com Pampo comandando a retirada como se fosse tropa em fuga.
Escorraçada, a cambada lembrou que no Velame, na casa de Bené, havia um rádio. Resolveram então, sem avisar — para ver se o efeito surpresa evitava nova expulsão — assistir ao jogo no rádio do Bené.
Chegando lá, invadiram a sala onde o rádio ABC repousava num pedestal de madeira coberto com uma flanela rosa. Bené, ao ver aquela procissão de desamparados, arregalou os olhos:
— O que é isso? Uma procissão dos desamparados ou uma comitiva de flagelados?
— Bené, liga o rádio no jogo do Brasil.
— Só ligo meu rádio pra ouvir novela e assistir à missa. Jogo aqui mesmo não. Além do mais, as pilhas tão fracas.
Pampo, sempre pronto a resolver o impossível, se adiantou:
— Pelas pilhas não tem problema. Tira as pilhas do rádio e bota pra cozinhar numa panela. Depois de ferver, pega carga.
— Vai, Bené — interveio Keon — resolve logo isso que o jogo tá rolando.
— Só mesmo tu, Luís Keon, pra me fazer atender a um pedido desses.
A contragosto, soltando um muxoxo, Bené tirou as pilhas do rádio e botou na panela com água para ferver. Enquanto esperavam, ouviam ao longe o pipocar dos fogos. Pampo, avexado, apressou-se:
— Vamos tirar as pilhas, senão o jogo acaba e ninguém escuta.
Quando chegaram à cozinha e olharam dentro da panela, viram que a água estava mais fria do que a do pote. O pouco gás do botijão não deu nem para amornar a água: antes de ferver, o gás acabou.