Ainda se escutava o eco do badalar dos sinos, quando se iniciava o cortejo de pessoas pela rua grande do Aracati, caminhando e adentrando pela porta principal da Igreja do Bonfim. Era o badalar da primeira chamada para a missa das 7h da manhã de domingo no Bonfim, igreja e horário preferidos pela tradicional família aracatiense da época. Assim, na missa das 7h de domingo estavam presentes as mais importantes e influentes pessoas da cidade.
O Cel. Alexanzito Costa Lima, acompanhado de toda sua família, chegava no seu lustroso Studebaker, dirigido por Joaquim Mathias, elegantemente vestido com seu fardamento de chauffeur e a devida boina que identificava sua profissão.
Logo depois, Major Bruno Figueiredo, com a Dona Izaura Figueiredo, fazia um par elegante. O Major, sempre com seu indefectível chapéu à moda zamparina e um bem alinhado traje domingueiro, chegava no reluzente automóvel Buick, dirigido por seu motorista particular de nome Peinha.
O desfile de roupas e elegância eram destaques nessa missa do Bonfim; era uma verdadeira competição de galhardia e requinte entre as moças da elite aracatiense, que se esmeravam nos vestidos comme il fault, no rigor da moda.
Na parte central da nave, todos se acomodavam nas suas cadeiras particulares com assento de palhinha, feitas ao estilo da época, das melhores madeiras de lei importadas da Europa, com genuflexório acarpetados de veludo.
O acompanhamento do ritual da missa tinha, em certos momentos, identidade com as óperas clássicas, tal qual era a grandiosidade do coro, que tinha como solistas de violinos os Senhores Sales Gurgel e Samuel Lima, e no órgão Henrique Klein. Os cânticos eram entoados pelos Marianos e pelas Filhas de Maria, que formavam a ala que, durante a missa, acompanhava e interagia com o celebrante, seguindo o rito da celebração num impecável latim.
Os Marianos tinham em suas fileiras personalidades como José de Janes, Sr. Mamede Pontes, Sr. Chico Domingos... As Filhas de Maria eram moças prendadas e sempre de conduta ilibada, que, por sua dedicação à Igreja, permaneciam quase sempre sem casar-se... Mas, em compensação, ganhavam o céu com todas as indulgências plenárias que tinham conseguido fazendo penitências e orações...
A missa das 7h da manhã dos domingos tinha como seu celebrante oficial o vigário Padre Manuel Pacheco, que sempre iniciava seus sermões com uma frase em latim, definindo uma parábola ou uma passagem da Bíblia...
O inesperado nessa celebração dos domingos era a presença nem sempre contínua da velha Maria, que, por causa do seu aspecto e andrajos, recebera o apelido de Barrã – Maria Barrã – e que intempestivamente penetrava pelo corredor central da nave, declamando em altos brados a seguinte quadra popular:
Deixa a nobreza passar,
Quem é pobre não tem luxo,
Deixa a nobreza luxar”...


